Para especialistas, montadoras chinesas devem seguir exemplo de japoneses e coreanos se quiserem ter sucesso no mercado automotivo

Os automóveis chineses à venda no Brasil são famosos pelo preço baixo. Alguns modelos chegam a custar até 30% a menos do que seus concorrentes, um atrativo e tanto num mercado dominado pelos modelos populares. A ótima relação custo-benefício é explicada por alguns motivos: baixo investimento em pesquisa e desenvolvimento, mão-de-obra mais barata e acabamento de qualidade inferior na hora de fabricar o carro. Ao invés de usar madeira no painel, por exemplo, as empresas optam por um plástico que à distância lembra o material. No mercado brasileiro desde 2007, os veículos importados da China têm a partir de agora como desafio provar que, além de baratos, podem ser confiáveis e de boa qualidade. Não é um trabalho fácil. No início da década de 1960, os carros feitos no Japão passaram pela mesma dificuldade. Demoraram cerca de 30 anos para provar que eram bons e só assumiram o primeiro lugar entre as fabricantes em 2006. Os coreanos passaram por algo parecido em meados da década de 1990. Na opinião de especialistas, os chineses conseguirão repetir o feito. “Em até 20 anos todo mundo terá um carro feito na China”, disse ao iG Stephan Keese, diretor da consultoria Roland Berger, especializada no mercado automotivo. “Eles estão aprendendo a fazer veículos de qualidade”.

As montadoras chinesas chegaram de mansinho ao mercado brasileiro. Os primeiros modelos da Effa, Chana e da Chery desembarcaram no País em 2007. Dois anos depois, seis fabricantes já vendem carros por aqui. O leque de produtos inclui modelos compactos e utilitários para transportar passageiros e carga. Por problemas na importação, na certificação, na rede de distribuição ou na qualidade dos carros, as vendas nunca dispararam. De acordo com a Associação Brasileira das Empresas Importadoras de Veículos Automotores (Abeiva), nos seis primeiros meses de 2010 as fabricantes chinesas faturaram 5,8 mil unidades – ou 0,32% do total de vendas do mercado. É pouco, mas esse número deve aumentar. As fabricantes chinesas se preparam para ganhar mais mercado no ano que vem. Oito delas já confirmaram presença no Salão do Automóvel, que acontece em São Paulo entre os dias 27 de outubro e 7 de novembro. Juntas, representam mais de 30% das montadoras que atuam no Brasil. A JAC Motors vai debutar no País em 2011. Em março, a empresa vai começar a trazer dois modelos, o J3 e o J6. Seus planos? “Vender três mil carros por mês”, afirmou o empresário Sérgio Habbib, que já foi presidente da Citroën no Brasil, é representante da Jaguar e da Aston Martin no País e agora vai trazer a JAC Motors. “A estratégia é oferecer mais opcionais, como ar-condicionado e freio ABS, por um preço menor”.

A ênfase na relação custo-benefício dos carros é a estratégia de negócio adotada por todas as fabricantes chinesas que já atuam ou que estão chegando agora ao mercado brasileiro. É a melhor e mais rápida maneira de atrair clientes para produtos cercados de desconfiança. “Se o carro chinês custasse o mesmo que seus concorrentes, o consumidor compraria um modelo europeu”, disse David Wong, consultor da Kaiser Associates. A estratégia do preço baixo, no entanto, não vai garantir o sucesso das montadoras chinesas no Brasil. De acordo com os especialistas ouvidos pelo iG , a qualidade dos carros ainda não atende aos padrões globais de qualidade e de segurança. As próprias fabricantes reconhecem que seus carros têm problemas. “O acabamento não é a mesma coisa“, afirmou Floriano Gardelli Filho, gerente comercial da Districar, importadora oficial da Chana e que também vai trazer a Faw Haima para o Brasil. “É uma coisa (preço) em detrimento da outra (acabamento)”. Alguns dos problemas só são percebidos pelos apaixonados por carros ou por quem dá muita atenção aos detalhes. É o caso da pintura que não foi bem acabada, do friso cuja injeção de plástico não ficou perfeita e do barulho interno. “Comparado com General Motors e Volkswagen, a diferença é muito grande”, afirmou Keese. “Mas isso não quer dizer que ele vai desmontar no meio da rua”.

