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Ex-designer da Embraer agora expõe móveis em Milão

Após sete anos na indústria de aviões, Marcelo Teixeira mudou de ramo para brilhar no mais importante evento de design do mundo

Gustavo Poloni, iG São Paulo |

Aos 35 anos, Marcelo Teixeira nunca sai de casa sem seu caderno de anotações. É nele que registra compromissos, anota referências, rascunha os primeiros traços de seus móveis e explica com desenhos suas criações. Não foi diferente durante um café numa tarde de terça-feira no final de março. Ao ser perguntado sobre a aparência da recém-criada Aurélia, luminária inspirada no ritmo nordestino do maracatu e que lembra uma água-viva, sacou o caderno da mochila e começou a rabiscá-lo. Nesse aspecto, Teixeira é parecido com outros designers. Sua diferença está na formação. Bacharel em arquitetura pela Universidade do Vale do Paraíba, no interior de São Paulo, foi designer de aviões da Embraer durante sete anos antes de criar objetos de decoração. “É preciso ter ideias mirabolantes para trabalhar num ambiente tão limitado”, diz Teixeira.

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O designer Marcelo Teixeira: alguns dos grandes sucessos da Embraer, como o Legacy, o Phenom e o Lineage, passaram por sua prancheta
O resultado da luminária Aurélia poderá ser visto no Salão Internacional do Móvel, o mais importante evento de design do mundo, que será realizado entre esta quarta-feira e o próximo dia 20 em Milão, na Itália. Teixeira é um dos designers do A Lot Of Design Group, estúdio brasileiro convidado pela curadora do evento, Marva Griffin, a expor seus produtos no Salão Satélite – espaço dedicado ao surgimento de jovens talentos e de onde já saíram nomes como Matali Crasset, Xavier Lust e Satyendra Pakhalé. “Sou do interior, sou caipira”, afirma Teixeira, sem disfarçar o sorriso no canto do rosto. “Ser escolhido entre milhões de designers de todo o mundo pela qualidade do meu trabalho e por pensar em tendências é um sonho”.

Filho mais velho de uma família mineira que migrou há 40 anos para São José dos Campos, Teixeira sempre foi ligado ao mundo da criação. O avô, que sofreu um infarto fulminante no momento em que a família preparava o caminhão de mudanças que os levaria para São Paulo, é lembrado como um escultor de mão cheia. Já o pai, funcionário da fabricante de armas Imbel em Itajubá, no interior de Minas, foi contratado pela Embraer para desenvolver o ferramental usado na produção de aviões, um trabalho quase artesanal. A influência fez com que Teixeira trilhasse um caminho parecido, mas na arquitetura. Em estágios, chegou a desenhar casas de 1 mil metros quadrados. Mas logo percebeu que seu negócio era mesmo o design de interiores.

Embraer no sangue

A chance de trabalhar na Embraer surgiu no último ano da faculdade, quando Teixeira pediu para visitar o departamento de design da empresa. Não era a primeira vez que fazia algo parecido, mas desta vez tinha um gosto especial: a fabricante de aviões sempre fez parte da vida familiar. Ele se recorda de como ficava encantado quando o pai levava o desenho de um novo trem de pouso de avião para casa. A visita deixou o jovem com uma boa impressão – e o mesmo aconteceu com o responsável pela área. Poucos meses depois, o telefone da casa da família Teixeira tocou. Do outro lado da linha, uma proposta para participar de um processo de seleção na fabricante de aviões. “Era um teste difícil, mas o conhecimento que eu tinha da empresa me ajudou a entrar”, diz o designer. Em meados de 1999, começou como estagiário na Embraer.

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A luminária Heloá recebeu esse nome como homenagem à filha mais velha do designer
O início não foi auspicioso. Seu trabalho limitava-se a revisar os produtos desenhados e projetados em escritórios de design fora do País e adaptar a ergonomia dos assentos dos aviões que seriam entregues a mercados como o Japão, onde a população é mais baixa do que a média. Quando teve a primeira chance para mostrar serviço, a coisa não saiu como o esperado. A tarefa de Teixeira era desenhar a cozinha de um avião. Para sair do traço careta, reto, decidiu fazer uma em forma de “s”. Na tela do computador ficou lindo. Mas quando foi colocar dentro do avião foi um desastre: a cozinha não cabia na fuselagem. “Quando você faz qualquer coisa num avião, tem de pensar como ela vai caber no ambiente, como vai ficar presa no piso”, diz ele. “É diferente de ter uma sala de 100 metros quadrados para preencher”.

A ascensão de Teixeira na Embraer aconteceu junto com a recuperação financeira da empresa. Criada no final da década de 1960 pelo governo com o objetivo de estimular uma indústria aeronáutica no País, a fabricante de aviões logo ganhou fama no mundo com a venda de modelos como o Bandeirante, o Xingu e o Brasília. Os negócios caminhavam bem até o final da década de 1980, quando a companhia foi atingida por uma grave crise financeira mundial, que afetou a economia brasileira - e quase levou a Embraer à bancarrota. Para salvar a empresa, o governo resolveu colocá-la no programa de privatização, que incluiu entre outras coisas a estatal de telefonia. Logo depois ela abriria o capital e exploraria novos mercados. Era o início de um ciclo de prosperidade.

Foi em meio a essas mudanças que Teixeira assumiu o departamento de design da Embraer. Com quatro funcionários sob seu comando, resolveu mexer nos processos de criação da empresa. Passou a ligar áreas que nunca se falavam, como engenharia, departamento de vendas e até comissários de bordo. Tudo com um objetivo: criar um produto melhor. “Durante muito tempo fizemos cozinhas sem perguntar para os comissários de bordo se elas funcionavam bem”, diz ele. “Não acredito na cultura do ‘eu acho’”. A partir de 2001, começou a trabalhar com aviação executiva. Viajou o mundo em busca de empresas de design que ajudassem em novos projetos. Alguns dos grandes sucessos da fabricante, como o Legacy, o Phenom e o Lineage, passaram por sua prancheta. “Desenhei o avião do Rubens Barrichello e do David Coulthard”, afirma.

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O jato Legacy, da Embraer, foi um dos que Marcelo Teixeira ajudou a criar

Mudança de ares

Há quatro anos, decidiu que era hora de mudar de ares. Estava cansado de fazer aviões e resolveu retomar um estúdio que criou há 15 anos e que sempre ficara escanteado. O desafio, porém, continuava grande. “Não é fácil fazer uma cadeira”, afirma. “Em apenas dois livros é possível encontrar 1,5 mil modelos diferentes”. Para tentar criar novos desenhos, instigou os mil participantes de um workshop a criar cadeiras realmente diferentes. O resultado? Até chinelo virou matéria-prima. A sua contribuição para o tema foi batizada de Homens Impacientes, uma cadeira feita com a estrutura de um carrinho de supermercado. Seu valor? R$ 6 mil.

Empolgado com a participação no salão de Milão, Teixeira encheu o inseparável caderno de novos projetos. Nos últimos tempos, sua diversão tem sido analisar o efeito das sombras geradas por seus objetos nos ambientes. Para exemplificar o conceito, Teixeira recorre mais uma vez às anotações. Entre uma explicação e outra, é possível encontrar desenhos com traços infantis. “São minhas filhas que passaram a fazer alguma coisa comigo”, diz ele. O resultado de uma dessas brincadeiras é a luminária Heloá, nome de sua filha mais velha. “A Embraer foi muito importante na minha vida pessoal”, diz ele. “Mesmo se eu não ganhasse mais do que antes, estou me divertindo muito mais”.

 

 

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