Salários em alta de chineses e estagnação japonesa indicam início da convergência dos padrões de vida das duas economias asiáticas

Uma greve que prejudicou seriamente a produção nas fábricas da Honda Motors na China chegou como um alerta para as principais exportadoras japonesas, justamente em um momento em que elas tentam driblar a concorrência e crescer no florescente mercado chinês – impulsionado pelos baixos salários dos operários.

A Honda, segunda maior fabricante de automóveis japonesa, ficando atrás somente da Toyota no maior mercado automotivo do mundo, sofreu a perda de produção de milhares de unidades com a greve dos trabalhadores chineses - que protestam por melhores salários e condições de trabalho. Os protestos tiveram início em 17 de maio em uma fábrica de transmissão da Honda na cidade de Foshan, no sudeste do país, e já levou ao fechamento das quatro fábricas da Honda em território chinês.

Acesso ao grande mercado e custos mais baixos de produção motivaram investimentos japoneses na China: mudanças no padrão atual vão transformar relações bilaterais
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Acesso ao grande mercado e custos mais baixos de produção motivaram investimentos japoneses na China: mudanças no padrão atual vão transformar relações bilaterais

Em Tóquio, a greve despertou uma importante questão: como os salários e as expectativas dos chineses aumentam, seguindo o rápido crescimento econômico daquele país, ao mesmo tempo em que o Japão titubeia com uma desaceleração econômica, os dois países enfrentam um realinhamento que poderia alterar para sempre a forma como suas economias interagem.

Para complicar o cenário, os chineses são tidos como consumidores essenciais pelas empresas japonesas, pois eles são uma forma de equilibrar o mercado que vai envelhecendo e se encolhendo naquele país. Algumas das empresas mais lucrativas do Japão - como a Fast Retailing, que detém a linha de confecções de baixo custo Uniglo - desde os anos 90 contam com a produção chinesa para manter os preços baixos de suas mercadorias.

“O Japão está começando a perceber que a era dos baixos salários na China está chegando ao fim e empresas interessadas na China somente por seus baixos custos de produção precisam mudar de direção”, disse Tomoo Marukawa, especialista da Universidade de Tóquio em economia chinesa.

Apesar das conseqüências para os custos de produção, um aumento nos salários e no padrão de vida seria uma boa nova para muitos exportadores japoneses. As mesmas empresas que produzem na China também vêm se esforçando para vender seus produtos naquele país, transferindo fábricas para o território chinês visando reduzir gastos e suprir as necessidades dos consumidores locais. No caso da Uniglo, a empresa seguiu o aumento da renda na China abrindo lojas no país em 2002. Hoje a marca já conta com 64 pontos de vendas no país e pretende abrir outras mil na próxima década.

Pressão sobre os preços

A Honda, porém, provavelmente terá de baixar consideravelmente os preços de seus carros para se estabelecer no mercado chinês.

Marukawa disse que a probabilidade de uma valorização do yuan no longo prazo eventualmente contribuiria para uma alta nos custos de produção.

“As empresas japonesas sabem que a China é um mercado enorme e que para vender naquele país, é mais lógico também produzir lá”, disse ele.

A greve dos 1.900 operários da fábrica de Foshan chegou como um imenso choque na Honda, que poucos dias antes havia anunciado um aumento de produção na China para suprir a crescente demanda.

O CEO da Honda, Takanobu Ito, disse que a fabricante de automóveis daria início a grandes expansões em duas joint ventures na China, a Guangqi Honda e a Dongfend Honda, aumentando em 30% a capacidade e visando alcançar a produção de 830.000 carros e minivans até 2012.

Produção da Honda na China

Somente no mês de abril, a Honda produziu 58.814 automóveis na China, um aumento de 28,7% em comparação ao mesmo mês no ano anterior, alcançando também um recorde mensal.

O aumento também foi registrado em empresas concorrentes. Cinco das seis indústrias automotivas japonesas com fábricas na China quebraram recordes de produção em abril.

“A onda da motorização na China não irá diminuir no futuro previsível”, disse Ito na semana passada. O executivo também informou que a Guangqi Honda irá lançar um carro compacto projetado especialmente para o mercado chinês, que será produzido naquele país em 2011.

A alta de produtividade na China foi motivada por uma forte recuperação econômica naquele país, que vem apoiando a venda de automóveis mais do que qualquer outro dos principais mercados do mundo. A retomada veio como uma boa nova para a indústria automotiva japonesa, altamente pressionada a cortar gastos para tentar recuperar os lucros depois da forte queda das vendas de automóveis proveniente da crise econômica mundial.

A indústria automotiva japonesa também tenta, a todo custo, alcançar os concorrentes depois de entrar relativamente tarde no mercado. O primeiro Honda chinês foi produzido em uma fábrica de Guangzhou em 1999, enquanto a Toyota somente começou a produzir na China em 2002.

Apesar do rápido aumento nas vendas desde então, a indústria automotiva japonesa ainda luta contra a concorrência por causa de uma carência de modelos compactos de baixo custo, que estão impulsionando o crescimento do mercado na China.

