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Porto Digital uniu academia, empresas e governo

Criação do polo de tecnologia em Pernambuco, no Nordeste, é considerada tão atípica que foi alvo de pesquisas universitárias

Alexa Salomão, do Recife |

Vale uma tese acadêmica tentar explicar que condições de temperatura e pressão são necessárias para forjar um centro de excelência como o Porto Digital, polo especializado na produção de softwares localizado no Nordeste, uma das regiões mais carentes do País. E tanto vale um estudo acadêmico que eles existem. Um das mais abrangentes é uma tese de doutorado realizada em parceria por pesquisadores do Núcleo de Computação Eletrônica e do Instituto de Economia, ambos da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A pesquisa avaliava como ocorre e quais são os frutos da relação entre instituições de ensino e empresas. O estudo de caso escolhido para medir parcerias do gênero foi o Porto Digital. O pesquisador Sidney Oliveira, autor que representou o Núcleo de Computação, não esconde que a seleção do polo, localizado em Recife, capital de Pernambucano, foi motivada pela curiosidade. “Um dos fatores que me levou a escolher o Porto Digital foi o fato de ele estar fora do eixo Rio-São Paulo e ficar no Nordeste”, diz Oliveira. “É preconceito, sim, mas no imaginário nacional tecnologia é monopólio do Sudeste-Sul, principalmente de São Paulo e Rio de Janeiro.”

Jorge Luiz Bezerra
Para adaptar os velhos casarões ao mundo do século 21, o governo do Estado investiu R$ 30 milhões na infra-estrutura e as empresas desembolsaram outros R$ 60 milhões

A aproximação entre universidade e mercado, com apoio do governo é uma conjugação atípica no Brasil. Normalmente, o poder público, envolvido em interesses políticos, dispersas recursos na hora de financiar polos industriais. Ao mesmo tempo, universidades e empresas no Brasil não conseguem dialogar e tem dificuldade de fechar parcerias efetivas.

“O governo normalmente é disperso e há um abismo notório entre empresas e universidade no Brasil”, diz Oliveira. “De um lado, professores são incentivados a seguir carreira acadêmica, dedicando-se a pesquisa pura. De outro, as empresas não toleram atrasos, nem o tempo de maturação de uma pesquisa.” De acordo com o pesquisador, existem alguns departamentos, em algumas universidades, que tentam e conseguem uma aproximação tanto com o governo quanto com as empresas. “Por uma associação de fatores, isso ocorreu em Recife no caso do Porto Digital”, diz Oliveira.

Universidade aberta

O ponto de partida foi a academia. Mais precisamente o Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco. Na virada de 1999 para 2000, grande parte dos alunos de tecnologia não encontrava emprego no estado e migrava para Sul do País. O curso de informática da federal local já era um dos melhores do país e um grupo de professores entendeu que era preciso criar uma alternativa para preservar os cérebros pernambucanos. Cogitou-se a criação de um local que concentrasse empresas de tecnologia já existentes no estado e que também incentivasse a formação de outras.

Na época, Jarbas Vasconcellos acabara de assumir como governador e tinha uma inclinação a valorizar novas tecnologias. A ideia foi encampada pelo governo do estado. Pernambuco tem polos de desenvolvimento, como o têxtil, localizado na região de Caruaru. Optou-se então pela criação de um novo polo voltado à tecnologia.

A proposta original é que ele ficasse próximo à universidade. No entanto, um urbanista, Claudio Marinho, ocupava a pasta de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente. Marinho encontrou no projeto a chance de revitalizar o centro histórico, então abandonado. Marinho apresentou sua proposta aos professores, em especial a Silvio Meira, um dos mentores do projeto. Meira era então diretor do Centro de Informática e do C.E.S.A.R, o Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife, uma espécie de braço empresarial da instituição, criado para prestar serviços na área de TI e ajudar na criação novas empresas no setor de tecnologia.

Do diálogo à ação

Marinho e Meira tornaram aliados na criação do novo pólo e o diretor do Centro de Informática aceitou a sugestão feita pelo secretário do governo: transferiu o C.E.S.A.R. da universidade para o centro da cidade. Na avaliação de Oliveira essa decisão foi fundamental para o sucesso do Porto Digital. O C.E.S.A.R. funcionou como uma espécie de negócio âncora, capaz de atrair outras empresas e também clientes.

Para adaptar os velhos casarões ao mundo do século 21, o governo do Estado investiu R$ 30 milhões na infra-estrutura do bairro onde nasceu a cidade. O dinheiro veio de uma pequena parcela dos R$ 2,5 bilhões arrecadados com a privatização da distribuidora estatal de energia elétrica, a Celpe.

A iniciativa privada aderiu rapidamente ao projeto. Empresas da área de tecnologia, dispersas pela cidade, migraram para área do antigo porto. Foram seguidas pelas unidades regionais da Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação, Software e Internet (Assespro) e também pela Sociedade Brasileira para Promoção da Exportação de Software, a Sociedade Softex. Estima-se que as empresas privadas tenham investidos outros R$ 60 milhões na reforma e na implantação de infra-estrutura quando se mudaram para o porto.

“Muitas universidades, empresas e governo já tentaram, em vão, se unir esforços na criação de polos de tecnologia”, diz Oliveira. “O que ocorreu em Recife é que Meira, representando a universidade, e Marinho, do Estado, falaram a mesma língua: sinergias como essa não podem ser reproduzidas e mostram que a sorte está do lado dos competentes.”

Oliveira destaca ainda o papel do arcabouço legal nessa receita de sucesso. Num primeiro momento, o Porto Digital se valeu da Lei de Informática para atrair antigos e novos clientes. “A lei obrigava empresas do Sudeste a firmar parcerias com fornecedores de soluções de outras regiões: no Nordeste, eles eram os caras ideais para essas parcerias”, diz Oliveira. “Não sei se o Porto Digital teria existido se não fosse essa Lei de Informática.”

 

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