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Primeiro presidente da Eletrobrás no governo Luiz Inácio Lula da Silva, o diretor da Coppe/UFRJ, Luiz Pinguelli Rosa, diz que a Usina de Belo Monte não sai do papel sem forte presença estatal, pois é comparável a grandes obras de infraestrutura, como o metrô. Na sua opinião, o governo deveria dar ao Grupo Eletrobrás a operação da usina, em modelo semelhante ao da Petrobrás no pré-sal.

Primeiro presidente da Eletrobrás no governo Luiz Inácio Lula da Silva, o diretor da Coppe/UFRJ, Luiz Pinguelli Rosa, diz que a Usina de Belo Monte não sai do papel sem forte presença estatal, pois é comparável a grandes obras de infraestrutura, como o metrô. Na sua opinião, o governo deveria dar ao Grupo Eletrobrás a operação da usina, em modelo semelhante ao da Petrobrás no pré-sal. O que o sr. achou da solução adotada pelo governo, com presença estatal e financiamento estendido do BNDES? Acho que é uma solução confusa, mas possível. Eu defendo, desde o tempo que passei pela Eletrobrás, que essas empresas estatais deveriam ter um papel maior nos investimentos do setor. Acho até que deveria ser explícito, que a Eletrobrás assumisse a responsabilidade de fazer a usina e operá-la, em sociedade com outros grupos interessados, porque ela pode ter uma taxa de retorno menor do que o capital privado postula. O metrô é um exemplo clássico. Não é possível fazer um metrô no mundo sem iniciativa do Estado - municipal, estadual ou federal - porque o investimento não se recupera. O passageiro não pode pagar a construção do metrô. Como nós não pagamos a construção da ponte Rio-Niterói. Nós pagamos a manutenção mas não pagamos a construção. As tarifas ficariam impossíveis. É uma decisão pública. Esse raciocínio vale para hidrelétrica também? Para hidrelétrica dessa dimensão, sim. Porque são R$ 19 bilhões e o setor privado estava querendo R$ 30 bilhões, o que praticamente inviabilizaria o projeto, acabaria com as vantagens de preço da energia. Então a responsabilidade é enorme de fazer a usina no preço estipulado. Além disso, essas estatais têm capacidade instalada. São empresas que têm engenharia, uma parte dela muito experiente, com passagem pelas obras de Itaipu, de Tucuruí... Repito: a participação estatal deveria ser mais explícita, ao estilo proposto para a Petrobrás no pré-sal. A Eletrobrás liderando o processo por uma razão pública, para gerenciar a obra. Mas não estou no governo, não sei as razões políticas que levaram a esse modelo proposto. Espero que não haja privilégio a nenhum grupo político determinado, aí não tem cabimento. O projeto terá isenção de Imposto de Renda e grande aporte do BNDES. Não se trata de uma renúncia muito grande? É, eu também acho, por isso digo que seria mais compreensível dar isso para a Eletrobrás, que é empresa pública. Ela tem participação grande, de uma maneira ou de outra, com Chesf, Furnas, Eletronorte - que deve entrar depois -, então de certo modo é uma participação estatal. Mas elas podiam ser explícitas, ter um controle delas com participação privada que poderia se juntar. Mas seria uma maneira diferente daquela que o governo entende que deve fazer as coisas: tem essa preocupação de parecer que está tudo seguindo um modelo de mercado, essa preocupação com a aparência.

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