Por Jesús Alvarez. Assunção, 20 dez (EFE).- O ex-bispo católico Fernando Lugo fez história este ano no Paraguai ao derrotar em abril, à frente de uma coalizão de ampla base ideológica, o Partido Colorado, que mantinha o poder absoluto no país por mais de seis décadas.

Além de pôr fim a mais de 61 anos de hegemonia do Colorado, o partido mais antigo no poder na América Latina, Lugo foi protagonista de outra decisão não menos histórica, quando duas semanas antes de assumir a Presidência, em 15 de agosto, a Santa Sé o reduziu ao estado laical após tê-lo suspenso em janeiro de 2007 por se dedicar à política.

O ex-bispo, de 57 anos, venceu as eleições presidenciais de 20 de abril com a Aliança Patriótica para a Mudança (APC), cujo principal suporte eleitoral foi o tradicional Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA, de centro-direita).

Em torno da imagem de Lugo e de suas promessas de mudanças, se aglutinaram pequenos partidos de esquerda e dezenas de organizações sociais, embora a primeira idéia do ex-bispo fosse unir toda a oposição contra o presidente Nicanor Duarte.

Partidos como o Pátria Querida (direita) e o liderado pelo ex-general Lino Oviedo, a União de Cidadãos Éticos (Unace), não se integraram à APC, embora tenham tido um papel destacado no lançamento do ex-bispo à política em 2006.

Entre os eleitores, 41% apoiaram a imagem de honestidade e de apoio aos mais pobres que Lugo exibiu durante os 11 anos de trabalho pastoral em favor dos menos favorecidos no departamento (estado) de San Pedro, região agrícola mais pobre e conflituosa do país.

O ex-bispo conseguiu tirar 11 pontos de vantagem da candidata Blanca Ovelar, que chegou ao pleito com um partido imerso em uma guerra interna. Após formar um Governo de maioria liberal, no qual só um expoente era da esquerda radical, Lugo logo teve de enfrentar os primeiros problemas.

Com poucos dias na Presidência, Lugo viu se multiplicarem as invasões de terras, em reivindicação a uma reforma agrária.

O conflito agrário chegou ao extremo de gerar posições xenófobas por parte dos camponeses contra colonos e fazendeiros brasileiros, conhecidos como brasiguaios, que são maioria em grande parte dos departamentos próximos à fronteira entre os dois países, o que aguçou as tensas relações bilaterais.

Estima-se que ao longo da faixa fronteiriça com o Brasil vivem cerca de 300 mil brasiguaios, que são donos ou arrendatários de terras agrícolas.

Porém, até agora a principal controvérsia com o Brasil, maior parceiro comercial do Paraguai no Mercosul, formado também por Argentina e Uruguai, se centra nas reivindicações paraguaias sobre uma nova repartição dos lucros da hidrelétrica de Itaipu.

O Governo brasileiro decidiu negociar seis pontos reivindicados por seu vizinho, mas segundo fontes paraguaias, se nega a aceitar a principal meta de Assunção: permitir a venda livre do excedente paraguaio de energia, inclusive no mercado do Brasil.

Segundo o contrato de construção de Itaipu, assinado em 1973 pelos Governos de ambos os países, cada nação tem direito a 50% da eletricidade gerada e o excedente deve ser vendido ao outro a preço de custo. O Paraguai costuma utilizar, no máximo, 10% de sua cota.

Uma das exigências com sinal verde do Brasil permite à Procuradoria paraguaia verificar as contas de Itaipu, cuja administração não podia ser auditada pelos organismos de controle de ambos os países. Em poucos meses saíram dados de possível uso de fundos da empresa nas campanhas eleitorais do Partido Colorado.

Uma das promessas do presidente paraguaio, junto à luta frontal contra a pobreza e a reforma agrária, foi uma Administração transparente em um país dominado pela corrupção após seis décadas de controle do Estado por um mesmo partido.

Precisamente, o governante destacou como conquistas nos 100 dias de seu Governo a transparência, embora tenha reconhecido que não cumpriu as metas fixadas para o período. Analistas locais questionam a falta de coesão do Governo, assim como suas evidentes diferenças com o vice-presidente do país, o liberal Federico Franco.

Pesquisas apontam que os paraguaios seguem confiantes em Lugo, apesar de "suas metas não estarem claras ainda porque há muita improvisação", disse à Agência Efe o analista Alfredo Boccia, que considera que a frustração pode se dever à ansiedade por mudanças gerada entre a população. EFE rd/rr

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