Marise Barroso, presidente no Brasil da Mexichem, fabricante de tubos e conexões com a marca Amanco
Ainda há machismo nas empresas no Brasil - e muito. Quem afirma é Marise Barroso, presidente da subsidiária brasileira do grupo mexicano Mexichem, fabricante de tubos e conexões e dono de marcas como Amanco, Plastubos, Bidim e Doutores da Construção. À frente de uma indústria ainda associada ao universo masculino como o setor de construção, Marise transformou-se em um exemplo de como as mulheres vêm conquistando poder no Brasi. Sua participação em palestras, seminários e campanhas sobre o tema no País é cada vez mais assídua.
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Mais do que uma executiva de uma multinacional, Marise demonstra ter plena consciência de seu papel como uma liderança feminina, de um agente propulsor de conquistas para as mulheres. “Luto para que a minha filha encontre um terreno mais fértil. O mundo precisa mudar, e precisa mudar rapidamente”, afirma Marise, que se dispôs receber, por mais de uma hora, a reportagem do iG na sede da subsidiária brasileira da Mexichem, em São Paulo.
A prova de que as empresas ainda são machistas está na frieza incontestável dos números, diz a executiva. Basta olhar quantas mulheres exercem posições de liderança nessas companhias. “Se os números não batem com o discurso, então é balela”.
Mesmo companhias que abraçam a causa da sustentabilidade ainda avançaram pouco na questão do empoderamento das mulheres, diz Marise, que foi convidada recentemente pelo Walmart para participar de uma iniciativa para estimular - e forçar - a maior contratação de mulheres por parte de seus fornecedores. O programa está sendo implementado pela varejista americana nos Estados Unidos e no Brasil.
O que as empresas precisam fazer é implementar metas e meios de alcançá-las, como propõe o Walmart, defende a executiva. Na Mexichem, os headhunters têm que indicar, necessariamente, duas pessoas no mínimo para o preenchimento de uma vaga, um homem e uma mulher. E é uma mulher quem responde, por exemplo, pelas nove fábricas do grupo mexicano no Brasil, tarefa normalmente delegada aos homens.
Diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, reúne-se com Dilma Rousseff: mulheres assumem posições de liderança no mundo
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A eleição de Dilma Rousseff no Brasil, a liderança exercida por Angela Merkel, que tem sobre os seus ombros a missão de tirar a Europa de uma de suas piores crises, e a nomeação de Christine Lagarde para a diretoria do Fundo Monetário Internacional (FMI) não são um coincidência, na visão de Marise. É um sinal dos tempos.
Segundo ela, a liderança masculina, na forma como conhecemos, baseada na ausência de uma visão de longo prazo, fracassou. As pessoas sentem a necessidade de resgatar valores e essa é uma visão mais feminina do mundo. Mas isso que não quer dizer que essa visão exista, obrigatoriamente, somente nas mulheres. O tradicional modelo masculino já não serve mais nem mesmo aos próprios homens.
Marise não acredita que as mulheres apenas irão repetir o padrão masculino de liderança, mas que elas buscarão uma nova forma de exercê-la, com um maior equilíbrio entre a vida profissional e afetiva. “Não considero que tenha feito grandes sacrifícios (para chegar à presidência de uma companhia). Minhas prioridades são muito claras e nunca sacrifiquei meu papel como mãe. Não deixo de ir às apresentações de ballet de minha filha”, diz Marise.
Leia a seguir entrevista de Marise Barroso ao iG:
iG: A sua empresa possui políticas de empoderamento de mulheres? A ocupação de mulheres em níveis mais altos na hierarquia é importante para o equilíbrio da empresa? Por quê?
Hoje, a Mexichem Brasil já conta com uma relação de equilíbrio na Diretoria da empresa, onde 50% dos cargos são ocupados por mulheres. Na Gerência esse índice é de 32% e de 21% no total da empresa. Acreditamos que a nossa ação afirmativa para o empoderamento da mulher está refletida em nossa política de diversidade e igualdade de oportunidades na seleção, contratação, remuneração e desenvolvimento. As vagas abertas não são determinadas por sexo ou idade, e a seleção é feita pela competência e habilidade da pessoa em relação à vaga disponível. Nenhuma publicação de vagas nos meios de comunicação (jornal, revista, internet etc.) faz referência a idade ou sexo.
