Para professor da Unicamp, empresários brasileiros ainda encontram muitas formas de defender seu mercado do "ataque" das inovações

Têm sido frequentes as declarações de líderes empresariais e autoridades governamentais de que uma razão forte para o baixo investimento das empresas brasileiras em Pesquisa & Desenvolvimento reside na ausência de uma "cultura de inovação". Como é sabido, o esforço do País em P&D é pequeno se comparado ao de nações mais desenvolvidas.

O gasto total em P&D no Brasil é de 1,1% do PIB, contra 2,3% do PIB para o conjunto dos países da OCDE. E a diferença mais importante está nos gastos em P&D das empresas, que somam 1,58% do PIB nos países da OCDE e não ultrapassam 0,54% do PIB no Brasil. No estado de São Paulo, que se encontra na posição mais avançada, o dispêndio das empresas em P&D alcança 0,94% do PIB estadual, de acordo com os indicadores da Fapesp apresentados na Conferência Estadual Paulista de CT&I, em abril deste ano. Ainda assim, nosso melhor resultado ainda está significativamente abaixo da média da OCDE.

Atribuir esse quadro à precariedade da cultura de inovação do empresariado brasileiro, como se a solução estivesse em conscientizá-lo da necessidade de inovar, desvia a atenção do fator que cumpre papel verdadeiramente importante no processo de inovação: a concorrência. As empresas inovam quando são obrigadas a fazê-lo para sobreviver no mercado. A competição é o mecanismo que impõe a cada empresário a necessidade de reagir à iniciativa do inovador.

Se alguém introduz uma inovação tecnológica qualquer, um processo ou produto novo, todos os que atuam naquele mercado precisam responder à altura, adotando, e eventualmente aperfeiçoando, a inovação. É preciso compreender também que é essa resposta que gera efeitos econômicos relevantes, muito mais do que a ação daquele que primeiro inovou. Significa dizer que a difusão da inovação, cujo ritmo depende das condições de concorrência, é o fenômeno a ser estimulado.

Quando se constata que o engajamento das empresas em atividades de P&D no Brasil fica muito aquém do observado em outros países, a primeira pergunta que deveria ocorrer é: quais são as barreiras que segmentam e isolam de tal forma os mercados de modo que a ação do inovador - e ela está sempre presente, na maior parte das vezes originada fora do País - não exija uma pronta resposta de seus competidores?

O fato é que, no Brasil, o empresário ainda encontra muitas maneiras de defender seu mercado do "ataque" das inovações. Por que o empreendedor brasileiro deveria se esforçar para inovar se nas condições em que operam nossos mercados ele de fato não precisa inovar? Quando a concorrência se tornar mais acirrada, os consumidores mais exigentes e as autoridades regulatórias mais rígidas, ficaremos todos surpresos com a velocidade com que irá se estabelecer uma "cultura de inovação" no País.

É o caso de se perguntar por que esse mecanismo da competição, interna e externa, funciona tão mal no Brasil. E o que poderia ser feito para que operasse de forma mais efetiva, como se observa em outros países. E ainda, se alguns passos importantes nessa direção já não estão sendo dados. Mas isso já é assunto para outra conversa.

Sérgio Robles Reis de Queiroz é livre docente e professor associado do Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências da Unicamp e coordenador adjunto de pesquisa para inovação da Fapesp.

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