O carro chinês do advogado Jorgino Pazin, de 57 anos, não se esfacelou no meio da rua. Mas já passou tanto tempo parado na oficina por causa de problemas mecânicos que está à venda. Em fevereiro do ano passado, Pazin passava pela Avenida dos Bandeirantes, uma das mais movimentadas da capital paulista, quando avistou o showroom da Effa Motors. À procura de um carro novo e com pouco dinheiro no bolso, o M100 parecia ser a opção perfeita. “O que chamou a atenção foi o preço”, disse Pazin. Para comprar o carro, o advogado foi contra a opinião dos familiares, principalmente da mulher, que sempre teve um pé atrás em relação às marcas chineses. Não deu outra: o automóvel logo começou a apresentar uma série de problemas. A haste do câmbio saiu na sua mão, os farois de neblina pararam de funcionar e os mecânicos não conseguem dar jeito no alinhamento dos pneus. Com menos de 20 mil quilômetros, eles ficaram tão desgastados em um dos lados que precisaram ser trocados. Cansado, o advogado tenta, sem sucesso, vender o modelo há dois meses. “Você chega nas concessionárias e ninguém aceita o carro chinês na troca”, afirmou o advogado. “Estou perdendo muito dinheiro com ele”. O resultado da experiência? Pazin não compraria um modelo importado da China novamente.

O M100, da Effa Motors: um dos mais baratos do Brasil e problemas para acertar o alinhamento das rodas
Divulgação
O M100, da Effa Motors: um dos mais baratos do Brasil e problemas para acertar o alinhamento das rodas
Problemas como os enfrentados pelo advogado são um tiro no pé das montadoras chinesas, que já são vistas com restrições pelos consumidores. Para tentar evitar que os erros se repitam, elas estão investindo no pós-venda. Uma das estratégias é criar uma rede de concessionárias e oficinas que evitem que peças e partes dos automóveis faltem no mercado. A Effa Motors, por exemplo, espera inaugurar 60 concessionárias com oficinas em todo o País. Outra estratégia é investir no Brasil. Há alguns meses circula a informação de que a Chery vai construir uma fábrica no País. De acordo com uma reportagem publicada pelo jornal o Estado de S. Paulo, a montadora chinesa já teria até escolhido o local para a obra: Jacareí, a 82 quilômetros de São Paulo. Segundo o jornal, a montadora investiria US$ 700 milhões, cerca de R$ 1,2 bilhão, para construir uma fábrica com capacidade para produzir entre 150 mil a 170 mil unidades por ano. Procurado pelo iG , o grupo JLJ, responsável pela importação da marca, não confirma a informação e diz que as negociações estão sendo tocadas diretamente pela matriz da empresa na China. Se a informação se concretizar, a Chery será a primeira montadora chinesa a se instalar no País.

Essa não é a primeira vez que produtos importados da China são colocados em xeque pelo consumidor brasileiro. No início da década de 1990, o País começou a ser invadido pelos produtos chineses. Brinquedos, utensílios domésticos, roupas e outras bugigangas vendidas em lojas populares combinavam design copiado das grandes marcas e preço baixo. Com um detalhe: na maioria das vezes, a qualidade era muito ruim. O termo “Made in China” entrou para o vocabulário do brasileiro como sinônimo de produto inferior. Aos poucos, os chineses mudaram essa imagem com a fabricação de objetos com tecnologia e design de ponta, como celulares, notebooks e, mais recentemente, iPads. Vinte anos se passaram e a discussão em torno dos produtos “Made in China” está de volta. Desta vez, o alvo são os veículos das montadoras chinesas. A primeira fábrica de carros da China começou a funcionar na década de 1950. Apesar da população numerosa, a produção sempre foi incipiente. O país ultrapassou a marca de um milhão de veículos pela primeira vez em 1992. Foram necessários mais oito anos para dobrar esse número.

