Por Aluísio Alves SÃO PAULO (Reuters) - As empresas de auditoria independente apostam no potencial de mercado criado com a nova legislação contábil para não perder o ritmo chinês de crescimento no Brasil patrocinado pela recente febre de aberturas de capital.

Para isso, estão contratando um batalhão de mais de 2 mil pessoas só neste ano, investindo dezenas de milhões de dólares em treinamento e importando profissionais de diversas partes do mundo.

Todo esse aparato visa atender as demandas que surgiram com reformas na contabilidade brasileira.

Um dos desdobramentos desse processo foi a criação de uma agenda para alinhamento do padrão contábil brasileiro às IFRS, modelo já abraçado por mais de 100 países e que será obrigatório para bancos nacionais e para as quase 500 empresas listadas na Bovespa .

O outro é a obrigatoriedade da divulgação de balanços auditados para grandes empresas de capital fechado. Só essa mudança deve trazer imediatamente para o mercado de 400 a 500 novos clientes, estimam as firmas de auditoria.

'Mas o mercado potencial é de cerca de oito mil empresas nos próximos anos', anima-se Alcides Hellmeister Filho, chairman da Deloitte no país.

Essa é apenas mais uma das ondas que avançaram sobre o mercado corporativo na atual década, impulsionando as operações das firmas de auditoria no país.

O ciclo começou com a lei societária Sarbanes-Oxley, que exigiu gastos elevados para implementação de rigorosos controles internos das empresas listadas nas bolsas de Wall Street, inclusive as do Brasil, segunda maior matriz de companhias não-americanas com ADRs.

O passo seguinte foi a avalanche doméstica de ofertas públicas iniciais de ações (IPO, na sigla em inglês), que levou mais de 130 empresas à Bovespa nos últimos quatro anos. Esse movimento fez explodir a demanda por serviços das empresas para ganhar eficiência e se alinhar às melhores práticas de governança.

Por terem atuação global e multidisciplinar, as chamadas 'big four' --Price, Deloitte, KPMG e Ernst & Young-- nadaram de braçada, passando a atuar fortemente em serviços de consultoria como nas áreas de gestão e de impostos. Resultado: chamá-las atualmente de firma de auditoria já virou uma incorreção.

'Hoje, 60 por cento do nosso faturamento vem de serviços de consultoria', conta Fernando Alves, presidente da Price, a maior no país. No começo da década, 70 por cento da receita vinham de serviços de auditoria.

Com isso, essas firmas vêm dobrando de tamanho a cada três a quatro anos. As unidades das quatro gigantes no país movimentam cerca de 1,5 bilhão de dólares.

SEM CRISE

Nem a crise nos mercados internacionais deve interromper esse processo. 'Vamos dobrar de tamanho de novo nos próximos quatro anos', estima Hellmeister Filho, da Deloitte.

O motivo, segundo as companhias, é que a demanda por produtos prestados por elas, especialmente de auditoria, ainda é baixo no país.

'O Brasil ainda é um dos países menos auditados do mundo', avalia Alves, da Price.

Neste ano, boa parte das contratações previstas pelas 'big four' será focada para trabalhar com IFRS.

'Um grande limitador para o crescimento é a falta de talentos', reclama Alves, da Price, que está contratando 500 novos funcionários.

'Se tivéssemos mais gente, teríamos mais clientes', emenda Sergio Ricardo Romani, sócio da Ernst & Young.

Para compensar a escassez de profissionais que combinem conhecimentos de auditoria, finanças, contabilidade, tributação e inglês, essas firmas passaram a buscar novos funcionários nas universidades e investir num caro e demorado processo para complementar a formação.

A Price e a Deloitte têm cada uma cerca de 500 trainees em fase de formação. 'Num prazo de dois a três anos eles estarão prontos', conforma-se Hellmeister Filho, da Deloitte.

A Ernst criou em 2007 uma universidade interna só para complementar a formação de seus novos colaboradores, como parte de um projeto educativo que consome 3 por cento da receita.

Muito frequentemente, esse processo inclui a passagem por um treinamento em outras unidades das empresas, na Europa e na América do Norte, que pode levar até dois anos.

'Ainda assim, estamos tendo que importar gente de fora', conta Romani, da Ernst.

'Com uma taxa de crescimento de 30 por cento ao ano, vai ficando difícil achar profissionais especializados', completa Pedro Melo, sócio-líder de auditoria da KPMG no país.

(Edição de Daniela Machado)

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