SÃO PAULO - A manhã começou com a notícia de que haveria uma viagem até o local onde estava um importante comandante das Farc. A ex-candidata à Presidência da Colômbia Ingrid Betancourt, mantida como refém da guerrilha desde 2002, viu dois helicópteros brancos pousarem nas proximidades de seu cativeiro na selva. Ela e outros 14 reféns embarcaram, conduzidas pelo comandante local da guerrilha, conhecido pelo nome de César, responsável pela guarda de um grupo que totalizava 40 reféns.

Betancourt, de 46 anos, imaginou que os tripulantes e os pilotos, alguns com camisetas de Che Guevara, fossem rebeldes, apesar de terem se apresentado como integrantes de uma missão humanitária. Pareciam ter a confiança de César, descrito por ela depois como um déspota cruel. Mas, a certa altura, em pleno vôo, ela viu o comandante no chão, com os olhos vendados , rendido sem reação pelos homens que afinal se identificaram como integrantes do Exército colombiano. O helicóptero quase cai, porque pulamos e nos abraçamos , contou ela, sorridente e bem disposta, vestida com um colete camuflado, momentos depois de ter desembarcado de um avião militar para abraçar a mãe, amigos e parentes numa base aérea.

A operação de resgate, que segundo a imprensa colombiana começou a ser planejada em meados do ano passado, foi um dos maiores feitos políticos e militares do governo do presidente Álvaro Uribe. E ocorre num momento em que o presidente disputa uma queda-de-braço com a Suprema Corte, que tem contestado a legalidade do segundo e atual mandato de Uribe, com base em denúncias de que o governo teria comprado voto de um parlamentar para aprovar a emenda da reeleição de Uribe de 2006. Isso cria uma cortina de fumaça sobre as questões políticas , disse ao Valor Ariel Ávila, analista da Corporación Nuevoarcoíris, entidade de pesquisa sobre segurança. Mas ao mesmo tempo, reforça a imagem perante o eleitorado de que a política de mão-dura contra os grupos armados e o Plano Colômbia - financiado por Washington - está realmente dando resultado.

Uribe conta com 80% de aprovação popular. E, com esse capital político, Uribe propôs na semana passada um referendo para garantir apoio eleitoral para que siga até o fim de seu mandato em 2010 independentemente da invalidação ou não sua segunda eleição. O resgate de Betancourt deverá fortalecer ainda mais Uribe eleitoralmente.

No entanto, diz Ávila, o triunfo mais importante talvez seja o golpe moral que captura representa para as Farc . As Farc, que chegaram a ter 19 mil homens no início da década, teria sido reduzida a cerca de 11 mil homens. O resgate é mais um revés para os rebeldes que só este ano perderam cinco altos comandantes, entre eles Raúl Reyes, morto em território equatoriano num polêmico ataque da Colômbia, e Manuel Marulanda, líder máximo da maior guerrilha da América Latina. As Farc estão em combate a quatro décadas no país.

Segundo o relato oficial, o Exército conseguiu infiltra-se como um grupo próximo à estrutura das Farc, ganhar a confiança de César e convencê-lo de que iriam todos - guerrilheiros e reféns - até Alfonso Cano, o principal e novo líder das Farc, ou a Mono Jojoy, outro comandante, disse Betancourt ao narrar o que ouviu dos guerrilheiros de manhã.

Além da ex-candidata a presidente e ex-senadora que tem cidadania francesa e colombiana, três cidadãos americanos e 11 colombianos (soldados e policiais) foram libertados.

A libertação provocou reações pelo mundo e comoveu os colombianos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse por meio de nota ter esperança de que tenha sido dado um passo importante para a libertação de todos os demais seqüestrados, a reconciliação de todos os colombianos e a paz na Colômbia . Para o chanceler Celso Amorim, as recentes baixas e derrotas das Farc mostram que os revolucionários estão enfraquecidos. Mas desmontar uma estrutura desse tipo é algo mais complexo.

(Marcos de Moura e Souza | Valor Econômico)

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