Distribuidoras e grandes consumidores de energia vão cobrar de estatal prejuízos com o blecaute de novembro de 2009

Assim que veio a público que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) havia multado Furnas em R$ 54 milhões pelo apagão de 10 de novembro de 2009 (uma das maiores penalidades já aplicadas no setor), distribuidoras e grandes consumidores de energia elétrica começaram a se organizar para cobrar da estatal por seus prejuízos.

“A multa da Aneel claramente identifica a culpa de Furnas pelo apagão e contraria o relatório final do Operador Nacional do Sistema (ONS), que concluiu que havia ocorrido falha sistêmica”, diz Ricardo Lima, presidente da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace) “Ainda precisamos ter acesso ao relatório final da Aneel, mas já podemos antecipar que os grandes consumidores vão cobrar de Furnas seus prejuízos.”

Furnas informou que vai recorrer.

O relatório em questão é um processo de investigação que deu entrada na Aneel no fim do ano passado e ficou quase quatro meses tramitando em regime fechado à consulta pública – fato que foi considerado atípico para um evento das proporções do apagão de novembro, que havia afetado o fornecimento de luz em praticamente todo o País.

A versão final do relatório já se encontra disponível no site da Aneel ( leia aqui ) e atribui ao apagão a “ferrugem nos isoladores” por falta de manutenção, e a demora no retorno da luz, a falhas operacionais da equipe de Furnas: “Houve falhas da operação de Furnas durante a recomposição do sistema”, diz o relatório. Os técnicos da Aneel concluíram que o pessoal da estatal não seguiu adequadamente os procedimentos previstos, o que prolongou a falta de luz.

Segundo a investigação da Aneel, os problemas que levaram ao apagão já haviam sido identificados em 2003, e Furnas fora notificada a realizar a modernização dos equipamentos. A estatal acatou a sugestão e incluiu a manutenção em seu plano de modernização, mas protelou sua realização.

Segundo o relatório, a manutenção e modernização “consta do Plano de Modernização de Furnas daquela época, com previsão de implantação até dezembro de 2006, adiada para dezembro de 2008 e novamente adiada para dezembro de 2010.”

Executivos de empresas, consultores e entidades do setor elétrico ouvidos pelo iG ao longo das últimas semanas aguardavam com ansiedade a conclusão oficial das investigações. Boa parte deles já tinha a informação extra-oficial de que os técnicos da Aneel apontariam Furnas como o principal responsável pelo apagão – e não um raio, como havia concluído a investigação do ONS e propagado Edson Lobão, ministro de Minas e Energia.

Boa parte dizia que era um momento decisivo para que a Aneel provasse a sua transparência e autonomia, pois iria bater de frente com versões oficiais contraditórias. “Fomos informados de que a investigação trazia fotos de equipamentos danificados, enferrujados, o que demonstrava que a empresa responsável pela manutenção das linhas não estava fazendo direito o seu serviço”, diz um executivo do setor. “E essa empresa é Furnas, com co-responsabilidade do ONS, que deve monitorá-la.”

As desconfianças em relação à saúde do sistema eram mais fortes entre os profissionais mais experientes do mercado. Um alto executivo de uma grande empresa de energia relatou ao iG que ficou “espantado” com a os procedimentos adotados durante o apagão.

Naquela noite de 10 de novembro, quando seu escritório ficou às escuras, esse executivo, que fazia hora extra, dirigiu-se a uma sala de operações para assistir ao que ele mesmo define como “espetáculo do retorno da luz”. Postado diante de uma tela onde se pode ver o mapa do sistema elétrico brasileiro, ele esperava ver a volta do fornecimento de energia em um poucos minutos.

Conhecedor das minúcias do sistema, esse executivo sabe que há uma sequencia de procedimentos pré-definidos que trazem a luz de volta rapidamente. Alguns deles são automáticos, outros são operações manuais que todo técnico tem obrigação de decorar para saber exatamente o que fazer para não deixar o país no escuro.

“Para meu espanto, não vi o que esperava. São Paulo ficou 10 horas sem fornecimento”, diz ele. “Algo deu errado e, na minha opinião, faltou treinamento para o pessoal, faltou gestão no sistema elétrico e as deficiências precisam ser corrigido com urgência.”

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