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As autoridades financeiras européias acreditam que a atual crise financeira justifica sua vontade de reforçar com rapidez a vigilância dos mercados frente aos Estados Unidos, os culpados por essa situação por terem, durante muito tempo, se negado, em nome do liberalismo, a intervir nesse setor.

"Não podemos aceitar ter que pagar o pato por causa de uma regulação falha", advertiu esta semana o primeiro-ministro francês, François Fillon, cujo país exerce a presidência temporária da União Européia (UE).

"Nos Estados Unidos, os atos financeiros têm uma séria responsabilidade no que é preciso chamar de um desvio do capitalismo", acrescentou Fillon, enfatizando que a "Europa espera que as autoridades americanas assumam suas responsabilidades".

A mobilização em massa de dinheiro dos contribuintes nos Estados Unidos frente à crise e à estatização da seguradora AIG num país capitalista por excelência e as promessas de Washington de regular melhor no futuro os mercados voltam a colocar de novo no centro do debate o papel do Estado e a necessidade de não deixar tudo nas mãos do setor privado.

"Estou bastante impressionado por constatar que, no mundo anglo-saxão, as coisas hoje em dia são tratadas como se tivéssemos escolhido estar à frente desse fenômeno", ironizou o presidente do Eurogrupo (foro de ministros das Finanças da Eurozona), o primeiro-ministro luxemburguês, Jean-Claude Juncker.

"Agora redescobriram que os governos ainda são necessários ", arrematou.

Antes do início da crise financeira, os países da Eurozona pediam, em vão, tanto nos fóruns internacionais como no G7 (grupo dos sete país mais industrializados do mundo), medidas que disciplinassem a especulação financeira, como, por exemplo, os "hedge funds" (fundos de investimento livre).

Justamente eram a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, os mais afetados pela crise, os mais contrários a regular os mercados.

Mas as coisas mudaram com a crise, por exemplo, com a quase falência do banco britânico Northern Rock, que convenceu os britânicos a se somar à Alemanha e à França num sistema reforçado de vigilância financeira.

Nesse sentido, a UE examina atualmente dois projetos, um deles que visa a enquadrar de forma rígida as atividades das agências de classificação financeira, que devem verificar a solvência dos devedores e que são acusadas de não terem cumprido com seu trabalho.

A outra iniciativa, apresentada pela Comissão Européia, busca uma melhor coordenação em nível europeu da vigilância do setor das seguradoras.

No próximo mês deve ser lançado um projeto similar para os bancos, que pretendem construir uma arquitetura pan-européia para ter noção das múltiplas fusões transnacionais dos últimos anos.

Mas se os 27 membros da UE não constituem um exemplo em termos de regulação, os problemas persistem para se chegar a um acordo sobre os detalhes deste último projeto, considerado de extrema importância.

"Devemos acelerar o ritmo da coordenação em escala européia", pediu o comissário europeu para Assuntos Econômicos, Joaquín Almunia, ao exigir firmeza no setor.

"Devemos avançar mais rápido, não podemos esperar que uma entidade financeira, que opera em sete ou dez países da União, tenha problemas, como ocorreu com o Lehman Brothers ou Bear Stearns nos Estados Unidos", concluiu.

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