Cineastas e executivos não se entendem sobre os filmes 3D

Artistas reclamam das dificuldades para filmar com a tecnologia, mas estúdios cobiçam renda adicional de obras em três dimensões

The New York Times | 08/08/2010 05:45

Texto:
enviar por e-mail
* campos são obrigatórios
corrigir
* campos obrigatórios

Uma piada que circula na internet traz a imagem de um par de óculos verde e vermelho e algumas letras embaçadas que dizem “se você não consegue fazer bem, faça em 3D”. Os fãs de filmes convencionais, em duas dimensões, ja têm uma frase de efeito. Mas eles têm um movimento?

Foto: Reuters

Visitantes assistem ao filme Avatar, em formato 3D, na convenção de quadrinhos Comic-Con, em San Diego: executivos enfrentam a resistência de diretores à tecnologia

Enquanto Hollywood prepara a estreia de dezenas de filmes 3D – cerca de 60 estão programados para chegar às telas nos próximos dois anos, entre eles “Jogos Mortais VII e “Mars Needs Moms!” (ainda sem tradução no Brasil) –, a resistência por parte de alguns produtores e espectadores tem complicado a expansão da terceira dimensão.

É difícil medir a resistência do público – a chacota online, afinal, não significa muito quando multidões estão pagando valores adicionais para ver 3D. Mas, com os produtores, a questão é outra. São as atitudes deles que dirão com mais precisão se o ímpeto de Hollywood para o 3D está prestes a dar de cara na parede.

De forma surpreendente, muitos diretores influentes deram tiros certeiros contra o boom do 3-D durante a recente Comic-Con International, uma convenção de cultura pop realizada em San Diego, na Califórnia. “Quando você põe os óculos, tudo fica turvo”, disse J.J. Abrams, cuja versão de Jornada nas Estrelas, filmada em duas dimensões, levantou para a Paramount Pictures US$ 385 milhões (cerca de R$ 670 milhões, em valores atuais) nas bilheterias de todo o mundo no ano passado.

Joss Whedon, que estava no palco com Abrams, disse que, como espectador, adora a tecnologia. Mas depois Whedon disse que não teve dúvidas ao se opor ao plano da Metro-Goldwyn-Mayer de converter para 3D “The Cabin in the Woods" ("A Cabana na Floresta", em tradução livre), filme de horror produzido por ele e ainda inédito. “O que esperamos”, disse Whedon, “é que este seja o único filme de horror que virá a ser lançado que não esteja em 3D”.

Um porta-voz da MGM preferiu não se pronunciar sobre “The Cabin in the Woods”, mas uma fonte que está a par do tema, que pediu para não ser identificada porque o estúdio está em meio a uma difícil reestruturação financeira, disse que a conversão continua como uma opção.

Um porta-voz da Marvel Entertainment, por sua vez, disse que o estúdio ainda não sabe se Os Vingadores será em duas ou três dimensões. O filme de super heróis está sendo dirigido por Whedon.
Com o enorme sucesso do 3D de Avatar, dirigido por James Cameron, seguido pelo de Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton, os executivos de marketing e distribuição dos estúdios têm clamado por mais salas de exibição com estrutura. Isso pode evitar que um filme 3D empurre o outro para fora da sala para conseguir ser exibido.

Foto: Reprodução

Sucesso de Avatar em 3D ainda atiça o interesse de executivos de Hollywood

Mais salas digitais

Até o fim do ano, haverá mais de cinco mil salas com telas digitais nos Estados Unidos, ou 12,5% do total, que é de cerca de 40 mil. Isso diminuirá um pouco o congestionamento que fez com que sucessos em 3D como Fúria de Titãs, da Warner Bros., fosse rapidamente substituída nas salas por Como Treinar o seu Dragão, da DreamWorks – com desvantagem para ambos.

Os ingressos para filmes em 3D têm em seu preço, nos EUA, um adicional que fica entre US$ 3 e US$ 5 (entre R$ 5,25 e R$ 8,75). Executivos da indústria estimam que filmes 3D têm, em média, uma receita 20% maior nas bilheterias se comparados com os filmes convencionais. As vendas de cópias para exibição em casa de sucessos em 3D Avatar e “Monsters vs. Aliens” têm sido fortes, o que mostra que eles podem ter um bom desempenho também quando não estão em três dimensões.

No geral, filmes em três dimensões podem custar mais que um equivalente em duas dimensões porque exigem câmeras e técnicas de filmagem mais elaboradas ou um processo adicional no já custoso período de pós-produção em filmes com muitos efeitos. Mas os gastos adicionais são um detalhe quando comparados com maiores vendas de ingressos.

