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Carro elétrico ameaça etanol, diz Ipea

Baixa aceitação de veículos flex em mercados do primeiro mundo afeta plano brasileiro de globalização do álcool combustível

Alexa Salomão, iG São Paulo |

Capaz de ser movido a etanol ou a gasolina, o carro bicombustível, que tanto sucesso faz no Brasil, não parece ser a primeira opção em mercados do primeiro mundo. Análise divulgada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) sinaliza que nos países desenvolvidos, em especial na Europa, firma-se a preferência pelos carros elétricos.

Getty Images
O modelo Tesla S: veículos movidos a eletricidade podem responder por 60% das vendas na Europa até 2050
A Agência Ambiental Europeia projeta que os veículos movidos a eletricidade vão corresponder a 60% das vendas no continente até 2050  (o que equivalerá a 25% da frota mundial). A Reunault-Nissan chega a estimar que em 2020 os veículos elétricos representarão 10% da frota do mundo. Os dados fazem parte do estudo "Etanol e Veículos Elétricos: via de mão única ou dupla?" da série de estudos “Radar: Tecnologia, Produção e Comércio Exterior”, produzidos regularmente pelo Ipea.

A análise, assinada por Fabiano Mezadre Pompermayer, reforça que ainda há uma indefinição sobre qual tecnologia ecologicamente correta vai prevalecer (baterias elétricas, motor a combustão com etanol, célula de hidrogênio), mas alerta para o fato de que o Brasil precisa estabelecer estratégias para se posicionar em um mercado dinâmico – ainda que essa estratégia inclua até descartar o uso do etanol se a tecnologia não conquistar o mercado em escala global.

“Se há interesse do Brasil em viabilizar o etanol como forma de reduzir a emissão de gases de efeito estufa no mundo, é necessário pensar em alternativas que se complementem às demais tecnologias, caso não seja possível tornar o etanol a opção dominante”, diz o texto. “Se o etanol não for adotado nos demais países, que não se incorra no erro de isolar o Brasil tecnologicamente, apenas para viabilizar sua utilização.”

Barreiras estruturais e geopolíticas

A avaliação técnica do Ipea leva em consideração tendências de mercado em países mais ricos, em especial os da Europa. Lá impera uma forte pressão contra a redução das emissões de gases de efeito estufa, o que acelera a adoção de tecnologias limpas. O setor de transporte responde sozinho por um quinto das emissões – e a maior parte delas vem dos carros usados em centros urbanos para o transporte individual do trabalho para casa. Cerca de 80% das viagens tem menos de 20 quilômetros. É essa realidade, segundo o estudo, que favorece os veículos impulsionados pela eletricidade.

“Os automóveis elétricos são mais eficientes que os movidos a motores de combustão interna no tráfego urbano, em especial quando em baixas velocidades e constantes acelerações e frenagens", diz o texto do Ipea. Como os carros elétricos são próprios para trajetos curtos dentro das cidades, começam a ser vistos como a alternativa mais viável. Estudos recentes estimam que a troca dos carros com motor a combustão pelos carros elétricos reduziriam em 50% as emissões no continente europeu.

No aspecto técnico, o etanol poderia cumprir praticamente o mesmo papel, com a vantagem adicional de ainda ter autonomia para viagens de longas distâncias. No entanto, a análise do Ipea identifica três barreiras contra o álcool combustível. A primeira delas está ligada à infraestrutura de transporte do combustível. Países que venha a adotar o etanol precisam investir numa nova rede de distribuição, uma vez que tanques e dutos em operação foram projetados para receber derivados de petróleo e podem ser corroídos pelo álcool combustível.

Competição com alimentos

Outro entrave é o temor de que os biocombustíveis possam tomar a área cultivada, bem como os estoques, de culturas utilizadas como alimento. Ainda que esse receio não se aplique à cana-de-açúcar, é perfeitamente factível em relação a grãos como milho e trigo, base da produção de etanol nos Estados Unidos e na Europa. A correlação entre cana e grãos, ainda que errônea, prejudica a imagem do etanol perante a opinião pública.

Agência Estado
Plantação de cana-de-açúcar em Goiás: etanol ainda tenta ganhar simpatia de consumidores de países desenvolvidos

No entanto, segundo o estudo do Ipea, o fator mais importante é geopolítico: os países desenvolvidos estão preocupados com a segurança energética. Não querem depender da importação de combustíveis verdes como dependem do abastecimento de derivados de petróleo. Hoje o Brasil concentra a produção de etanol à base de cana e nem mesmo uma eventual expansão da cultura e da indústria para países da África e América Central seria uma solução para o entrave. “Isso não reduziria a dependência externa dos principais países consumidores de combustíveis de automóveis, apenas reduzira a concentração da oferta”, diz o estudo.

Produtores discordam

O engenheiro Alfred Szwarc, consultor de emissões, tecnologias e sustentabilidade da União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica), entidade que reúne as principais usinas de açúcar e álcool do País, leu o estudo do Ipea, mas não acredita na supremacia dos veículos elétricos. “O carro elétrico é muito mais uma opção de algumas montadoras interessadas em criar uma imagem ‘verde’ do que um produto de massa”, diz Szwarc. “Costumo fazer uma analogia bem simples para definir seu estágio: há mais espuma do que cerveja neste copo.”

De acordo com o consultor, nesse segmento devem prevalecer as previsões mais conservadoras, feitas pelas próprias montadoras, que estimam para o carro elétrico uma fatia de apenas 2% do mercado de veículos em 2020. Para Szwarc, num cenário de curto prazo, ocorre justamente o contrário do que foi apontado pelo Ipea: os veículos movidos a etanol estão em uma posição mais confortável do que os elétricos porque têm ao seu lado outras nações de peso.

“Hoje o Estados Unidos também estão investindo no etanol e tudo indica que o país vai elevar o teor de álcool na sua mistura de gasolina de 10% para 15% ainda neste ano – e tudo o que os Estados Unidos fazem nessa área o Canadá replica”, diz Szwarc. “Se o Brasil vai ficar isolado no mercado de etanol, vai ser um isolamento acompanhado dos Estados Unidos, o maior mercado de combustíveis do mundo.”

Alternativas ao etanol

Mantida a preferência dos automóveis elétricos (não apenas nos países desenvolvidos, mas também em mercados com grande demanda, como China e Índia), o estudo do Ipea sugere duas ações específicas em defesa do álcool. Uma delas seria trabalhar o etanol como combustível para o transporte de cargas, em caminhões ou mesmo trens, e para o abastecimento de ônibus, em especial o que fazem o transporte público urbano. Segundo o estudo, esses veículos têm alto consumo energético por quilômetro e não podem ser abastecidos com baterias elétricas.

Outra opção é defender o etanol como combustível para os modelos de automóveis híbridos de grande porte. “Os modelos híbridos já têm o apelo de agredirem menos o meio ambiente”, avalia o pesquisador do Ipea. “Se os motores de combustão interna neles utilizados forem movidos a etanol, eles teriam virtualmente emissões zero de CO2, equiparando-se aos veículos puramente elétricos.”

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