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Por Ana Nicolaci da Costa

BRASÍLIA (Reuters) - Não há nenhuma vantagem para Brasil, Rússia e Índia em pressionar a China para que deixe sua moeda se fortalecer, uma vez que Pequim já está caminhando nessa direção, disse nesta quarta-feira o economista-chefe do Goldman Sachs, Jim O'Neill.

Por Ana Nicolaci da Costa

BRASÍLIA (Reuters) - Não há nenhuma vantagem para Brasil, Rússia e Índia em pressionar a China para que deixe sua moeda se fortalecer, uma vez que Pequim já está caminhando nessa direção, disse nesta quarta-feira o economista-chefe do Goldman Sachs, Jim O'Neill.

O'Neill, que em 2001 cunhou o termo Bric para descrever as quatro maiores economias emergentes do mundo, fez os comentários às vesperas do segundo encontro presidencial do grupo em Brasília.

A China tem estado sob pressão dos Estados Unidos e de outros países para deixar que sua divisa se valorize. O Brasil se juntou ao coro na semana passada, quando o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que uma política cambial flexível por parte da nação asiática "seria muito boa" para a economia global.

Um iuan mais fraco torna as exportações chinesas mais competitivas em relação a outros países.

"Os chineses não dizem aos brasileiros o que eles devem fazer, então por que os brasileiros dizem aos chineses o que eles devem fazer?", indagou O'Neill em entrevista à Reuters por telefone de Londres.

Ele concordou com a fala de Mantega de que um iuan flexível seria melhor para a economia global, mas disse que isso já está a caminho.

Especulações de que Pequim pode em breve anunciar uma longamente aguardada mudança em seu regime cambial têm se intensificado recentemente, ajudando a apreciar o iuan.

"Uma das ironias dessa situação é que os chineses basicamente já decidiram fazer isso. Acho que é isso que Washington percebeu", acrescentou O'Neill.

O iuan depreciado é um ponto de tensão dentro do Bric, já que corrói a competitividade da indústria nacional.

A questão pode ser discutida nos bastidores do encontro entre ministros de Finanças do G20 em Washington no final deste mês, disse à Reuters na sexta-feira uma fonte do governo brasileiro, embora seja improvável que o tema seja posto formalmente na agenda.

COMÉRCIO EM MOEDA LOCAL

Um iuan flexível seria necessário para os países do Bric a fim de que façam progressos em planos voltados ao comércio em moedas locais, disse O'Neill.

No ano passado, os bancos centrais chinês e brasileiro afirmaram que os dois países estão trabalhando em sistema para permitir que exportadores e importadores definam acordos em divisas locais, substituindo o dólar.

"Eles têm dado alguns passos nessa direção já com acordos de swap, mas obviamente que para aplicar isso em todas as operações comerciais entre os países eles têm de permitir mais o uso de cada uma de suas moedas", afirmou O'Neill.

"O único modo que torna isso factível é se a China afrouxar os controles no uso do renminbi (iuan)."

O encontro em Brasília antes da reunião do G20 na capital norte-americana é uma maneira de pressionar os países desenvolvidos sobre a necessidade de modificar as organizações internacionais, para que elas possam refletir melhor a importância dos gigantes emergentes na economia mundial, segundo O'Neill.

O Brasil e outras nações em desenvolvimento vêm pressionando nações ricas a aceitar uma mudança no poder de voto no Fundo Monetário Internacional (FMI), a qual beneficiaria países emergentes.

"Acho que o fato de os países do Bric se encontrarem antes do G20 é muito benéfico. É meio ridículo que o FMI dê mais direitos de voto a nações como a Bélgica que aos países do Bric", acrescentou.

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