A estratégia dos grupos ligados à oposição boliviana de bloquear estradas e depredar edifícios públicos para pressionar o governo pode ser um tiro no pé, segundo analistas. Esses bloqueios afetam principalmente setores dos próprios departamentos opositores cujos negócios são prejudicados, como comerciantes e transportadores, disse ao Estado o sociólogo Fernando Galindo, da Universidade Mayor de San Andrés.

Santa Cruz é o principal pólo agroindustrial da Bolívia e é de la que saem 30% das exportações do país. Se os manifestantes decidirem fechar de vez as fronteiras, os lucros dos produtores certamente serão bastante comprometidos.

Em Tarija, as filas para comprar combustível já são imensas por causa dos bloqueios nas estradas e alguns alimentos começam a escassear. Além disso, se é verdade que o corte nas exportações de gás afetam duramente o governo central, também é fato que elas serão um grande problema para essa região, que concentra 80% das reservas de gás do país e vive, basicamente, dos recursos das petrolíferas. "Com o tempo, a própria oposição começará se a fragmentar, com a dissidência de setores mais vulneráveis ou empresários cuja aposta é muito mais econômica que política", completa Galindo.

Por enquanto, ele explica, a Bolívia é refém de grupos radicais. Para o analista político Marco Antonio Fernández, há setores mais extremistas da oposição que querem provocar uma resposta violenta do governo boliviano para provar sua tese de que o presidente Evo Morales é autoritário. "O governo a todo custo tentará evitar o conflito direto para que isso não possa refletir em seus índices de popularidade", diz Fernández.

Na raiz do conflito, estão duas visões de país irreconciliáveis. De um lado o socialismo indigenista de Evo, do outro o projeto autonomista e liberal das elites políticas e econômicas da oposição regional. Eleito em 2005 prometendo "refundar" a Bolívia, Evo teve seu mandato ratificado no referendo revogatório de agosto com 67% dos votos. A vitória foi vista pelo governo como um aval para impulsionar suas reformas e o presidente convocou por decreto um referendo para aprovar o projeto de uma nova Constituição.

Mas os governadores de Santa Cruz, Tarija, Beni e Pando, cujos mandatos também foram ratificados, resolveram impedir tal projeto - e a única forma que encontraram foi a radicalização. "Ao dar tanto a Evo quanto aos principais líderes opositores seu voto de confiança no referendo revogatório a população boliviana passou o recado de que quer diálogo", diz o analista político Carlos Toranzo. "Pena que nenhum dos dois lados tenha compreendido."

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