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Especial Apagão
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Após conquista do pleno emprego, desafio agora é qualificação

Criação de vagas no governo Lula foi maior em setores de menores salários, enquanto cresceu demanda por mão de obra mais graduada

Danilo Fariello e Ilton Caldeira, iG |

A conquista do emprego pleno no Brasil ao fim do governo Lula oculta um desafio ainda mais complexo do que criar vagas. A presidenta eleita Dilma Rousseff terá de enfrentar a necessidade de promover a qualificação da mão de obra brasileira. Setores como o da construção pesada já vivem uma espécie de apagão de pessoas graduadas, como engenheiros.

Em dezembro, o índice de desemprego atingiu a marca recorde de 5,7%, segundo o IBGE. Apesar do aumento da renda do brasileiro nos anos Lula - acompanhada da expansão do emprego -, foi nos setores de menor complexidade, como comércio e serviços, que foram criadas mais de dois terços das 13,2 milhões de vagas novas entre 2002 e 2008.

Esse cenário revela uma “precarização” do mercado de trabalho, segundo alguns economistas, já que o emprego está crescendo, mas em segmentos onde as vagas, em sua maioria, exigem menor qualificação da mão de obra e os salários são mais baixos.

Mercado de trabalho na década

Os setores da economia que mais geraram vagas no Brasil

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Fonte: Ministério do Trabalho - Dados consolidados entre janeiro de 2000 e novembro de 2010 - em milhares de vagas

 

 

Na avaliação do ministro do Trabalho, Carlos Lupi, são exatamente esses setores, que continuarão a contratar mais. “Os setores de comércio, serviços e construção civil seguirão fortes, por conta dos projetos de crescimento do país desenvolvidos pelo governo, como o PAC e o Minha Casa, Minha Vida; e ainda com todos os preparativos para os grandes eventos que acontecerão nos próximos anos, entre eles a Copa do Mundo e as Olimpíadas", afirmou ele, na semana passada.

Na construção civil, a oferta maior de mão de obra ainda é em empregos menos complexos. Segundo Paulo Godoy, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Base (Abdib), hoje não faltam vagas para soldadores ou carpinteiros, mas já se enfrenta uma certa dificuldade em se encontrar bons engenheiros no mercado.

Segundo Paulo Safady Simão, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), grupos de engenheiros de outros países da América Latina e até de Portugal têm sido trazidos para o Brasil, por conta de uma escassez de profissionais formados aqui. Para ele, “a mão de obra é o gargalo maior hoje para o setor”. Apesar de esforços das entidades em capacitar e treinar os profissionais, a velocidade da expansão do setor é mais rápida, diz.

Os cursos de capacitação estão em ritmo intenso, com funcionários “sêniors” transferindo seu conhecimento para os novatos, diz Godoy. Melhorar a capacidade de mão de obra, porém, é uma tarefa estrutural, de longo prazo, porque passa por uma melhor formação educacional e também pela experiência prática.

Não se qualifica as pessoas de uma hora para outra, diz Flávio Castelo Branco, economista-chefe da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Começa a surgir um problema de falta de mão de obra qualificada, diz. “Ainda não é crítico, mas é uma consequência natural do aquecimento da economia.”

Custos trabalhistas achatam salários

Além da falta de qualificação, pressionam os salários recentes para baixo os encargos trabalhistas. Para José Pastore, professor de relações do trabalho na Universidade de São Paulo (USP), essa é uma realidade. “A conta final da empresa é de 102,43% de tributos em cima do salário”, diz. Isso significa que toda vez que uma empresa contrata um funcionário por um salário de R$ 1 mil por mês ela tem uma despesa mensal de R$ 2.020,00.

“Mas o trabalhador não leva R$ 1 mil para casa, ele leva R$ 700. Isso não tem cabimento. Ficar com R$ 700 e custar quase três vezes esse valor. Temos que pensar seriamente em encontrar uma forma de reduzir essas despesas para que as empresas possam, ao longo do tempo, investir em formação, aumentar os salários e dar mais qualidade ao trabalho”, acrescenta.

Tanto a CNI quanto a CBIC preparam para os próximos meses um levantamento mais preciso sobre a escassez de mão de obra qualificada. As pesquisas são motivadas por essa percepção de falta de mão de obra qualificada disponível.

Segundo Simão, da CBIC, a melhora da qualificação profissional dos brasileiros é fundamental também por conta do advento de inovações tecnológicas no setor da construção, que podem resultar em redução de vagas de menor complexidade.

Para Castelo Branco, da CNI, o nível de contratação pela indústria em 2011 vai perder ritmo, mas manter a tendência de criação de mais vagas, apesar dos riscos de desindustrialização com a valorização do real. A dúvida é onde estarão essas novas vagas.

Metade dos profissionais ainda é informal

A meta traçada para este ano, de 2,5 milhões de novos empregos foi alcançada em novembro, segundo dados divulgados na semana passada pelo Ministério do Trabalho. Apesar do bom desempenho do mercado de trabalho, 50% da população em idade produtiva ainda está na informalidade, segundo Pastore. “Numa força de trabalho de cerca de 100 milhões de pessoas existem 50 milhões de brasileiros sem nenhuma proteção. Isso tem a ver com a excessiva carga tributária sobre a folha de pagamento”, diz. “A informalidade é muito mais alta do que a média na agricultura, onde o índice beira 70%. Também é muito alta na construção civil onde muita gente trabalha por conta própria sem nenhuma proteção legal”, acrescenta.

Para Lupi, - que foi reconduzido ao cargo de ministro na gestão Dilma – quase a metade dos trabalhadores com vínculo o perdem ao longo de um ano, porque há muitos setores com contratação temporária – por safra, empreitada ou datas comerciais. Por esse levantamento – apresentado na semana passada – Lupi avalia que a legislação brasileira já seja flexível nas questões trabalhistas, favorecendo a rotatividade. “Não dá para flexibilizar mais”, afirmou o ministro, na semana passada.

Lupi prevê a criação de 3 milhões novos postos de trabalho em 2011. Mas segundo analistas, com as projeções de crescimento da economia em torno de 4,5%, esse resultado pode não ser alcançado. “É preciso saber o efeito do câmbio na atividade econômica. Nos últimos cinco anos, os salários do Brasil na média, aumentaram 75% em dólar. Isso afeta o custo de produção e a competitividade e pode ter impacto na geração de vagas”, diz Pastore.

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