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De sacoleiro de jogos paraguaios a rei dos games

Líder de mercado, a NC Games, que se formalizou apenas em 2000, vai vender jogos por um terço do preço para a classe C

Soraia Duarte, especial para o iG |

 

Anos atrás, não era raro encontrar pessoas que viviam da venda de produtos comprados no Paraguai. Claudio Macedo, hoje com 39 anos, pertenceu a esse grupo. Durante mais de dois anos, entre 1994 e 1997, cruzava a Ponte da Amizade todas as semanas para comprar jogos para videogames em Ciudad del Este. Depois, revendia-os aqui, para lojistas. Essa rotina que se passava há 17 anos foi o primeiro passo para Macedo construir a NC Games, maior distribuidora de software e acessórios para videogames da América Latina.

A empresa de Macedo representa com exclusividade, no Brasil, as principais marcas mundiais de software e acessórios para videogame, atividade que lhe rendeu faturamento de R$ 200 milhões no ano passado. Seus clientes continuam sendo lojistas, só que hoje eles são empresas formalizadas e estão espalhadas pelo território nacional.

Greg Salibian/iG
Claudio Macedo, executivo da NC Games: o homem que carregava sacolas cheias de joguinhos no Paraguai agora tem um escritório em Miami

A NC tem 180 funcionários, dos quais 60 são promotores e representantes, alocados na sede, em São Paulo, e nas filiais de Vitória, no Espírito Santo, de Itajaí, no Paraná. Também possui clientes nos países vizinhos, atendidos por seu escritório de Miami.

Sim. O homem que carregava sacolas cheias de joguinhos no Paraguai não só tem um escritório em Miami, como os mercados estrangeiros já registram participação importante em seus resultados. Respondem por 20% dos negócios, o que faz com que planeje abrir, no próximo ano, escritórios de representação na Argentina, no Chile e na Colômbia.

Mas é no Brasil onde Macedo mais aposta. Ele está triplicando o tamanho da sede, que mudará do bairro do Imirim, zona Norte de São Paulo, para Alphaville, município vizinho à capital. Prevê crescimento de 50% em seus resultados nesse ano, chegando a R$ 300 milhões.

O trajeto percorrido para transformar o sacoleiro em empresário dos games foi muito mais desafiador que as intermináveis viagens ao Paraguai, nas quais embarcava no ônibus com R$ 500 ou R$ 1 mil no bolso para comprar mercadorias. Ou quando batia de porta em porta para encontrar lojistas que quisessem seus produtos. Essa parte, conta, foi uma das mais fáceis. “Eu tinha 22 anos, era muito jovem”, diz.

Além disso, Macedo afirma que esse período coincidiu com uma mudança do próprio Brasil. O Plano Real tinha acabava de ser adotado, dando poder compra à população. Ao mesmo tempo, o País estava fechado às importações, o que fazia com que os jogos que vendia fossem novidades. “Tudo parecia possível”.

Não demorou para que Macedo contratasse vendedores para ajudá-lo. Buscou diferenciais, como financiar as compras aos lojistas, com cheques pré-datados. “Essa prática não era comum naquela época”, afirma.

O volume de vendas gerado com esse reforço fez com que comprar diretamente dos fabricantes, nos Estados Unidos, fosse mais vantajoso do que ir ao Paraguai. Assim, em 1997, substituiu as viagens pelas importações. Sem falar inglês, Macedo enviava via fax os pedidos aos fornecedores que tinha na Califórnia. “As mensagens se resumiam a um send to me, please”, lembra, com humor.

As dificuldades foram muitas. O início do negócio coincidiu com seu primeiro ano de faculdade, no curso de engenharia civil, que tem duração de cinco anos. Só que Macedo dedicou a ele oito anos, em virtude das muitas ausências provocadas pelas viagens e do foco no trabalho. “Não desistia porque achava muito importante ter um diploma de engenheiro”, afirma. Mas quando a NC já somava 60 funcionários, acabou adiando o sonho do diploma e trancou sua matrícula.

Desafios pessoais, como esse, somaram-se aos profissionais. Era difícil gerir a empresa, no começo. “Aprendi com meus erros”, diz Macedo, que se deparou com sérias dificuldades em duas ocasiões. Uma, em 1999, com a desvalorização do real. Com linhas de crédito em dólar, o capital de giro não suportou a transição e o jeito foi renegociar com fornecedores. Depois, em 2004, teve problemas de fluxo de caixa, impactado por conta de importações. Precisou negociar com 11 bancos e com todos os fornecedores. “Mas hoje estou totalmente capitalizado, pronto para crescer”, diz.

