Tamanho do texto

O presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, enfatizou hoje que o projeto da construção de usina de Belo Monte, no Rio Xingu (PA), sofreu fortes modificações desde a apresentação de sua proposta, na década de 80. A indicação da construção de seis usinas no local, por exemplo, foi abortada.

O presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, enfatizou hoje que o projeto da construção de usina de Belo Monte, no Rio Xingu (PA), sofreu fortes modificações desde a apresentação de sua proposta, na década de 80. A indicação da construção de seis usinas no local, por exemplo, foi abortada. "O setor abdicou de cinco usinas que vão fazer muita falta, mas foi uma decisão em prol do meio ambiente", ressaltou.<p><p>Tolmasquim considerou que, na comparação com o projeto original, só houve perdas do ponto de vista econômico. "O consumidor pode, então, perguntar: o governo é louco? Para que pagar mais caro? A resposta é a que buscamos compatibilizar energia barata com respeito à comunidade local e ao meio ambiente", disse.<p><p>O presidente da EPE salientou que, mesmo assim, o custo da energia produzida a partir de Belo Monte é praticamente a metade do verificado em outras formas de geração de energia. No caso de Belo Monte, o custo seria de R$ 83,00 por megawatt/hora (MWh) contra R$ 145,00 de termoelétricas e de R$ 145,00 a R$ 150,00 da energia nuclear. Ele enfatizou também que a energia produzida a partir de hidrelétricas pode receber complementos de energia eólica e da gerada a partir do bagaço de cana-de-açúcar.<p><p>Segundo ele, para cada MW de energia gerado no País, há um alagamento de áreas de 0,5 quilômetros quadrados, em média. No caso de Belo Monte, esse alagamento corresponderia a 0,05 quilômetros quadrados. "São 10 vezes menos que a média brasileira. Uma relação excepcionalmente baixa", considerou. O presidente da EPE disse ainda que o empreendedor que ganhar o leilão deverá investir R$ 3 bilhões em atividades voltadas para a preservação do meio ambiente e para dar condições sociais à população local. Além disso, o imposto a ser arrecadado pela usina é 19 vezes maior, segundo ele, do que todos os recursos gerados pelo Estado. "Abrir mão desses recursos é uma coisa que não dá para entender", disse. <p><p><b>Críticas</b><p><p>O projeto, contudo, recebeu duras críticas do bispo do Xingu, Erwin Kräutler, e do pesquisador do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (USP) Fernando Hernandes. Os dois afirmaram que a obra prejudicará a população ribeirinha e também questionaram os impactos ambientais projetados pelo governo. "Há lacunas metodológicas no projeto, como a subestimação da população atingida", disse Hernandes. Ele demonstrou preocupação também com a redução de três quartos no volume de águas da chamada Volta Grande do Xingu e com o alagamento de áreas num total de 516 quilômetros. "Esse é um projeto sem precedentes, com desvio de 100 a 120 quilômetros do leito original do Rio Xingu, o que prejudica populações locais", afirmou. A licitação do projeto da usina de Belo Monte está prevista para o próximo dia 20.<p><p>Na avaliação de Kräutler, que é também presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), a energia que será gerada pela usina de Belo Monte não será tão barata como o governo propaga, e as consequências negativas para a região e a população local não justificam a obra. "Falar só das coisas boas é meia verdade, e meia verdade é mentira", criticou o bispo.<p><p>Ele se declarou preocupado com o fato de o governo ainda não ter apontado a área onde serão construídas as casas para os moradores que terão de sair de seu local de origem por causa da construção da usina. "O presidente da República prometeu que esse projeto só sai se todos ganharem com isso, e não é verdade", disse. O projeto de Belo Monte, segundo o bispo, foi imposto de cima para baixo. "Foi feito aqui em Brasília, e o povo não foi consultado. O povo não tem condição de sobrevivência, e é uma falácia dizer que o povo não será atingido."<p><p>O presidente do Cimi afirmou ainda que foi insuficiente o número de audiências públicas promovidas para debater o tema. Ele defende a realização de pelo menos 27 discussões com a população. O diretor de Licenciamento Ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Pedro Alberto Bignelli, contestou a reclamação afirmando que as audiências públicas foram feitas de acordo com a legislação. "As audiências foram aceitas como representativas na questão de Belo Monte", argumentou. De acordo com Bignelli, foram realizadas cinco audiências, com 2 mil pessoas em cada uma, em média.<p><p>As declarações foram feitas no debate "Usina Hidrelétrica de Belo Monte", no auditório da Rede Vida, em Brasília. O encontro é organizado pela Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP), pelo Cimi e pela Comissão para Amazônia, com apoio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.