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Buracos e assaltos no caminho das minas de ferro

A viagem para a cidade onde são produzidas 100 milhões de toneladas de minério de ferro é cheia de riscos aos motoristas

Gustavo Poloni, enviado especial a Parauapebas |

Sempre que recebe um cliente no aeroporto de Marabá, no sudeste do Pará, o funcionário da locadora de automóveis repete algumas perguntas padrão. A primeira é sobre o destino do motorista. Ao saber que a viagem seria para Parauapebas, cidade a 160 quilômetros de distância e onde a Vale opera a maior mina de minério de ferro do mundo, o rapaz fez cara de preocupação. “Um cliente acabou de voltar de lá e disse que os sem-terra fecharam a estrada”, afirmou, em referência ao protesto que, no dia 17 de abril, reuniu mil pessoas e marcou os 14 anos do massacre de Eldorado dos Carajás, que deixou 19 mortos e 77 feridos. “Mas fica tranquilo que parece que dá para passar”.

Os protestos de sem-terras são apenas um dos problemas enfrentados pelos motoristas que trafegam pelas estradas estaduais do Pará, as PAs. Eles sofrem com sinalização precária, mato alto, buracos, assaltos, motoristas imprudentes e até uma manada na pista – combinação que resulta em acidentes e prejuízos para quem precisa transportar carga.

Salviano Machado
Na PA-275, motorista tem de reduzir a velocidade para enfrentar mais uma sequência de buracos: risco de assaltos e prejuízos financeiros

O Pará conta com 110 PAs. Quem sai de Marabá com destino a Parauapebas tem de pegar duas delas. A primeira é a PA-150. Com 762 quilômetros de extensão, liga os municípios de Moju, no nordeste, a Redenção, no sudeste – passando por Marabá, a terceira maior cidade do Estado. Os problemas começam com a sinalização precária. Durante a viagem é difícil encontrar placas que marcam a quilometragem ou a distância até as cidades mais próximas.

Isso não quer dizer que elas não existem: podem estar escondidas pelo capim de dois metros de altura que cobre a lateral da pista. As únicas placas visíveis indicam a aproximação de pontes. Em geral, significam que o motorista deve reduzir a velocidade. O desnível entre a estrutura das pontes e o asfalto da estrada é tão grande que é preciso parar o carro para não estourar os pneus. “Foram investidos R$ 3,5 milhões na recuperação de 11 pontes”, diz Antonio Leite, chefe da regional sudeste da Secretaria de Transportes do Pará. “As obras estarão prontas em 60 dias e esse desnível não vai mais existir”.

Quem usa a estrada reclama dos problemas e contabiliza os prejuízos. Com uma frota de 220 caminhões, a Della Volpe transporta equipamentos como esteiras, motores e tratores usados nas minas da Vale. Pelo serviço, cobra fretes entre R$ 100 e R$ 5 mil – dependendo do destino e do tamanho do equipamento. A principal reclamação dos motoristas da empresa é em relação à quantidade de buracos. “Eles sofrem com problemas nos eixos, no feixe de molas e nos pneus”, diz Paulo Homero, gerente da Della Volpe. “Quando vão a Belém, preferem aumentar a viagem em 170 quilômetros a pegar uma estrada tão ruim”.

Como a estrada não tem acostamento, o motorista precisa parar no meio da pista quando sofre um acidente ou seu veículo dá algum problema mecânico. E precisa torcer para chegar ajuda. Isso porque não há sinal de celular e não existem telefones de ajuda instalados ao longo da estrada. O risco de dirigir nessas condições pode ser sentido nos cofres da empresa. “Tem motorista que cobra até 15% a mais pelo frete”, disse.

Estrada "federalizada"

Para tentar melhorar as condições da PA-150, um projeto do deputado Zequinha Marinho (PMDB) federalizou a estrada em meados do ano passado. Isso significa que, a partir de 2011 a estrada será administrada pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, o Dnit. O trecho que ficará sob os cuidados do governo federal tem 360 quilômetros e fica entre Marabá em Redenção. “O Dnit vai fazer um novo projeto com uma estrada mais larga e com acostamento”, diz Leite. “Até o final do ano, nosso trabalho é fazer manutenção para dar condições mínimas de segurança para o motorista”.

A reforma da PA-150 foi incluída na segunda edição do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2) e deve consumir R$ 350 milhões para ajudar a escoar a produção das minas da região. Quando estiver concluída, a estrada passará a se chamar BR-155.
 

Divulgação
Na viagem de volta, manada com 1 mil cabeças de gado invade a pista: nenhuma sinalização para orientar os motoristas
Depois de 100 quilômetros viajando pela PA-150, o motorista chega a Eldorado dos Carajás. Lá, tem de pegar outra estrada estadual, a PA-275, e rodar mais 72 quilômetros até Parauapebas. Muda o número, mas as condições da estrada permanecem as mesmas. O asfalto desapareceu em vários trechos da rodovia. Como os motoristas precisam reduzir a velocidade, assaltos são comuns na região.

Em 2009, a polícia prendeu uma quadrilha especializada em roubar motoristas. Apesar disso, o clima ainda é de insegurança. Ao longo da viagem, é comum cruzar com carros de escolta armada que acompanham caminhões que transportam cargas valiosas. Na entrada para Serra Pelada, onde um riacho destruiu o asfalto, um policial monta guarda com colete à prova de bala e armado com uma metralhadora. Apesar da presença da polícia, os moradores recomendam não pegar a estrada à noite para evitar assaltos. Algumas transportadoras são mais radicais: proíbem seus motoristas de viajar depois das 22 horas.

Muitas das obras de recuperação da estrada estão paralisadas. Moradores de Parauapebas contam que a reconstrução de uma ponte destruída pelas chuvas já completou três meses. De acordo com a Secretaria de Transportes, os problemas da PA-275 foram causados pelas chuvas que atingem a região entre novembro e maio. “Em 60 dias, a estrada estará recuperada”, afirma Leite.

Não bastassem os problemas da estrada, é preciso tomar cuidado com outro problema que aflige a maior parte das rodovias brasileiras: a imprudência. Para evitar buracos, motoristas usam os dois sentidos da estrada e ultrapassam em faixa contínua – quando é possível encontrar esse tipo de sinalização. São raros os motociclistas que usam capacete e não é difícil ver três pessoas viajando numa moto. Os pedestres que usam a estrada também não ajudam para evitar acidentes. Durante a viagem de volta, todos os problemas se repetiram. Com um agravante: quatro peões tocavam tranquilamente uma manada com 1 mil cabeças de boi no meio da estrada. Não havia nenhum policial rodoviário para orientar o motorista. Seria bucólico se

 não fosse tão perigoso.

 

 

 

 

 

 

 

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