Se um salário de cinco dígitos remetia imediatamente a altos cargos de diretoria, o setor de bebidas alcoólicas está quebrando esse padrão. A competitividade do setor está fazendo com que os profissionais gabaritados para controlar a produção e a qualidade dos produtos tenham remuneração semelhante à do alto escalão - e responsabilidades tão altas quanto.

"O mestre cervejeiro monitora o processo de produção do início ao fim", diz a mestre Ana Paula de Almeida, responsável pela produção de cervejas da AmBev na fábrica de Guarulhos. Todos os dias, ela faz análises físico-químicas da produção, além dos testes sensoriais: prova a água, o chá de malte e até o ar comprimido que será usado na cerveja. Além disso, participa das decisões de inovação em produto e matérias-primas da empresa.

Formada em engenharia de alimentos, com formação em cervejaria na Alemanha, Ana Paula é uma das 8 mulheres entre os 100 mestres cervejeiros da AmBev. "As pessoas se surpreendem com minha função, porque esperam sempre um vovozinho alemão", brinca.

A demora para se formar um profissional e a demanda do mercado (em geral, dois especialistas por fábrica) fizeram com que os salários subissem bastante. "Podemos falar, na região Sudeste, de uma remuneração comparável à de executivos: de R$ 12 mil a R$ 18 mil", diz Matthias Reinold, consultor da MReinold, especializado em cervejas. "E essa remuneração, como a dos executivos, está cada vez mais ligada à performance que os produtos desses profissionais alcançam. Nas grandes cervejarias, já se adotou a remuneração variável, ligada a resultados."

A formação para esses cargos também é longa. "Um cargo como o de mestre cervejeiro ou enólogo profissional começa por uma boa graduação em ciências químicas ou biológicas e passa, depois, por cursos de especialização, além da experiência na fábrica", diz Reinold. "Ou seja, falamos de pelo menos três a quatro anos pós-faculdade." No caso dos enólogos, já há cursos de graduação e pós-graduação no País. Para mestres cervejeiros, porém, é preciso ir ao exterior. "Há formação na Alemanha, nos EUA, na Bélgica e na Espanha", diz.

Segundo ele, com o aumento da renda dos brasileiros, a tendência é de que o consumo de bebidas aumente. Mesmo com a inflação, o potencial é grande. "As empresas estão expandindo a produção e, regionalmente, surgem fabricantes de pequeno e médio porte. Ou seja, há uma demanda e poucas pessoas para atendê-la."

A enóloga Joice Seidenfus, responsável pela produção dos vinhos Salton, no Rio Grande do Sul, reconhece que o mercado está em expansão. "Além da região Sul, onde a produção de vinhos é tradicional e cresce muito, há novas fábricas no Recife e em Minas Gerais. Apesar de não ter costume de beber vinho, o brasileiro está conhecendo mais o produto e as empresas querem pessoas capazes de assegurar qualidade", diz a enóloga, com formação em engenharia de alimentos e enologia e com passagem pela Embrapa.

Para o analista da Fator Corretora, Renato Prado, é muito provável que as empresas invistam mais nos profissionais, especialmente das linhas premium. "Por serem linhas menos sensíveis à variação de preço, por atingirem um público mais alto, o que vai diferenciá-las é a qualidade. Com a concorrência que vemos atualmente, é bem possível que quem trabalhe nessa área veja boas oportunidades de remuneração."

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