O governo dos Estados Unidos pode começar a comprar participações em bancos privados antes do fim deste mês. O Tesouro confirmou que vai injetar capital nos bancos americanos que enfrentam dificuldades, em troca de participações acionárias sem direito a voto.

Trata-se de uma admissão tácita de que apenas o pacote de resgate aprovado na semana passada pelo Congresso, que prevê a compra de ativos podres dos bancos, não seria suficiente para descongelar o mercado de crédito. O Tesouro vai usar parte dos US$ 700 bilhões do pacote para capitalizar diretamente os bancos, mas não terá assento nos conselhos de administração das instituições financeiras.

O Federal Reserve (Fed, o banco central americano) vinha defendendo a idéia de capitalização dos bancos há alguns meses. Mas o secretário do Tesouro, Hank Paulson, resistia, porque se trata de uma enorme intervenção do governo na economia. No entanto, como até agora nenhuma das medidas adotadas pelo governo - linhas de crédito, redução de juros coordenada com outros bancos centrais, anúncio do pacote - conseguiu desbloquear o crédito, o Tesouro optou pela ação mais radical para restabelecer a confiança no sistema.

A porta-voz da Casa Branca, Dana Perino, afirmou que Paulson está "levando em consideração de forma ativa" a injeção de capital em bancos com problemas. O programa de recapitalização dos bancos poderia começar com um valor entre US$ 200 bilhões e US$ 350 bilhões e aquisições de 10% a 15% de participação, segundo fontes.

Uma das inspirações para o programa de recapitalização dos bancos foi o megainvestidor Warren Buffett, que recentemente investiu bilhões de dólares na General Electric e no Goldman Sachs em troca de ações preferenciais. Ele injetou capital em uma hora difícil para essas empresas, e, em troca, vai receber boa remuneração.

Se o Tesouro efetivamente prosseguir com o programa, estará seguindo o exemplo do governo britânico, que na quarta-feira anunciou que vai injetar US$ 87 bilhões em bancos problemáticos em troca de ações preferenciais. Ao recapitalizar os bancos e tirar de seus balanços os ativos podres, o governo espera que as instituições voltem a fazer empréstimos ativamente, normalizando o mercado de crédito.

A compra dos papéis será um processo mais complicado, que pode levar mais tempo, enquanto a injeção de capital é uma maneira mais rápida de evitar quebras. Mas os bancos terão de aceitar condições para receber as injeções de capital, como limites na remuneração de seus executivos e nos chamados "pára-quedas de ouro", os enormes pacotes de demissão.

A porta-voz da Casa Branca admitiu que estatizar parcialmente os bancos não se encaixa no manual de livre mercado do presidente George W. Bush. "Mas, quando o presidente se deparou com sinais de que a crise financeira afetaria todos os americanos de todas as classes, ele decidiu que era importante para o governo agir de forma enérgica. É por isso que nós trabalhamos com o Congresso para criar o pacote de resgate", disse Dana.

Ela deixou claro que as injeções de capital viriam em troca de participação acionária, mas que o governo não assumiria o controle de nenhuma instituição bancária. O pacote anticrise de US$ 700 bilhões já previa a possibilidade de o governo comprar participações nos bancos para recapitalizá-los.

Funcionários do Tesouro americano ainda estão estudando o formato da recapitalização, embora afirmem que ela vai começar "muito em breve" ou "em poucas semanas". As compras de participação nos bancos precisam ser feitas de forma cuidadosa para não despertar pânico entre os correntistas, que podem perder confiança ao saber que a instituição está recebendo recursos do governo. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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