Mónica Garriga. Sydney (Austrália), 18 nov (EFE).- Uma equipe de arqueólogos da Nova Zelândia buscará duas caixas de uísque de malte escocês de uma safra especial enterrada há um século sob o gelo da inóspita Antártida.

Os cientistas, membros da sociedade para a conservação do patrimônio histórico da antártida neo-zelandesa, realizarão a expedição em janeiro do próximo ano.

O "tesouro" são duas caixas de uísque da renomada marca McKinlay & Co que pertenceram ao explorador irlandês Ernest Shackleton, que entre 1907 e 1909 fracassou em várias tentativas de ser o primeiro a pisar no Polo Sul.

Em 2006, dois arqueólogos descobriram 25 caixas do uísque protegidas sob o gelo debaixo de um tablado de madeira em uma cabana construída na expedição de Shackleton, mas na aquela época as caixas e as garrafas estavam cobertas por uma espessa camada de gelo o que impediu que fossem desenterradas.

As autoridades zelandesas querem que os arqueólogos recuperem as duas caixas, mas as outras deverão permanecer no local, como assim determina o Tratado da Antártida, um acordo de patrimônio histórico assinado pelos 12 países que co-administram o continente gelado.

Quando forem extraídas do gelo, as garrafas serão transferidas à Nova Zelândia, onde serão restauradas antes de devolvê-las à Antártida novamente ao mesmo lugar onde foram deixadas pelos exploradores.

A destiladora escocesa Whyte & Mackay, que distribui a marca McKinlay, defende que tem direito de receber uma garrafa ou pelo menos uma mostra do uísque que parou de ser produzidos há muitos anos.

Conforme a Whyte & Mackay, as garrafas devem estar intactas e é bem possível que o sabor do uísque tenha melhorado, mas ressalta que como as garrafas ficaram inclinadas, as tampas podem ter sido corroídas, o que pode ter alterado o aroma.

A destiladora quer analisar a composição para tentar elaborar um uísque com esse mesmo sabor, um ponto que não interessa ao chefe da expedição de arqueólogos, Al Fastier.

"Passaremos algum tempo na cabana de Shackleton com o objetivo de extrair o uísque", explica Fastier.

Os expedicionários utilizarão ferramentas especiais para perfurar o gelo que está no entorno da construção sem prejudicar o "tesouro" guardado no subsolo.

A fracassada campanha de Shackleton, conhecida como a Expedição Nimrod, foi a primeira de três aventuras para tentar chegar ao ponto mais meridional do globo.

Quando estava só a 160 quilômetros de distância de seu objetivo, os exploradores ao comando do irlandês decidiram abandonar a meta pelo mau tempo e a escassez de alimentos.

Fastier questiona por que o grupo de Shackleton não bebeu o uísque enquanto esperava a chegada da equipe de resgate: "tudo isso faz parte do mistério que provavelmente nunca será desvendado".

Na época, a expedição foi financiada por investidores privados, alguns dos quais contribuíram com dinheiro e outros com presentes, o que explica a presença de uísques na cabana "para celebrações especiais", explica o chefe da equipe de arqueólogos neozelandeses.

Alguns dos companheiros de Shackleton conseguiram chegar ao ponto magnético e realizaram importantes trabalhos científicos, embora tenham tido que deixar para trás todas as equipes, incluídas as 25 caixas do uísque.

Fastier considera que a decisão do aventureiro irlandês de dar meia-volta quando estava tão próximo do objetivo "foi valente" porque conseguiu salvar todos os seus homens "e este é um grande resultado".

Dois anos mais tarde, o Polo Sul foi finalmente conquistado pelo norueguês Roald Amundsen, que por apenas uns dias ganhou a corrida do britânico Sir Robert Falcon Scott. EFE mg/dm

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