Carros da Honda na China costumam sair o dobro do preço de  veículos de fabricantes locais
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Carros da Honda na China costumam sair o dobro do preço de veículos de fabricantes locais
O modelo mais barato da Honda vendido na China, o compacto Fit com motor 1.3, custa cerca de 83 mil yuan, aproximadamente US$ 12.500, enquanto um mini-carro Chery QQ 1.3, da marca chinesa Chery Auto, sai pela metade do valor.

Como o salário mínimo mensal na China é de 2.050 yuan, aproximadamente US$ 300, o preço de um Chery QQ custa cerca de 19 meses de salário mínimo, enquanto o Honda Fit requer mais do que 40 meses. O sedan Honda Accord 2.4 é vendido na China por aproximadamente US$ 35 mil, valor muito acima do alcance da maioria dos trabalhadores daquele país.

A indústria automotiva japonesa tem se mostrado bem mais relutante do que outros fabricantes para transferir a maior parte de sua produção para a China e para outros países, apesar dos altos custos do mercado interno, pois demorou mais tempo para realocar sua produção.

Até 2009, quando foi ultrapassado pela China, o Japão era o maior fabricante de carros do mundo.
No mercado interno, a indústria automotiva japonesa vinha titubeando com um iene forte, o que torna seus carros mais caros no exterior e consome parte dos lucros naqueles países. Um retrocesso público contra o corte de milhares de trabalhadores temporários no Japão levantou a possibilidade de criação de leis trabalhistas mais rígidas e obstruiu o futuro de linhas de produção no Japão, muitas delas ainda permaneciam inoperantes.

Enquanto isso, as vendas no Japão continuam fracas, ao mesmo tempo em que os Estados Unidos e a Europa ainda não retomaram suas vendas para os níveis anteriores à crise.
Na opinião de especialistas, isto torna o mercado chinês ainda mais importante para o Japão.

“A importância do mercado chinês para a indústria automotiva japonesa é que ele tem o potencial de atuar, ano após ano, como um pilar que dá sustento ao crescimento em uma junção crítica, quando o principal condutor das duas últimas décadas – o mercado americano – parece menos promissor sob uma perspectiva de longo prazo”, relatou Clive Wiggins, analista da Macquarie para o mercado automotivo com sede em Tóquio.

Para a Honda, a promessa de acesso a um enorme mercado em expansão na China foi um fator tão sedutor para que a indústria começasse a produzir naquele país quanto os baixos salários. Uma taxa de importação de 25% sobre veículos estrangeiros é também um grande incentivo para que fabricantes de automóveis de outros países comecem a produzir na China.

Mais rápido do que qualquer outra grande indústria automotiva japonesa, a Honda começou a exportar carros fabricados na China para países do terceiro mundo, com uma pequena fábrica em Guangdong produzindo o modelo Jazz (similar ao Honda Fit) para exportação.

Reivindicações dos trabalhadores

Os trabalhadores em greve protestavam contra os baixos salários, os turnos e outras condições de trabalho – como o ar condicionado. Os trabalhadores também reclamavam de uma diferença salarial praticada com os operários da Honda provenientes do Japão, que recebem cerca de 50 vezes a mais do que os trabalhadores chineses.

Especialistas dizem que as empresas japonesas terão de começar a mudar a forma como lidam com seus operários – dando aos trabalhadores locais salários e benefícios justos e uma chance de promoção equiparada com as que são praticadas com funcionários da matriz, no Japão.

“Os fabricantes japoneses precisam melhorar o estado de ânimo de seus operários, garantindo a possibilidade de ascensão na empresa também aos funcionários locais”, disse Tatsuo Matsumoto, pesquisador da Ásia no Japan Center for International Finance.

Apesar das expectativas de alta nos custos de produção, uma extensa base de fornecimento de peças e materiais para a indústria automotiva torna improvável que a indústria automotiva japonesa possa abandonar a fabricação na China. Segundo a opinião de analistas, transferir o que se transformou em um incomparável ecossistema de fornecedores custaria caro e levaria anos.

Marukawa, da Universidade de Tóquio, explica: “Fabricantes de automóveis japoneses investiram pesado na China. Eles já desenvolveram uma rede de fornecedores. A greve pode até desencadear uma mudança de pensamento na Honda sobre como fazer negócios na China. Entretanto, eles vão achar difícil deixar o país”.

Enquanto isso, a China começou a pagar subsídios de até 60.000 yuan, ou US$ 8.784, por carro para fabricantes de veículos elétricos e híbridos em uma base de testes em cinco cidades. Essas informações foram fornecidas pela agência Associated Press de Shangai.

Os compradores particulares de tais carros também podem conseguir subsídios de 3.000 renminbi das concessionárias de automóveis. Os subsídios estarão disponíveis em Shangai, Changchun, Shenzhen, Hangzhou e Hefei - cidades onde estão situadas as matrizes das principais indústrias automotivas.

O programa visa “ajudar a promover uma mais rápida inovação tecnológica no segmento automotivo”, disse o Ministro das Finanças daquele país.

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