A crise passou perto, mas não chegou a atrapalhar os planos da fabricante de eletrodomésticos Whirlpool no Brasil. Tanto que, um ano após ter previsto a desaceleração do crescimento no País de 15% para 5%, o presidente da Whirlpool América Latina, José Drummond Júnior, já estima uma expansão de 20% nas vendas em 2009.

A expectativa justificou até a decisão de aumentar o nível de investimentos na operação brasileira, pela primeira vez nos últimos anos.

A Whirlpool pretende praticamente dobrar o valor investido em ampliação de capacidade produtiva, pesquisa, desenvolvimento e marketing de suas marcas - Brastemp, Consul e a premium KitchenAid. "Se o mercado continuar do jeito que está, vamos ampliar o patamar de investimentos de cerca de US$ 150 milhões para US$ 250 milhões a partir do ano que vem", diz Drummond.

Maior fabricante mundial de eletrodomésticos, a companhia americana acredita que as ações do governo brasileiro durante a crise, e especialmente a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para os produtos que fabrica, salvaram o ano. "Sem o IPI, seria um ano de crescimento provavelmente zero ou até um pouco negativo", diz o executivo. Desde maio, a companhia cresce acima de 20%. Para atender às encomendas para o Natal, tem operado em três turnos em sua fábrica de Rio Claro (SP). Iniciada em abril, a isenção do tributo vai até janeiro de 2010.

Mas não foram só as medidas do governo que ajudaram a dissipar o clima de apreensão que rondou a empresa no final de 2008. Segundo Drummond, outros sinais da economia nos últimos anos trouxeram o otimismo. "A economia estruturalmente está melhor. Tem mais renda, mais crédito", afirma Drummond, engenheiro carioca que está há dez anos na multinacional. Na entrevista a seguir, ele comenta o atual momento da companhia, que tem 70% do mercado nacional de eletrodomésticos, e as perspectivas para 2010:

A Whirlpool no Brasil chegou a viver uma crise?

No quarto trimestre de 2008, esperávamos que o crescimento desacelerasse, mas não que houvesse queda. No começo deste ano, porém, começou a aparecer não só uma desaceleração do crescimento, mas uma queda em relação ao primeiro trimestre de 2008. Foram quatro meses complicados. O resto do ano, porém, foi bastante bom.

Por causa da redução do IPI?

Por causa do IPI e de várias medidas do governo. Em janeiro, foram as alíquotas intermediárias do imposto de renda, que colocaram mais dinheiro na economia. Teve redução de imposto na construção civil, no (setor) automotivo, em eletrodoméstico. Aí deu realmente um impulso maior. O governo também usou as reservas cambiais e de compulsório do Banco Central de forma inteligente. O objetivo das ações anticíclicas foi cumprido. Mas a gente vê que a base da economia está melhorando, independente de incentivos.

O IPI salvou o ano? Como seria 2009 sem esse incentivo?

Seria um ano de crescimento provavelmente zero ou até um pouco negativo. Depois de maio, a expansão foi bastante positiva, levando o ano a fechar com 20% de crescimento. O negócio do IPI foi determinante, mas não exclusivo. Isso porque, de 2004 para cá, excluindo 2005, todos os anos foram de crescimento. A indústria hoje tem 20 milhões de eletrodomésticos, considerando as dez principais categorias. Em 2005, eram 10 milhões. Não teve incentivo de IPI nos anos anteriores, mas uma necessidade de crescimento dessas categorias. E a economia estruturalmente está melhor. A renda e o crédito continuam. O crédito é tão ou mais importante que o próprio incentivo fiscal.

Mas qual vai ser o cenário de vendas sem o IPI reduzido?

Ninguém sabe o que pode acontecer. Posso te dizer minha expectativa. E ela é muito positiva para 2010.

Mesmo sem o IPI?

Mesmo que ele seja modificado. Não sei o que o governo vai fazer, se vai perpetuar do jeito que está, se vai encontrar uma alíquota intermediária, mas sou otimista em ambos os cenários. A dispensa de arrecadação que o governo teve foi muito mais que compensada pelo movimento econômico. Tenho certeza que o governo vai decidir por alguma coisa que faça sentido.

Como ficaram os investimentos da empresa este ano?

A gente vem num ritmo da ordem de US$ 100 milhões a US$ 150 milhões por ano de investimento. Não adiamos nada, muito pelo contrário. A gente imagina, e nossos planos de 2010 em diante indicam, que a gente vai para US$ 250 milhões. Isso inclui algum aumento de capacidade de produção onde for necessário, muita inovação e investimento nas marcas. Se o mercado continuar do jeito que está, poderemos investir nesse patamar a partir do ano que vem.

Haverá investimento em novas fábricas?

Nossa estratégia é investir todo ano para aumentar um pouco nossa capacidade, de forma inteligente. Eu prefiro isso do que iniciativas de muita especulação sobre a demanda, que depois não se materializa. Os níveis de utilização de capacidade hoje são altos e imagina-se que eles continuarão assim.

Qual é a ocupação da capacidade produtiva hoje?

É alta, bastante alta. Normalmente, quando você chega a 80%, 85%, já está pensando em novos passos de investimento, e a gente tem feito isso, gradativamente. Toda vez que a gente chega perto desses números, vai fazendo os "desengargalamentos", vai investindo nas fábricas.

Como ficaram as exportações da empresa este ano, com a valorização do real?
Caíram muito. Em 2004, chegaram a ser 30% da nossa produção. Hoje, são menos de 10%. Obviamente a moeda favorecia muito naquela época.

Mas é só a questão cambial?

Não, é basicamente competitividade. Nessa ação anticíclica, nosso governo fez ação merecedora de reconhecimento. Mas tem muita coisa para ser feita ainda, e uma delas é melhorar a competitividade do Brasil no cenário internacional. O País precisa trabalhar fortemente a questão tributária, de infraestrutura, de encargos.

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