Greg Salibian/iG
A estratégia de Macedo é aumentar o acesso das classes C e D a seus produtos e para isso lançará em agosto jogos a partir de R$ 19,90
Oportunidades

O goiano de 39 anos deixou Divinópolis aos 12 anos para arriscar a vida em São Paulo com a família, descobriu muito cedo seu talento para vendas. Vendeu bebidas, mesas para bares e ações de companhias telefônicas, antes da privatização do setor. Também foi sócio de uma barraca de cachorro-quente no Largo da Concórdia, região central da cidade. Assim que entrou na faculdade, percebeu que poderia fazer dinheiro vendendo calculadoras para os colegas de classe. Quando um amigo lhe deixou alguns jogos para que revendesse, descobriu a janela de oportunidade que persegue até hoje. Macedo quer que sua empresa acompanhe o bom momento que mercado de games vive no Brasil e se firme como a líder do segmento.

Estudo publicado pela consultoria PriceWaterhouseCoopers, intitulado "Global Entertainment and Media Outlook: 2011–2015", indica que o mercado global de videogames terá um crescimento anual de 8,2% até 2015, saindo de US$ 55,5 bilhões, em 2010, para US$ 82,4 bilhões. Na América Latina, o ritmo de expansão será de 7,5% ao ano, chegando a US$ 1,8 bilhão em 2015, cifra superior ao US$ 1,3 bilhão registrado em 2010.

A estratégia de Macedo é aumentar o acesso das classes C e D a seus produtos. Para isso, lançará em agosto jogos a partir de R$ 19,90, um terço do valor de outros jogos. “Videogame é um sonho de consumo até então acessível às classes A e B”, explica. “Agora, queremos trabalhar para outros públicos”.

O truque, para ter produtos tão mais baratos, será oferecer jogos que não são exatamente uma novidade, sobretudo nos mercados da Europa e dos Estados Unidos. Sem saída por lá, ele negocia com os fabricantes um bom preço para trazer ao Brasil.

Oferecer alguma inovação, nem que sejam produtos mais baratos, é um dos pontos que faz com que os negócios deem certo, de acordo com Tales Andreassi, coordenador do Centro de Empreendedorismo da FGV. A oferta para a classe C, que vem se expandindo com o aumento de renda da população, pode ser uma estratégia acertada. “A classe C está ávida para consumir produtos mais sofisticados", afirma. Isso, na opinião dele, faz com que os empreendedores encontrem um caminho mais fácil para expandir em seus negócios.

O crescimento da empresa, acredita Macedo, também envolve a preparação dele como empresário. Seu foco atual é aprimorar o inglês, idioma ao qual tem dedicado quatro horas semanais em aulas particulares. Em janeiro, quer fazer um curso de imersão numa universidade britânica. “Com o faturamento e as metas que temos, é fundamental que eu fale inglês”, afirma. Já a volta à faculdade, para buscar seu tão sonhado diploma de engenheiro, diz Macedo, ainda terá de esperar.

Informalidade e peso dos tributos

A NC Games só passou a atuar 100% formalizada em 2000. Os desafios para chegar lá foram tantos que Macedo se juntou a outros empresários do segmento para criar a Associação Comercial, Industrial e Cultural de Games (Acigames), no ano passado. Dentre os objetivos da iniciativa está a profissionalização do mercado. “Muita gente está na informalidade por não saber como se formalizar”, diz. “Oferecemos apoio para essa adequação.”

O principal concorrente da NC Games é exatamente a informalidade, que, não por acaso, deu início ao negócio. Estima-se que 50% do mercado total de games no Brasil se dê de maneira informal. Macedo, que afirma deter 80% do mercado formal, diz não se preocupar com essa concorrência. Ao contrário. “Aprendi que nenhuma empresa sobrevive se não for 100% formal”, diz. “Na informalidade, gasta-se tanto tempo e energia com as preocupações de atuar dessa maneira, que o empreendedor se desvia do estratégico e da visão de longo prazo do negócio.” Por isso, “qualquer pessoa que queira ter uma empresa sadia, de longo prazo, tem que ser formal”.

A Acigames também promove iniciativas para sensibilizar o governo a aplicar, sobre esse setor, uma carga tributária menor. No País, as taxas chegam a ser 60% a 100% maiores que em outros mercados. “Nosso desafio é aprender como importar o produto legalmente e ser competitivo no País”, diz.

A Acigames, por exemplo, implantou o Jogo Justo, projeto que contempla atividades como o dia do jogo justo, quando as vendas são feitas pelo preço sem imposto. “Essa ação é pra mostrar o potencial de crescimento e consumo quando o produto é vendido com uma carga tributária mais adequada”, afirma Macedo.

Com duas edições, a iniciativa reuniu mais de 100 lojas físicas, espalhadas por 15 estados, que venderam mais de 58 mil unidades de 14 jogos. Os games foram vendidos no mesmo dia, com alguns títulos esgotados nas primeiras horas. “Esses resultados são de extrema importância, pois servirão de base argumentativa na discussão dos impostos com o governo”, diz Macedo, que é o vice-presidente da Associação.
 

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