Sucesso não é garantia de sobrevida de produtos e marcas

Nomes como disquete e Kodachrome, ícones de seu tempo, sucumbem com a chegada de novas tecnologias ou o fim de um modismo

Patrick Cruz, iG São Paulo | 23/05/2011 05:30

Compartilhar:

Para cada sobrevivente, há um recém-finado. Por vezes, a estaca no peito de marcas, empresas ou mesmo de um setor inteiro é cravada por uma tecnologia mais avançada. Em outros casos, o tiro de misericórdia é desferido pelo fim de um modismo. Levantam-se uns, deitam-se outros, sempre com uma verdade à espreita: nenhuma tecnologia está livre da tumba. (Exceção honrosa, talvez, à roda).

Não adiantou virar nome de parque, objeto de culto, inspirar uma estrela da música ou registrar uma das fotos mais famosas do século XX: o Kodachrome morreu. O primeiro filme colorido de sucesso para fotografia foi um campeão de popularidade entre fotógrafos amadores e o mais querido por profissionais, que creditavam a ele uma qualidade única de cores e textura das imagens. Em 2009, às portas de o filme completar 75 anos de vida, a Kodak interrompeu sua produção, desestimulada pela derrota na competição com a fotografia digital.

O filme inspirou o batismo de um parque no estado norte-americano de Utah e foi utilizado pelo fotógrafo Steve McCurry no retrato de Sharbat Gula. O registro, “Menina Afegã”, ilustrou uma das capas da National Geographic em 1985 – e tornou-se um ícone. Ícone nas bancas e na música. “Ele faz você acreditar que o mundo todo é um dia de sol”, diz o cantor Paul Simon na canção Kodachrome. “Mãe, não tire o Kodachrome de mim”.

Tiraram. No dia 30 de dezembro de 2010, em Parsons, no estado do Kansas, o laboratório Dwayne’s Photo desligou a última máquina de revelação do Kodachrome ainda em operação no mundo. Já havia se passado pouco mais de um ano do fim da fabricação do filme, mas exemplares remanescentes ainda jaziam nas gavetas e geladeiras de fotógrafos dedicados. No canto do cisne, um entusiasta chegou a dirigir mais de 500 quilômetros para levar ao Dwayne’s 1.580 filmes, uma encomenda de quase US$ 16 mil (mais de R$ 25 mil), como registrou o The New York Times na ocasião.

No fim, foi um filme do próprio Dwayne, dono do estabelecimento, o último a ser revelado. Fotos de sua residência, família e amigos somaram-se a uma série com os funcionários da casa, que usavam uma camiseta amarelo-Kodachrome com os dizeres: “Paul cantou sobre ele. Um parque estadual recebeu seu nome. A National Geographic tirou suas fotos mais famosas com ele. E nós revelamos o último rolo”.

"Kodachrome", de Paul Simon

O (não muito) saudoso disquete

O disquete é outro caso de passamento recente. A Sony informou em 2010 que interromperia em março deste ano, no Japão, a fabricação dos pequenos discos de armazenamento de arquivos digitais – a empresa já não tinha linhas de produção em outros países no momento do anúncio.

Foram 40 anos de vida dessa tecnologia. Ela tornou-se obsoleta com o desenvolvimento de concorrentes de capacidade muito maior – caso do pen drive, que, sozinho, pode substituir até quatro mil disquetes; metade de um disco de Blu-ray daria conta de todos os 12 milhões de disquetes vendidos no Japão em 2009. E o golpe no disquete foi seguido ainda pelo quase completo desaparecimento de novos computadores com o dispositivo que permitia sua leitura, o drive de disquete.

Sobrou, como consolo, que uma imagem à semelhança do disquete tornou-se um ícone nos computadores para o salvamento de arquivos. E há ainda o consolo adicional da relação afetiva que os primeiros usuários de computadores pessoais têm com o finado dispositivo. Em fóruns na internet, há recorrentes manifestações saudosistas com o indefectível “que saudade desse tempo do disquete”. A internet tem sido, afinal, a tábua de salvação de nostálgicos de toda ordem, ainda que alguns de seus objetos de culto tenham hoje pouca serventia.

Foi-se a calculadora, ficou o boteco

Mais raro é encontrar um saudosista das calculadoras mecânicas. Nascidas de uma tecnologia criada no século XVII, a máquina foi alvejada por uma bala de prata em 1971, quando surgiram no Japão as primeiras calculadoras digitais. A morte foi quase instantânea.

Ainda assim, alguns de seus defensores seguiram a vida por mais algumas décadas. A sueca Facit, uma das principais fabricantes da máquina no mundo, demorou para se dar conta de que os japoneses mataram sua galinha dos ovos de ouro. Na década de 1980, a empresa chegou a dar uma guinada para a fabricação de computadores, mas a nova roupagem da companhia não teve vida longa. Depois de fatiada e vendida a diferentes empresas, a Facit fechou os olhos em 1998.

Subsidiárias da companhia chegaram a ter sobrevida no século XXI, inclusive no Brasil. Em Juiz de Fora (MG), a fábrica local ficou por alguns anos sob controle de seus funcionários (a empresa encerrou suas atividades há alguns anos, segundo informações do Centro Industrial de Juiz de Fora).

As calculadoras mecânicas perderam espaço nas grandes empresas com a chegada dos computadores, mas continuaram a tilintar em mercearias e botecos, antes que nesses também elas fossem substituídas. Ainda não há registro de nova tecnologia que ameace os botecos.

Leia mais:

A última fábrica de pinball do mundo ainda tem fichas

Na Holanda, a última trincheira da fotografia instantânea

A máxima da última fábrica de vinil: há comprador para tudo

Empresa nos EUA mantém viva a fabricação de máquinas de escrever

    Notícias Relacionadas



    INDICADORES ECONÔMICOS

    Maiores Altas e Baixas
    Índice: IBOVESPA

    código nome var. %

    Câmbio

    moeda compra venda var. %

    Bolsa de Valores

    indice data ultimo var. %
    • Fonte: Thomson Reuters

    CONVERSOR DE MOEDAS

    • Fonte: Thomson Reuters
    Ver de novo