Equilíbrio de gênero cria mais valor para o negócio, diz Marise
iG: Conciliar a carreira com outros “papéis” femininos foi - ou ainda é - um desafio para você? Qual é a maior angústia de uma mulher que ocupa um cargo executivo máximo de uma empresa?
Eu não tenho angústia e acho que a angústia é fruto de não se ter claras as prioridades na vida. O equilíbrio sempre é fácil de alcançar quando se tem claro quais são as suas prioridades na vida. Eu sempre tive muito claro quais são as minhas prioridades e sempre as mantive. Por exemplo, eu nunca deixei de ir a um evento no colégio da minha filha e nunca deixei de ajudá-la nos estudos, coisas que muitas executivas alegam não poder fazer. Eu sempre fiz, pois nunca tive o medo de afirmar que esta era uma prioridade para mim.
A realização pessoal somente vem com este equilíbrio. Não adianta ser um profissional brilhante com uma vida pessoal sem sentido. Eu tive o exemplo em casa. Minha mãe sempre trabalhou para que junto com o meu pai nos pudessem dar uma melhor educação. Ela também me ensinou a importância da independência econômica e da realização. Eu fiz os meus planos. Tive que estudar em uma universidade pública, pois era a minha única opção - e estudei para isso. Comecei a trabalhar já no primeiro ano de faculdade para somar a prática à teoria. Programei que terminaria meus estudos com um mestrado antes do nascimento do meu primeiro filho e assim foi. O resto foi só fazer bem feito, fazer o que eu gosto e com paixão, buscando inspirar a outros pelo exemplo de conduta. O resultado foi consequência disso.
iG: Sua família apoiou a sua carreira?
Sempre contei com o apoio da minha família. Devo a meus pais ter podido chegar a uma das melhores universidades do país. Enquanto estive casada, por 19 anos, meu marido sempre me apoiou, assim como a minha filha. Minha filha sempre acompanhou de perto a minha vida profissional, como eu sempre acompanhei a vida dela de estudante. Eu ligo imediatamente para saber como ela saiu em uma prova e ela me liga para saber como foi aquela reunião importante.
iG: Ainda existe machismo nas empresas?
Os números e os fatos não nos deixam mentir de que existe sim, e ainda muito, machismo no mundo corporativo. No entanto, a igualdade de condições é uma tendência, um caminho sem volta. Hoje, mundialmente, já é maior a porcentagem de mulheres que se formam nas universidades, se comparada com a porcentagem de homens. Muitas empresas já trabalham proativamente nesta busca do equilíbrio de gênero, que comprovadamente gera mais valor para o negócio, mas ainda existe uma grande parte em que o medo à mudança ainda impera.
Eu, pessoalmente, acredito que oferecer igualdade de condições a mulheres e homens em todo o processo de seleção, recrutamento, compensação e desenvolvimento é o caminho para que a estrutura naturalmente se equilibre. Assim fazemos na Mexichem Brasil, e o resultado para o negócio tem sido excelente.
iG: Você acredita que existem diferenças na forma como mulheres e homens executam a gestão? Quais?
Acredito que a liderança feminina se destaca por quatro características principais, que residem na essência do feminino: a clareza de propósito e o compromisso com o largo prazo; o poder formativo, a intuição e a empatia. Estas características potencializam resultados positivos como: a capacidade de engajar pessoas e construir mais estabilidade futura; a capacidade de educar/formar com valores; a potencialização da criatividade e a transparência para uma constante retroalimentação (feedback) que permite a correção de rota. Para a Mexichem Brasil, que tem a sustentabilidade no DNA de sua cultura corporativa, essas características são muito importantes e valorizadas.
Eu acredito no equilíbrio de gêneros na empresa, como acredito que o equilíbrio do ser humano e a sua felicidade também dependem do entendimento e aceitação de que todos somos em essência feminino e masculino.
