Pesquisador desenvolveu, no quintal de casa, a Uberabinha, resistente a pragas e com o dobro da produtividade de outras variedades

Cruzar espécies diferentes é sempre um desafio e o resultado, quase um golpe de sorte. A pimenta Uberabinha, surgida da polinização cruzada das pimentas malagueta e bode-roxa, virou a sensação de Minas Gerais. Resistente às pragas, a nova espécie não exige agrotóxicos, tem um sabor especial e ainda tem produtividade quase duas vezes maior que as de espécies convencionais.

Leonam Moreira, técnico de agricultura e zootecnia do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG), foi o responsável pela descoberta. Ainda em 2006, durante sua iniciação cientifica, fez testes de polinização cruzada com diferentes espécies de pimentas em seu quintal e notou que uma era diferente. Ao final de 2008 concluiu que a Uberabinha poderia ser usada em larga escala e com amplos benefícios.

Roberto Zito, engenheiro agrônomo, pesquisador da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), revela que a possibilidade de um resultado positivo ao cruzar espécies distintas é algo relativo. “Não dá para saber se o cruzamento de raças diferentes dará certo. É um caso de sorte. Há uma probabilidade de surgir uma nova espécie, mas não é muito grande”, diz.

Descoberta valiosa

O novo fruto tem coloração e formato azeitonado, é rico em biomassa e possui um ardor suave. Na plantação, a produtividade tem impressionado os técnicos: é possível obter quatro quilos do fruto por pimenteira - nas outras variedades, a média é de dois quilos. Além disso, seu período de entressafra é curto, entre os meses de junho e julho.

Graças à proteção contra o ataque de pragas, a vida útil da pimenteira de Uberaba é de aproximadamente três anos, uma vantagem sobre as outras que tem sua periodicidade diminuída pela baixa resistência biológica.

O técnico mineiro foi o primeiro empreendedor individual da cidade. Desde 2009, ele cria oportunidades e beneficia famílias da região por meio do Projeto Uberabinha, em que desenvolve uma parceria com os pequenos produtores da agricultura familiar, ensinando técnicas para o plantio e processamento de condimentos com a nova pimenta.

De Uberaba para o mundo

Moreira comercializa molhos vermelhos e verdes, além das pimentas em conserva e com tempero de ervas desidratadas. São produzidos 50 frascos dos molhos, de 150 ml, com cinco quilos do fruto. Atualmente, o comércio é destinado exclusivamente ao mercado mineiro, em um processo ainda artesanal. “A produção dos condimentos não é feita em larga escala, mas quero viabilizar uma linha de crédito para desenvolver o empreendimento”, diz Moreira.

O sucesso dos produtos abre perspectivas que impulsionam o comércio para outros Estados. “Já enviei a pimenta in natura e os envasados para o Mercado Municipal de São Paulo e houve boa aceitação”, afirma Moreira. O aumento da demanda fará com que a plantação em Uberaba alcance quatro hectares no próximo semestre.

Segundo o técnico, diversas empresas já mostraram interesse e há grande possibilidade de exportar a pimenta. “Tenho propostas concretas de exportação para os Estados Unidos e, por meio de contatos com a Seara, venderei também para o Líbano”, diz.

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