Os presidentes da França, Nicolas Sarkozy, e da Comissão Européia, José Manuel Durão Barroso, buscam apoio para a convocação de uma cúpula destinada a refundar o sistema financeiro internacional. O evento, que deverá ocorrer logo após as eleições nos Estados Unidos, já está sendo chamado de Bretton Woods 2, em referência à conferência que, em 1944, criou o atual sistema.

"Estamos enfrentando o pior e, se não tomarmos atitudes amplas, será fatal", disse Sarkozy.

Depois de ir aos Estados Unidos para convencer o presidente George W. Bush a convocar a conferência, a liderança européia agora vai aos países emergentes (Brasil, China, Índia, Rússia, México e África do Sul). O governo inglês já fez contato com o Brasil para coordenar posições.

Ontem, no Parlamento Europeu, Sarkozy disse que não é mais possível ignorar os países emergentes na formulação das novas propostas. "Eles são parceiros essenciais", afirmou. "A China é uma potência em termos de capital disponível e certamente precisa estar envolvida na recriação do sistema."

Nesta semana, Sarkozy e Barroso vão participar da Cúpula Ásia-Europa, em Pequim, e aproveitar para convencer indianos e chineses a assumir parte da responsabilidade na formulação do novo sistema. Com reservas de US$ 1 trilhão, a China até agora não disse se está disposta a participar. Os indianos vem se mantendo discretos também.

Nos bastidores, os emergentes têm demonstrado a intenção de não participar se não tiverem voz e voto e o peso dos ricos. Na reunião do G-8, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou irritado ao saber que a declaração final do encontro foi distribuída aos jornalistas antes da sua participação.

A estratégia do líder francês é criar um sistema com pelo menos seis princípios. Um deles é que nenhum banco que opere com dinheiro estatal funcione em paraísos fiscais. A remuneração de executivos financeiros deve ser calculada para premiar comportamentos responsáveis, não os arriscados.

Além disso, regras internacionais de contabilidade precisariam ser formuladas, respeitando os interesses de todos os países. Para Sarkozy, há hoje uma "ditadura" dos Estados Unidos nesse tema. O sistema cambial das principais moedas precisa ser repensado. A França acredita que deve haver algum meio termo entre o câmbio fixo e o flutuante.

A conferência deve, ainda, lidar com o déficit americano. Para os europeus, o mundo não pode continuar financiando esse desequilíbrio sem ter mais voz nas decisões globais. Hoje, parte do déficit dos Estados Unidos é financiado até pelos países emergentes.

Para observadores, os europeus tentam, com isso, reverter mais de meio século de domínio americano nas finanças, com leis que colocariam regras válidas para todos e levam em conta os interesses das economias européias. Não por acaso, o governo americano resiste.

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