Publicidade
Publicidade - Super banner
Empresas
enhanced by Google
 

Produtividade chinesa no sertão cearense

Com tecnologia e verticalização dos negócios, a Grendene tem produtividade maior do que os calçadistas chineses no Nordeste

Gustavo Poloni, de Sobral (CE) |

São pouco mais de 10 horas da manhã e os termômetros já ultrapassaram a linha dos 30 graus no galpão em que milhares de funcionários trabalham em ritmo acelerado. Em 24 horas, 212 injetoras de plástico transformarão 57 toneladas de PVC em 240 mil pares de sapatos _quase três novos pares por segundo. Ao fim de um ano, mais de 144 milhões de calçados sairão das linhas de produção. Engana-se quem pensa que a fábrica acima se encontra no polo calçadista chinês, que produz 67% dos calçados vendidos no mundo. Ela está no Nordeste brasileiro, onde até pouco tempo atrás a indústria era associada a atraso e ineficiência _e que hoje abriga algumas das plantas mais modernas do País.

Haroldo Saboia
Funcionário da Grendene opera injetora de plástico: em 24 horas, 212 máquinas são capazes de processar 57 toneladas de PVC e fazer 240 mil pares de sapatos
A fábrica em questão está localizada em Sobral, município de 200 mil habitantes no sertão cearense. Não é uma fábrica qualquer. Ela é considerada modelo entre as seis unidades da Grendene, empresa que ano passado faturou R$ 1,9 bilhão e é considerada uma das cinco maiores fabricantes do mundo. Em 2009, Sobral foi responsável por 87% dos 166 milhões de calçados feitos pela empresa, produtividade maior do que a registrada nas concorrentes chinesas. Além de eficiente, a fábrica é sustentável. Há alguns anos, passou a reciclar 100% das sobras da principal matéria-prima usada na produção dos calçados, o PVC. “A unidade de Sobral é prova de que os tempos de atraso do Nordeste ficaram para trás”, diz Nelson José Rossi, 48 anos, gerente-geral da Grendene em Sobral.


Uma série de fatores explica a eficiência de Sobral. A automatização da linha de produção é um deles. Os trabalhadores apertam um botão e esperam alguns segundos para retirar o calçado _ou parte dele_ da máquina. Nos sete galpões de Sobral, que somados têm 170 mil metros quadrados de área construída, as injetoras de plástico funcionam 24 horas por dia. Quando a lista de pedidos é muito grande, a fábrica se esmera para produzir até nove pares por segundo, ou 540 calçados por minuto. “A Grendene investe muito em tecnologia para atingir essa produtividade”, afirma Luis Coelho, consultor do setor calçadista. Só em 2009, foram mais de R$ 35 milhões empregados em infraestrutura.

Outro segredo da Grendene é a verticalização de seu negócio. Em 1999, a empresa passou a produzir PVC, sua principal matéria-prima, dentro da planta de Sobral. Além de alimentar as injetoras de plástico, ela virou também um ponto de encontro para técnicos discutirem melhorias nos produtos. Para isso, basta atravessar a rua. “Essa colaboração resultou em compostos que nos ajudam a ganhar segundos preciosos na hora de fazer um sapato”, diz Odair Guzzi, 53 anos, gerente de tecnologia da Grendene. Hoje, todo o PVC usado nas unidades da Grendene é feito em casa. São seis mil toneladas ao mês, a terceira maior produção da América do Sul.

1,3 tonelada de arroz

Não foi apenas a eficiência que transformou Sobral numa fábrica modelo. Entre outras normas para organização, as unidades têm cestos de coleta seletiva espalhados pelos corredores. Os funcionários operam máquinas com travas de segurança desenvolvidas pela empresa para evitar acidentes e são treinados numa espécie de universidade interna. A tradição do artesanato na região também ajuda na hora de produzir componentes, como etiquetas para a fábrica. Consultórios orientam no planejamento familiar. Na hora do almoço, os refeitórios oferecem inclusive prato light. Para fazer as 17 mil refeições servidas por dia, são consumidas 1,3 tonelada de arroz e 2,2 toneladas de carne ao dia. É o maior refeitório da região Nordeste.
 

As condições de trabalho oferecidas pela Grendene ganharam fama na região e atraem toda a sorte de pessoas em busca de emprego. Nascida em Sobral, Eufrásia Oliveira, 32 anos, 13 deles passados dentro da empresa, começou como auxiliar de produção (o cargo mais baixo na linha de produção, cujo salário inicial é de R$ 533) e três meses depois recebeu a primeira promoção. Seis promoções depois, ela é supervisora e comanda uma equipe de 230 pessoas. Hoje, cursa administração e espera se tornar consultora. “Gosto da forma como eles investem nos funcionários”, diz Eufrásia. Além dela, seus quatro irmãos também trabalham na fábrica.


Durante muitos anos, a sobra do PVC da Grendene era vendida como sucata. Um dia, um executivo pensou: ‘se tem gente pagando pelo material é porque está ganhando dinheiro’. Desde o final da década de 1990, a Grendene reaproveita 100% do PVC, ou 18 mil toneladas ao ano. Com os sacos de papel usados para transportar o plástico, aconteceu algo parecido. Durante anos eles eram usados uma vez e descartados. Agora, vão e voltam cinco vezes antes de ir para o lixo. O resultado? “Com o que economizamos em sacos, dá para pagar os 220 funcionários da fábrica de PVC”, afirma Emílio de Moraes, gerente da controladoria.

 

 

Leia tudo sobre: nordestegrendenefábricacalçadosprodutividade

Notícias Relacionadas


Mais destaques

Destaques da home iG