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O governo americano admite que está disposto a voltar a conversar com o Brasil sobre a possibilidade de retomar as negociações comerciais entre o Mercosul e os Estados Unidos. Mas alerta que não haverá um presente de Washington, enquanto negociadores alertam que a possibilidade de retomada ainda seria dificultada pelo fato de o atual governo americano estar próximo do fim.

Anteontem, ao ver a Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC) desabar, o chanceler Celso Amorim admitiu que poderia voltar a negociar com a Casa Branca. Mas alertou que o processo não poderia repetir erros da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), quando os americanos insistiam em regras de propriedade intelectual e investimentos.

"Estou sempre disponível para falar com o Brasil sobre liberalização comercial. Amorim exibiu liderança e o Brasil foi um dos países que, junto com os Estados Unidos, endossaram o pacote, mesmo que isso tenha causado alguma dor e desconforto. Estou sempre interessada nessa conversa", disse a representante de Comércio dos Estados Unidos, Susan Schwab.

Mas a enviada do governo Bush deixou claro que acordos comerciais "não serão um presente" de Washington, insinuando que também cobrará um preço por qualquer concessão em termos bilaterais ou regionais. "Ninguém vai assinar um acordo se não achar que é de interesse nacional", disse Schwab.

O ministro da Venezuela para o Comércio, William Contreras, deixou claro que, assim que o seu país aderir ao Mercosul, Caracas tentará impedir um acordo com os Estados Unidos. "Todos conhecem a posição da Venezuela. Além disso, o governo americano está debilitado."

Amorim voltou a destacar que acordos bilaterais seriam um dos caminhos do País nos próximos meses, com a volta de um diálogo com a Europa e outros governos. Mas os próprios europeus já indicaram que não será fácil. O Mercosul quer um corte de tarifas para bens agrícolas, o que estaria criando problemas para França, Hungria e outros governos.

Já a União Européia quer amplo acesso ao mercado do Mercosul para bens industriais. Mas, com a Argentina adotando uma posição de intransigência em relação a esse ponto, Bruxelas já prevê um processo difícil.

Segundo o chanceler, outro acordo poderia ser com a América Central e mesmo uma ampliação dos entendimentos com México, Índia e África do Sul. O chanceler, porém, evita falar em "nova política comercial".

"Não há uma redefinição das prioridades. O que existe é a concentração de energias que estavam na OMC para outros temas e entendimentos bilaterais." No dia em que a Rodada Doha fracassou, Amorim admitiu que procuraria acordos que tivessem "impactos concretos".