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Em Tupi, trabalhadores buscam acalmar tempestades

A 300 quilômetros da costa, tempo livre dos pioneiros da plataforma de exploração do pré-sal é gasto com videogame e orações

Sabrina Lorenzi, enviada especial a Tupi/Bacia de Santos |

Longe de casa por semanas, trabalhadores que transformam o sonho do pré-sal em realidade encontram terra firme na fé.

Rezas e orações para acalmar ondas e tempestades emocionais são frequentes na plataforma que extrai petróleo em Tupi, a 290 quilômetros da costa brasileira.

No megacampo pioneiro da nova província petrolífera, cultos religiosos acontecem três vezes por semana, com a participação de católicos, evangélicos, agnósticos ou apenas curiosos.

"Aqui não tem pastor nem padre", diz Mikko Rosário, taifeiro responsável por serviços de higiene e limpeza da embarcação, que toca no violão músicas evangélicas. "Cada um fala o que vem ao coração."

 

Selmy Yassuda
Petroleiros cantando, com violão e bíblia na mão
O técnico de segurança Jorge Abreu, católico, descreve os encontros: "São cultos cristãos, mas muitos que participam não têm religião e buscam conforto para a saudade que sentem da família".

Videogame, cinema, academia, carboidratos

Os cultos são uma parte importante da rotina, mas o tempo livre na plataforma Cidade de São Vicente é tomado também por outras atividades e passatempos. Os 70 trabalhadores têm à disposição jogos de videogame, sala de cinema, academia de ginástica, internet e aulas de inglês.

A comida é farta - e ajuda a saciar a ansiedade. Wagner Souza, ajudante de cozinha da plataforma no turno da noite, malha na academia à tarde.

Seria uma rotina normal, não fosse a saudade de familiares e amigos. "Aqui todo mundo é carente, sente saudade dos parentes e se ajuda", diz Douglas Emanuel de Sousa, marinheiro que também participa dos cultos religiosos.

Contratados pela norueguesa BW, prestadora de serviços para a Petrobras, quase todos os trabalhadores em Tupi alternam 14 dias de trabalho - quando estão “embarcados” - com duas semanas de folga. Como vêm de longe, os estrangeiros intercalam meses de folga com períodos idênticos de trabalho.

Selmy Yassuda
Academia de ginástica no interior da plataforma
No começo da operação da plataforma, em maio do ano passado, os estrangeiros eram maioria dos embarcados. Profissionais de todas as partes do mundo compunham o quadro de pessoal da plataforma de Tupi, que faz testes de longa duração para recolhimento de informações sobre as reservas da camada do pré-sal.

Hoje, dez meses após o início da exploração de petróleo, os estrangeiros representam 25% dos empregados. "Estamos perto de cumprir o regulamento de 80% de mão-de-obra nacional", diz Paulo Buschinelli, gerente da plataforma.

Se com o tempo os brasileiros passaram a ocupar a maioria dos postos, as mulheres continuam como minoria. A nutricionista Michele Ferreira tem apenas 10 colegas na embarcação entre os 70 embarcados. Michele trabalha de dia, cuidando das refeições. Mineira de Itajubá, cidade do sul do Estado, aproveita o tempo livre, à noite, para se comunicar com o marido pela internet.

Wellington Gonçalves Dias, operador de produção, joga videogame enquanto fala ao iG. A prática se repete praticamente todos os 14 dias em que fica embarcado. "Um dos atrativos do trabalho em plataformas em mar é que depois de trabalhar podemos ficar duas semanas em casa", diz. Ele já trabalhou “embarcado” na Colômbia, Estados Unidos, França e Canadá, instalando válvulas de tratamento do petróleo. Até que casou e decidiu trabalhar em território nacional, para ficar mais perto da mulher.

Selmy Yassuda
Michele no refeitório da plataforma
O enfermeiro Anderson Luiz Pimenta aproveita os dias de folga para viajar com a mulher, que fica embarcada em outra plataforma, na Bacia de Campos. Eles conciliam a escala de trabalho. No dia-a-dia da plataforma, Pimenta assiste filmes entre um atendimento e outro. Raramente há doenças e acidentes na embarcação, segundo ele. Quando um funcionário fica doente, é isolado e levado de volta ao continente para evitar contágio.

Salários compensam riscos

Salários maiores também compensam os inconvenientes do trabalho em plataformas marítimas. Petroleiros e embarcados terceirizados ganham em dobro, no mínimo. Um técnico de segurança do trabalho, que receberia normalmente R$ 2,5 mil em terra, tira cerca de R$ 7 mil por mês, com os adicionais garantidos. Um operador de produção com experiência, que costuma receber R$ 4 mil em terra, pode alcançar um salário de R$ 13 mil em plataformas, por causa dos riscos das tarefas em alto-mar.

Em meados de março, quando uma frente fria atravessou o Oceano Atlântico, trabalhadores da plataforma de Tupi enfrentaram ondas de quatro metros, segundo relatos de funcionários do navio. A inclinação da embarcação, que costuma oscilar de ângulos de 3 graus a 5 graus, chegou a 26 graus, derrubando os objetos que se encontravam soltos, efeito similar a leve terremoto. Para muitos, significou a hora de dobrar o joelho.

"Quando a oração é feita com amor, ela chega a Deus. Livra-nos de acidentes, incidentes, ameniza saudades, tranquiliza. Também ajuda no nosso relacionamento", afirma Alexandre Rangel, operador no convés do navio-plataforma.

A repórter viajou a convite da Petrobras

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