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Estação de trem é ponto de partida para vida melhor

Atraídos pelo crescimento econômico de Parauapebas (PA), dezenas de pessoas desembarcam na cidade em busca de emprego

Gustavo Poloni, enviado especial a Parauapebas |

O relógio marca nove minutos depois da meia-noite quando o trem chega à estação de Parauapebas, no sudeste do Pará. Lentamente, os 30 carros prateados e com listas verdes e amarelas estacionam ao longo da plataforma. Quando o trem finalmente para depois de 16 horas de viagem, os 1,1 mil passageiros desembarcam rápida e silenciosamente carregando seus pertences. Muitos retornam para casa depois de viagens de negócios ou turismo. Para uma boa parte dos passageiros, a estação é a primeira etapa na busca por uma vida melhor. “Alguns conhecidos disseram que tem muita oportunidade na região”, disse José Augusto Serra, 23, que pegou o trem em Nova Lima, no Maranhão, levando apenas a roupa do corpo, uma boroca (como são chamadas as mochilas na região) e alguns trocados no bolso. ”Amanhã cedo saio em busca de trabalho”.

Salviano Machado
Desembarque: José Augusto Serra deixou o Maranhão para tentar a sorte no Pará
Três vezes por semana, o trem de passageiros operado pela Vale despeja em Parauapebas dezenas de migrantes oriundos de diferentes partes do Nordeste, principalmente do Maranhão. Eles são atraídos pelos investimentos bilionários que estão programados para acontecer nos próximos anos na região. Só a Vale, responsável pela operação do trem, vai investir R$ 7 bilhões até 2013 em novas minas e numa siderúrgica. São mais de 30 mil empregos diretos e indiretos. Ninguém sabe ao certo quantas pessoas desembarcam de mala e cuia cada vez que o trem chega à estação. Na cidade, especula-se que esse número chegue a três mil ao mês. Serra é um deles. Em sua cidade natal, trabalhava na roça e ganhava um salário de R$ 300. Desembarcou no Pará sem saber sequer onde passaria a primeira noite, mas com uma certeza: vai melhorar de vida. “Se fosse para ganhar menos ficaria em casa”.

A estrada de ferro que serve Parauapebas começou a ser construída em 1982 com o objetivo de transportar minério de ferro e manganês das minas de Carajás até o Terminal Portuário de Ponta da Madeira, em São Luís, capital do Maranhão. Três anos depois, o primeiro trem de carga percorreu os 892 quilômetros da ferrovia. Já o trem de passageiros passou a operar um ano depois, em 1986. Hoje, transporta 1,1 mil passageiros para 25 cidades e povoados ao longo do caminho. Às segundas, quintas e sábados, parte às 8h da estação do Anjo da Guarda, em São Luís, com destino a Parauapebas. Nas terças, sextas e domingo, faz o percurso inverso. Em 2009, 340 mil pessoas usaram o trem, cuja passagem custa entre R$ 92, na classe executiva, e R$ 42, a mais barata. “Muita gente chega aqui na ilusão de que tem muito emprego”, afirmou Niucélia Cunha, 22, que trabalha na lanchonete da estação.

Aos 24 anos, Heládio Rodrigues de Souza mudou-se atraído por essa ilusão. Trabalhava como mecânico em Bacabal, no Maranhão, quando ouviu falar no crescimento de Parauapebas. Resolveu arriscar. Ao contrário do esperado, o começou foi complicado. Durante um ano, ficou sem emprego e, para pagar as contas, fazia bicos. “Tinha dia em que eu comia apenas um geladinho (suco congelado vendido em saquinho)”, disse Souza. A coisa só começou a melhorar quando arrumou um emprego de mecânico na Construnorte, que presta serviço para a Vale. Quando a vida finalmente começou a entrar nos trilhos, casou-se e comprou uma casa própria. Aos 44 anos e pai de duas filhas, dá expediente como motorista dentro das minas de ferro e tem salário de R$ 850. “O amor me leva para o Maranhão, mas a barriga traz de volta para o Pará”, disse ao ser perguntado se sente saudades de casa.

Salviano Machado
Ao lado da mãe, mulher e filha, Antonio Carlos espera a hora de embarcar de volta para casa: sonho frustrado por salário de R$ 481
A história nem sempre tem final feliz. Sentado no banco da estação de Parauapebas, Antônio Carlos da Conceição Lima, 23, espera a hora de embarcar para fazer o caminho contrário. Ao lado da mãe, da mulher, da filha e de algumas sacolas plásticas, caixas e malas onde se encontram todos seus pertences, Lima resolveu voltar para o Maranhão depois de uma temporada fracassada no Pará. A aventura teve início há quatro anos, quando decidiu deixar Coroatá, no Maranhão. Durante esse período, trabalhou como auxiliar de serviços gerais e ganhava R$ 481. “Não dava para sustentar a família”, afirmou Lima. “Tive que mudar várias vezes de casa porque não conseguia pagar o aluguel”. Agora, vai tentar ganhar a vida trabalhando numa fazenda em Buriticupu, cidade maranhense de 64 mil habitantes. “Em Parauapebas tem muito emprego, mas é preciso indicação para se dar bem”, disse. “É ilusão vir para cá achando que vai encontrar um emprego fácil”.
 

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