Herdeiro do Itaú busca tornar pediatria lucrativa

Faturamento do Hospital Sabará, de José Luiz Setubal, mais do que dobrou, mas rentabilidade ainda é desafio

Gabriel Ferreira - Brasil Econômico | - Atualizada às

Analisar o plano de negócios e refazê-lo. Esse movimento tornou-se rotineiro para o herdeiro do banco Itaú e médico pediatra José Luiz Setubal, desde 2010, quando o Hospital Sabará, presidido por ele, mudou-se para um novo prédio, de 17 andares, localizado na Avenida Angélica, uma das áreas mais nobres de São Paulo. “Temos superado nossas próprias previsões muito rapidamente, então precisamos refazer os planos o tempo todo”, afirmou Setubal, com exclusividade ao BRASIL ECONÔMICO .

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Tido como referência no atendimento pediátrico, o Hospital Sabará se inspira no modelo americano. “Por lá, os hospitais de especialidade são muito mais comuns do que no Brasil”, diz Setubal. “Nós somos especialistas em crianças e gostamos de estudar esse assunto a fundo. Não pretendemos expandir nosso foco, porque é justamente ele que nos faz mais fortes.” Até agora, a aposta no mercado infantil tem se mostrado correta. Este ano, o faturamento do Sabará deve ser de R$ 107 milhões, mais do que o dobro do valor registrado em 2010, quando o novo prédio foi inaugurado, e 40% do que as receitas de 2011, primeiro ano inteiro em que o hospital operou na Avenida Angélica.

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Os números obtidos superam todas as metas imaginadas pelos executivos do hospital. Parte disso é resultado dos investimentos que foram feitos para tornar o hospital uma referência para procedimentos mais complexos, como cirurgias cardiológicas e ortopédicas. “O que ajuda a tornar um hospital rentável, mais do que o tamanho físico, é o mix de serviços que ele consegue oferecer. Por isso meu primeiro desafio foi mostrar aos médicos e pacientes que tínhamos uma ótima estrutura cirúrgica”, diz Setubal. Segundo ele, o resultado deste trabalho é que torna possível que o hospital siga aumentando o faturamento, mesmo sem investir alto na expansão do número de leitos, que devem chegar a 120 nos próximos meses, com a inauguração de 16 novos quartos.

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Na opinião de Setúbal, um dos fatores que contribuiu para o crescimento do Sabará ser tão rápido e acima do esperado é a forma como os grandes hospitais paulistas tem encarado a pediatria. “Em geral, eles estão enxugando os investimentos ou até acabando com essas áreas”, afirma. Por trás desta decisão estariam uma série de aspectos. “Um dos mais importantes é a questão da rentabilidade. É muito mais difícil ganhar dinheiro tratando de criança do que cuidando de adultos.”

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Além disso, as estatísticas do IBGE apontam que a tendência é que a população brasileira fique cada vez mais velha e com casais tendo cada vez menos filhos. “Quem olhar simplesmente para a questão do dinheiro vai querer fugir da pediatria”. diz Setubal.

Por estar em uma área menos lucrativa, fazer as receitas do Sabará continuarem a crescer em ritmo acelerado e melhorar a rentabilidade do hospital é o maior desafio de Setubal. “É difícil escolher uma das ‘técnicas’ tradicionais para continuar crescendo. Uma nova unidade, por exemplo, estaria fora de cogitação por enquanto, porque não cabem dois hospitais pediátricos deste tamanho em São Paulo”, afirma. “Uma alternativa talvez seja a abertura de novos prontos socorros ou ambulatórios, mas, no modelo atual, eles ainda não são nada lucrativos.”

Histórico

O Sabará foi fundado há 50 anos, por um grupo de sete médicos pediatras. Desde aquela época, ficou conhecido como um grande pronto socorro pediátrico. A estrutura de internação era pequena e o fato de o hospital estar instalado em um prédio próprio, desestimulava planos de expansão. Em 2005, quando Setubal comprou o hospital logo resolveu que seria importante uma nova estrutura física. “Mais do que de lugar, mudamos de conceito. Éramos um grande pronto socorro com um pequeno hospital em cima. Hoje somos um grande hospital, com um grande pronto socorro embaixo”, diz.

O prédio onde está sediado o Sabará recebeu investimentos de R$ 90 milhões, utilizados para adequar a estrutura de um antigo prédio de escritórios. Parte do aporte foi feito pelo fundo Pátria Investimentos.

Um Setubal avesso a números

Sempre que participa de encontros familiares, José Luiz Setubal se vê obrigado a responder à mesma pergunta: “Você continua médico?”. Único dos sete filhos de Olavo Setubal a ter seguido carreira na medicina, José Luiz nunca pensou em seguir carreira nos negócios da família. “Fiz medicina porque gostava mais de gente do que de números”, afirma. “Minha sorte é que tinha mais seis irmãos. Não fosse isso, não sei se meu pai me apoiaria nessa decisão.”

Os gostos pessoais ficam claros para quem olha a mesa de José Luiz. Ao invés de planilhas e tabelas que pode se esperar na sala de um diretor de hospital - e mais ainda na de um Setubal —, o que chama a atenção é um livro de 573 páginas sobre os cuidados com uma criança de até um ano. “Tenho que me manter atualizado sobre as novidades médicas, mesmo que eu atenda cada vez menos.”

Desde que assumiu o comando do Sabará, em 2005, José Luiz teve que mudar bastante a rotina. Hoje, só consegue atender dois ou três pacientes por dia. “Faço questão de reservar um espaço na minha agenda no começo da manhã ou depois que saio do hospital.”

Apesar de a rotina de administrador ter se tornado predominante apenas nos últimos ano, fugir do destino imposto pelo sobrenome famoso nunca foi fácil para José Luiz. “Nunca quis ser gestor, mas desde os tempos de faculdade sempre me jogaram para esse tipo função. Meu sobrenome me colocou até na comissão de formatura.”

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