De lá para cá, o crescimento tem sido exponencial. O mercado de automóveis chinês fechou o ano de 2009 no topo do ranking dos países produtores e consumidores. Mais de dez milhões de veículos saíram das linhas de montagens chinesas – quase cinco vezes mais do que o produzido nos Estados Unidos. Alguns fatores explicam os números tão expressivos. A China é o país com o maior número de montadoras do mundo. Até pouco tempo atrás eram 120 fabricantes de carros, ônibus e caminhões, dez vezes mais do que o número de fábricas instaladas no Brasil. Esse número caiu para 80 nos últimos anos, depois de uma série de fusões e aquisições. A China também é o país que mais compra veículos. Em 2009 foram 13,7 milhões de automóveis, quase 50% mais do que no ano anterior. O país que mais cresce no mundo deixou de lado as bicicletas como meio de transporte para adotar os automóveis.

O Prius, híbrido da Toyota: as montadoras japonesas sofreram com os mesmo problemas das chinesas
Getty Images
O Prius, híbrido da Toyota: as montadoras japonesas sofreram com os mesmo problemas das chinesas
Para tentar tirar o atraso, algumas montadoras chinesas apostam suas fichas na engenharia reversa para desenvolver seus modelos. Por causa disso, é comum encontrar automóveis feitos na China que muitas vezes se parecem com modelos europeus, americanos e japoneses. Um exemplo: o Liffan 320, que será apresentado durante o Salão do Automóvel, ficou conhecido como o Mini Cooper chinês – referência ao popular modelo fabricado na Inglaterra pela BMW. A montadora chinesa BYD Auto é uma das empresas que mais trabalham com engenharia reversa. Alguns anos atrás, o presidente da companhia, Wang Chuanfu, estacionou sua Mercedes Benz S300 na linha de produção e ordenou que desmontassem o carro. Depois de alguma relutância, os funcionários obedeceram à ordem. A ideia era entender como funciona o sistema eletrônico de controle do luxuoso modelo e copiá-lo nos lançamentos da empresa. Deu certo. Dizem que, na China, Wang se orgulha de estar à frente da montadora que copia modelos europeus com mais perfeição. Apesar de ser criticado por algumas pessoas, o modelo de engenharia reversa reduz muito o tempo gasto em desenvolvimento do carro e ajuda a economizar dezenas de milhões de dólares em pesquisas.

O caminho cheio de percalços percorrido pelas montadoras asiáticas não é uma novidade na indústria automotiva. No início da década de 1960, as fabricantes japonesas começaram a desembarcar no mercado americano. No começo, os modelos eram motivo de chacota dos amantes dos automóveis. Fabricantes como Honda e Toyota só começaram a fazer sucesso no mercado americano dez anos depois, com a primeira grande crise do petróleo. Com a alta do preço da gasolina, as pessoas começaram a ver com bons olhos os modelos compactos e econômicos dos japoneses. O crescimento chegou ao auge em 2006, quando a Toyota deixou a General Motors para trás e se transformou na maior montadora do mundo. No início da década de 90 a mesma coisa aconteceu com as montadoras coreanas: chegaram cercadas de desconfiança e levaram metade do tempo das japonesas para mostrar que eram capazes de produzir bons carros. Hoje, a Hyundai ganha um prêmio de qualidade atrás do outro. Muitos apostam que o mesmo vai acontecer em alguns anos com os carros chineses. “Se eles continuarem num ritmo acelerado, vão demorar 15 anos para fazer o que os coreanos levaram 30 anos para fazer”, disse o consultor da indústria automotiva José Roberto Ferro.

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