Drive, sobre motivação, um dos livros recomendados por Marise
iG:Em algum momento você pensou em desistir ou não investir tanto na carreira como executiva?
Nunca pensei em desistir de nada na vida. Eu não me arrependo de nada do que eu fiz na vida. Eu nunca abri mão de meus valores e nunca tive medo de enfrentar a adversidade. Hoje nosso mundo corporativo está impregnado de medo. Muitos executivos abrem mãos de seus valores, de sua vida pessoal, por que temem perder status/o poder que o cargo lhes oferece. Acreditam que serão menos sem o cargo, sem o que podem ter e esquecem o verdadeiro valor do que estão abdicando. Como eu nunca fiz isso, eu me sinto absolutamente tranquila nas escolhas profissionais que fiz e me orgulho pelas sementes que plantei e hoje florescem.
iG: Houve algum momento mais marcante em sua trajetória como executiva?
Passei por processos marcantes e constantes na minha vida: vendas, aquisições e start-up de empresas. Passei várias vezes por isso. Não sei se é uma coincidência, enfim. São processos para os quais você precisa se preparar e preparar a equipe, para começar algo novo ou para fazer a transição. Muitas vezes, dependendo se o caso é se somos comprador ou compramos, as atitudes das pessoas mudam dramaticamente e o que precisamos é encarar a ambos como processos em que o respeito pelo ser humano e a capacidade de se colocar no lugar do outro prevaleçam para um melhor resultado.
Também destacaria como um momento muito importante em minha carreira, quando fui escolhida pelos meus pares para assumir a posição de presidente da Amanco Brasil (hoje Mexichem Brasil).
iG: Você já buscou aconselhamento de mulheres executivas, com mais experiência?
Tive a imensa sorte de ter como chefe uma CEO mulher (Cristina Pieretti, executiva do Cisneros Group of Companies, da Venezuela), quando tinha 28 anos. Com ela eu aprendi uma grande parte do que hoje coloco em prática.
iG:Você acredita que mudou a forma como as mulheres são vistas dentro de uma empresa nos últimos dez anos?
As executivas que estão no comando nos dias de hoje tiveram que se provar mais para chegar ao topo, batalharam posições degrau a degrau, lutaram pela igualdade no mercado de trabalho. Lutaram e seguem lutando pela igualdade no recrutamento, na seleção, na remuneração e na promoção. Até pouquíssimo tempo o topo das organizações era formado somente por homens. Vejo o mundo ávido por um novo modelo de liderança, mais preocupado com a sustentabilidade do planeta e com o resgate dos valores. A força criativa e formativa e o compromisso com o longo prazo do feminino estão emergindo em todo o mundo em resposta a este clamor. A igualdade de condições é uma tendência, um caminho sem volta. E nós, mulheres e homens que temos consciência da importância da igualdade para os negócios, devemos nos engajar para que a nova geração tenha mais oportunidades.
iG: Qual é o seu maior modelo ou pessoa que tenha servido de inspiração para sua carreira?
Tenho como modelo e inspiração minha mãe e a primeira mulher CEO à qual reportei – Cristina Pieretti, no Cisneros Group of Companies – Venezuela.
Converso muito com Marcos Bicudo, presidente da Philips no Brasil e meu antecessor na Amanco, e Maria Cristina Carvalho Pinto.
iG: Quais livros você está lendo neste momento?
Neste momento estou lendo três livros:
- “Compaixão ou Competição - Valores Humanos nos Negócios e na Economia”, de Dalai Lama;
- “O que o Jovem Quer da Vida ? - Como Pais e Professores Podem Orientar e Motivar os Adolescentes”, de William Damon
- “Drive: The Surprising Truth About What Motivates Us”, de Daniel Pink
iG: Qual o seu conselho para jovens executivas, que estão começando a carreira?
Eu diria a ela que busquem associar a sua carreira com o que lhes dá prazer, façam o que gostam, pois a probabilidade de fazer bem feito é muito maior. Que busquem o equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal, pois somente este equilíbrio trará felicidade. Preparem-se para SER e não somente para TER.
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