Lojas de 1,99 viram redes de magazines populares

Empresários do ramo estudam agora como vender pela internet. Concorrência externa não assusta

Dubes Sônego, iG São Paulo |

Dubes Sônego
Os irmãos Jandovy Lui Junior (à esquerda) e Joacy Sant’Anna Lui, proprietários da Aki 1,99.
A Aki 1,99 Utilidades e Presentes, como o nome sugere, é o que se convencionou chamar no Brasil de loja de R$ 1,99, estabelecimentos onde centenas de itens são vendidos pelo mesmo preço. Apesar disso, um dos carros chefe deste pequeno comércio, localizado no coração do bairro paulistano de Pinheiros, são grandes caixas de plástico, usadas para guardar todo tipo de coisa, e que chegam a custar quase R$ 100 cada. Pode parecer contraditório, mas os irmãos Joacy Sant’Anna Lui e Jandovy Lui Junior, proprietários do negócio, longe de serem exceção, estão em linha como uma das mais fortes tendências do setor. “Ser uma loja de 1,99 hoje significa vender mais barato que as convencionais”, diz Joacy.

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Comuns nos Estados Unidos desde meados do século passado, as de lojas de 1,99 surgiram no Brasil somente na década de 1990, na esteira do Plano Real, que acabou com uma inflação que chegava a quase três dígitos ao mês. Até então, o cenário econômico brasileiro inviabilizava qualquer modelo de negócio baseado em mercadorias com preço final fixo. A novidade, em um país acostumado a remarcações diárias, causou sensação.

As primeiras lojas surgiram no Sul do Brasil e vendiam todo tipo de quinquilharia, em especial utilidades domésticas, artigos de decoração e brinquedos de plástico e vidro, importados da China. Também havia ferramentas, fitas adesivas e outros materiais de escritório. A qualidade, de modo geral, era baixíssima. Mas o preço era imbatível. “A demanda inicial foi tanta que se formavam filas. Não se dava conta de repor os estoques”, diz o argentino Eduardo Todres, que há doze anos criou o que é hoje a maior feira do setor no país e virou referência para informações sobre o tema.

De lá para cá, a atividade não parou de crescer, impulsionada pelo aumento do emprego e da renda no país. No ano passado, levantamento feito pela empresa de Todres estimou o mercado em algo entre R$ 8 bilhões e R$ 9 bilhões. A expectativa de crescimento para 2011 era de 5% sobre o montante, o que significa que, se mantida a média neste ano, o conjunto de lojas de 1,99 no Brasil poderá faturar mais de R$ 10 bilhões.

Nova cara

As características do mercado, porém, vêm mudando. Mais que um teto, o preço de R$ 1,99 virou um piso. Foi por isso que o próprio Todres mudou o nome de sua feira, de 1,99 Brasil para Feira 1 a 99 Brasil. “Antigamente, o lojista aceitava trabalhar com margem de lucro bruto de 30% a 35%”, conta. “Hoje, entendeu que precisa de mais e não paga acima de R$ 1,20 por mercadoria que vai vender a R$ 1,99” - as margens líquidas, por causa de encalhes, são bem menores.

Com os altos e baixos do câmbio, com picos de até R$ 4 na última década, tornou-se quase impossível manter a fórmula original. “No início, era tudo por R$ 1,99, porque o dólar custava R$ 1. Depois que cambio mudou, não deu para continuar”, conta Luiz Cláudio Santarém Neves, diretor da Promoções Tem Tudo, há 13 anos no ramo. “Hoje, os preços são variáveis, mas são preços populares. Ainda vendemos muito mais barato que lojas de shoppings”.

A maior elasticidade dos preços, porém, abriu espaço para produtos a compra de melhor qualidade, para a entrada de fornecedores brasileiros no mercado e para investimentos em gestão. Hoje, nas estimativas de Todres, 30% de uma lista de mais de 12 mil itens vendidos pelas lojas de 1,99 são nacionais e já houve momentos em que o percentual chegou a 50%. A maior parte dos estabelecimentos trabalha com sistemas de gestão de estoque e atendimento informatizados, alguns desenvolvidos sob medida.

Mais que isso. Como reflexo, o mercado agregou novos públicos e ganhou corpo. Alguns exemplos de redes que vem sendo bem sucedidos, aponta Todres, são as lojas Amigão, no Rio de Janeiro; Magazine Diniz, em Minas Gerais; Lojas Teddy, no interior de SP; e Econômica, na capital. “Muitas famílias detêm três, quatro, cinco pontos. Algumas tinham mais de dez lojas e decidiram reduzir número de pontos de venda e aumentar área, para 500 m2, porque muitas unidades dificultam a administração”, diz.

Dono de seis lojas nas regiões Sul e central do Rio de Janeiro, e de uma em Niterói, Neves, da Promoções Tem Tudo, é outro exemplo. No ano passado, o empresário diz que registrou alta 6% nas vendas, percentual que considerou abaixo do ideal. Mas vêm investindo para aumentar a lucratividade ganhando escala. Em 2011, inaugurou um centro de distribuição e, neste, tem planos de abrir duas lojas.

Vender pela internet também é uma intenção, que Neves agora estuda concretizar. O primeiro passo foram sorteios para cadastrar e-mails e informações de clientes. Para este ano, o empresário quer ao menos manter contato com os cadastrados, enviando parabéns na data de aniversário e promoções exclusivas para que visitem eventualmente as lojas.

É nada perto do que fazem grandes redes americanas do ramo, como a Dollar General, dona de mais de 9,8 mil lojas e faturamento de mais de US$ 13 bilhões, que já vendem pela internet, em site bem estruturado. Ou as gigantes do varejo supermercadista Brasileiro, encabeçado por nomes tradicionais como Pão de Açúcar e Carrefour. Mas o vigor do mercado brasileiro de 1,99 - e principalmente as perspectivas que se abrem a cada aumento do salário mínimo -, tem sido suficiente para chamar a atenção ao menos de algumas redes estrangeiras, como a japonesa Daiso-Sangyo, que há poucas semanas divulgou planos de abrir sua primeira loja em São Paulo.

Ainda que os japoneses cheguem com o peso de 2,5 mil lojas em seu país e outras 550 em 24 outros mercados ao redor do mundo, Jandovy, da pequena Aki 1,99, de Pinheiros, não vê motivo para preocupação. “Acho pouco provável que vinguem", diz o empresário. "Lá fora, as lojas de preço único são comuns. Aqui, isso virou outro tipo de negócio”.

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