Preocupado com o fato de que a farta liberação de dólares das reservas internacionais brasileiras não vem atingindo o objetivo de aliviar a falta de crédito para empresas exportadoras, o governo decidiu ontem dar ao Banco Central (BC) poderes para carimbar os recursos em moeda estrangeira, direcionando-os para o comércio exterior. A autoridade monetária já podia, desde a semana passada, oferecer empréstimos em dólares a bancos que apresentassem garantias em moeda estrangeira.

Ontem, foi decidido que o BC poderá determinar que esses empréstimos sejam entregues obrigatoriamente a exportadores.

"Nosso principal problema é a falta de liquidez, principalmente para financiar as exportações", disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega, por sua assessoria de imprensa. "As medidas anunciadas visam a facilitar o acesso ao crédito pelos exportadores e pelas empresas que possam estar tendo problemas de capital de giro."

A decisão foi tomada numa reunião extraordinária do Conselho Monetário Nacional (CMN), que também avançou para ajudar instituições financeiras em dificuldades. O BC já vinha, desde a semana passada, oferecendo empréstimos de uma de suas linhas de crédito, chamada redesconto, a bancos com problemas de caixa. Para tanto, pode receber como garantia - na prática, comprar - carteiras de crédito.

Ontem, o CMN determinou que, além dos créditos, serão aceitas debêntures de empresas não financeiras, com boa classificação de risco (entre AA e B). Para cada R$ 100 emprestados, o BC vai exigir entre R$ 120 e R$ 140 de garantia em debêntures, conforme a qualidade. Dessa forma, o socorro via redesconto foi ampliado.

Ontem pela manhã, Mantega e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, reuniram-se para avaliar a crise. A conversa transformou-se em reunião do CMN. O outro integrante do Conselho, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo,participou da reunião por telefone e aprovou as medidas.

Para o ex-diretor do Banco Central Carlos Thadeu de Freitas, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), as medidas vão na direção certa, mas ainda vai demorar para o crédito voltar a fluir na economia. A possibilidade de o BC "carimbar" os empréstimos em dólar vai ajudar, mas ele acha que melhor seria condicionar a liberação dos compulsórios a essa finalidade.

Um economista de banco que não quis se identificar avalia que os empréstimos em dólar aos exportadores serão de grande ajuda, porque vai ajudar a formar uma referência de preço para a moeda americana. Atualmente, não é possível nem mesmo fechar contratos, tamanha a variação da cotação. Por causa disso, os exportadores sequer estão sendo beneficiados pela alta do dólar.

Esse economista concorda que a atuação do BC tem sido correta, mas o "desempoçamento" do crédito dependerá das medidas adotadas por outros países. A atitude dos bancos de reter dinheiro é, diz ele, um problema mundial. Desde a quebra do Lehman Brothers, as instituições financeiras vêm agindo assim por "instinto de sobrevivência". As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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