Nos bastidores, no entanto, os produtores começaram a oferecer resistência à ânsia dos executivos pelas vendas de 3D. Por razões estéticas e práticas, alguns diretores frequentemente se recusam a converter uma obra para 3D ou a passar pela penúria e pelo custo de filmar com câmeras 3D, que ainda passaram por poucos testes em grandes filmes, com locações e efeitos complexos.

Foto: Divulgação

Alice no País das Maravilhas, outro sucesso em 3D

Contribuição pobre

Diretores como Whedon e Abrams argumentam que a tecnologia 3D contribui pouco para a cinematografia e, por outro lado, dá muita dor de cabeça. “Ela não mudou nada, exceto o fato de que vai tornar a filmagem mais difícil” disse Whedon na Comic-Con.

Nesse mesmo espírito, Christopher Nolan recentemente refutou sugestões para que A Origem, da Warner – ainda líder nas bilheterias nos EUA – seja convertido para 3D.

Por outro lado, Michael Bay, que está filmando Transformers 3, parece ter concordado que seu filme seja, ao menos em parte, em 3D. Isso ocorreu depois de ele ter insistido durante meses que a tecnologia ainda não estava pronta para seu tipo de ação.

“Nós temos sempre dito que a questão é o equilíbrio”, disse Greg Foster, presidente da Imax Filmed Entertainment, que há muito já consentiu que alguns filmes são mesmo melhores em duas dimensões, mesmo nas gigantescas telas Imax. “O mundo está se aproximando disso”.

Desdém explícito

O impulso por filmar em 3D pode fazer com que os executivos dos estúdios aprovem um filme caro. Mas o desdém de alguns cineastas com o 3D – ao menos na ligação da tecnologia com seus projetos atualmente em curso – estava explícito em San Diego.

Jon Favreau, que falava na Comic-Con sobre seu Cowboys & Aliens, dos estúdios DreamWorks e Universal, que se aproxima da estreia, disse que a ideia de fazer um filme em 3D até surgiu, mas ele não se interessou. O 3D de hoje exige uma câmera digital, "e westerns têm que ser filmado em película”, disse Favreau. Ele complementa: “use o dinheiro que você vai economizar para assistir ao filme duas vezes”.

Stacey Snider, principal executiva da DreamWorks, disse que Favreau e os estúdios envolvidos tinham concordado que o 3D não era a tecnologia mais adequada para o filme. Mas, segundo ela, a discussão sobre seu uso era inevitável. “É ingenuidade pensar que não a adotaríamos em qualquer filme com efeitos, ação ou escala”, disse ela.

Foto: Reprodução

"Se você não consegue fazer bem, faça em 3D", um dos lemas dos opositores da tecnologia

Também na Comic-Con, Edgar Wright, diretor de Scott Pilgrim Contra o Mundo uma elaborada obra da Universal baseada em quadrinhos (e com estreia no Brasil prevista para outubro), cheia de ação, informou que seu filme seria lançado em duas dimensões, com preços habituais.

Segundo pessoas a par da visão da Universal sobre a obra, o 3D foi até considerado, mas muito brevemente. A opção foi rejeitada, contudo, em parte para evitar que uma audiência potencialmente jovem fosse para um filme que teria ingressos mais caros – e, em parte, porque o visual do filme, já forte, pode ter ficado estupefante em 3D.

Oposição em casa

O público se entusiasmou. Em uma apresentação prévia feita, Chris Pirrotta e outros membros da equipe do site de fãs TheOneRing.net garantiram a uma audiência de 300 pessoas que dois dos filmes da série Hobbit não seriam em 3D. A informação tinha como base uma ampla pesquisa do site sobre o tema. “Das 450 pessoas ouvidas, 450 não querem que O Hobbit seja em três dimensões”, informou, mais tarde, uma nota do site.

Mas, em Hollywood, um executivo a par do assunto – que pediu para não ser identificado por causa das delicadas negociações para ter Peter Jackson na direção dos filmes – disse que a questão ainda não foi sacramentada.

Perguntado por telefone se os devotados fãs tolerariam uma Terra Média em 3D, Pirrotta disse: “eu realmente acredito que sim, desde que a versão convencional também esteja disponível”.
Em sua família, disse ele, os óculos engraçados podem ser um desafio. “Minha esposa não suporta 3D”.

Texto:
enviar por e-mail
* campos são obrigatórios
corrigir
* campos obrigatórios