Com um chapéu enterrado na cabeça, sob a chuva, numa tarde de outono, com um cravo na lapela, o velho redator foi ao cemitério. A máquina de escrever morreu. Não havia lágrimas no enterro porque lá não estavam os pranteadores, ocupados com seus modernos tablets, seus práticos mobiles, seus funcionais gadgets. Mas também não havia defunto. A despeito do som das trombetas, a velha máquina não bateu as botas. Que se cancelem os obituários.
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O burburinho surgiu quando o jornal indiano Business Standard noticiou no fim de abril o fechamento da Godrej & Boyce, a última fabricante de máquinas de datilografia do mundo, de acordo com o periódico. Rapidamente atestou-se o fim de uma era, em um tempo em que as eras têm duração cada vez menor.
Mas as máquinas estão vivas – e a Swintec segura seu estandarte. “Temos recebido muitas ligações desde que a notícia apareceu em TVs, jornais, rádio e internet. Na maioria delas, as pessoas dão um suspiro de alívio ao saber que ainda existimos e que eles ainda podem encontrar nossas máquinas e peças de reposição”, disse ao iG Edward Michael, gerente geral da companhia, agora creditada como a última fabricantes de máquinas de escrever do mundo.
A Swintec, de Moonachie, no estado norte-americano de Nova Jersey, não vive apenas dessas máquinas. Seu portfólio inclui, entre outros produtos, caixas registradoras e calculadoras eletrônicas. Mas, com a onda recente de exposição, as máquinas de datilografia se tornaram um bom chamariz.
São bem sortidos os destinos ainda possíveis para os modelos da Swintec, diz Michael. “Muitos escritórios, de todos os tipos, ainda têm necessidades que podem ser atendidas pelas máquinas eletrônicas (o tipo feito pela empresa)”, afirma ele. “Há formulários, cartas e memorandos que têm um desenho próprio para as máquinas. Muitos pequenos negócios preferem a máquina de escrever para a rotina de fechamento de caixa e envio de correspondência em vez do computador – e essas empresas são mais numerosas do que você imagina”. Saliente-se que o público não se limita a esse nicho: empresas de construção, funerárias e igrejas, mas também aposentados e crianças em idade escolar têm sido fiéis clientes da Swintec. “A lista é interminável”, diz o gerente.
Na lista estão também presidiários. A empresa tem contrato de fornecimento de máquinas de escrever para penitenciárias de 43 estados dos EUA. Para as correspondências dos internos, elas adotam um modelo transparente, que evita o contrabando de drogas e armas para o lado de dentro dos muros.
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Igual computador, mas sem internet
O holofote pode estar no momento voltado às máquinas de datilografia da Swintec, mas a empresa não descuida de outro de seus xodós. O processador de palavras faz “virtualmente a mesma coisa que um computador, exceto dar acesso à internet. Ele permite checar a grafia de uma palavra enquanto se escreve e armazenar arquivos para serem editados mais tarde”, diz Michael. “O usuário não ficará ‘navegando na rede’ ou ‘recebendo e enviado e-mails’. Será um trabalho produtivo”.
A companhia não revela seu faturamento. As vendas – que incluem o Brasil – são menores que as de dez anos atrás, mas têm crescido nos últimos dois anos. Isso não permite fazer um novo vaticínio da morte das máquinas de escrever – e, com isso, o ponto final precoce de mais uma era. “É muito difícil prever o que acontecerá em dez ou 25 anos”, filosofa Michael. “Quem sabe que mudanças estão por vir com as mudanças da tecnologia?”
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