Governo chileno decide fechar jornal "La Nación"

Publicação fundada em 1917, que atualmente funcionava apenas na versão digital empregava 117 pessoas, fechará as portas em um prazo de sete meses a três anos

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Presidente do La Nación, Daniel Platovsky, deixa a sede do jornal após conselho decidir pela liquidação

Os acionistas do jornal chileno "La Nación", com apoio dos dirigentes do Estado - que possuem 69% de sua propriedade - decidiram nesta segunda-feira fechar e liquidar os bens do veículo de comunicação histórico, que desde 2010 só funcionava em sua versão digital. A publicação, fundada em 1917 e que atualmente empregava 117 pessoas, fechará as portas em um prazo de sete meses a três anos.

O governo defende que não é conveniente ter um jornal controlado pelo Executivo e que o mesmo era deficitário, enquanto a oposição e a Associação de Jornalistas opinam que o seu desaparecimento vai aumentar o duopólio existente na imprensa chilena. Os governantes votaram a favor do fechamento em uma reunião com acionistas realizada hoje.

Os sindicatos e os acionistas minoritários se manifestaram contra o fechamento do jornal. Eles são donos de 31% das ações, e estão agrupados, em sua maioria, na Colliguay S.A.

Os donos da Colliguay adiantaram que vão processar o Estado por considerar que não há razões econômicas que justifiquem o fechamento da sociedade, já que ela tinha lucro de 2 bilhões de pesos anuais (R$ 8 milhões). Algumas horas depois, os sindicatos apresentaram um recurso de proteção à Corte de Apelações de Santiago horas depois a fim de reverter essa decisão.

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Homem com uma edição antiga do La Nación em frente à sede do jornal, em Santiago

Antes de chegar ao palácio presidencial, o presidente Sebastián Piñera questionou a orientação do jornal por ter se transformado, durante os 20 anos em que a coalizão de centro-esquerda esteve no poder (1990-2010), "em uma fábrica de propaganda dos governos". Em seus primeiros meses de mandato, Piñera garantiu que seu governo iria optar pela reforma ou a venda da publicação. Finalmente, em novembro de 2010, o diretório decidiu, por razões econômicas, que o jornal deixaria de circular em versão impressa e seria publicado somente na internet.

Embora nos últimos anos sua tiragem fosse muito pequena, o desaparecimento do jornal das bancas consolidou a posição das duas principais empresas editoras de jornais, a El Mercurio - que publica um jornal homônimo - e a Copesa - que publica o jornal "La Tercera", e concentram 90% do mercado. "Pensamos que o melhor é que os governos não tenham meios de comunicação em que possam influenciar suas linhas editoriais e informativas", defendeu hoje o porta-voz do Executivo, Andrés Chadwick.

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Manifestante leva cartaz a favor da continuidade do jornal La Nación

O presidente da Associação de Jornalistas e ex-diretor do "La Nación", Marcelo Castillo, afirmou à rádio "Cooperativa" que era "a evidência e a constatação de que se podia fazer outro jornalismo diário" e lamentou que "estamos num país em que não há jornais de oposição, algo que ocorre apenas em dois países da América Latina". A publicação era editada pela Empresa Jornalística La Nación S. A., que também publica o "Diário Oficial da República do Chile", e era a principal fonte de receita da companhia, que agora vai depender de recursos do Ministério do Interior.

Ainda não foi determinado o futuro do arquivo histórico do "La Nación", fundado em 1917 pelo jornalista, advogado e político Eliodoro Yáñez, e com sua sede em um edifício em frente ao Palácio de la Moneda, sede do governo. "Esse arquivo, no melhor dos casos, será privatizado.

O mais provável é que algum dos grandes consórcios jornalísticos o compre e passe a cobrar por seu acesso", afirmou Marcelo Castillo. No último domingo, jornalistas e representantes dos sindicatos se reuniram em um ato cultural em Santiago para se manifestar contra o possível fechamento do jornal, que finalmente foi decretado nesta segunda-feira. 


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