Os relatos de quatro agricultores de menor porte que, com contratempos, contribuirão para a maior colheita da história do País

Produtor de soja em Roraima há seis anos, Afranio Vebber espera colher nesta safra uma média de 50 sacas em cada um dos 1,5 mil hectares de plantação. A produção é irrisória se comparada às 18,7 milhões de toneladas de soja previstas para o Mato Grosso - maior Estado produtor da oleaginosa no País -, mas ajuda a lançar luz sobre o papel que também os pequenos produtores terão na safra 2009/10. Na última terça-feira, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) atestou que esta será a maior colheita da história do País - a produção somará 146,9 milhões de toneladas, segundo a nova previsão, volume 8,7% maior que o da temporada 2008/09.

Afranio Vebber, embrenhado em sua lavoura: produção de soja em Roraima cairá 80% nesta safra, mas o agricultor não arredou pé
Divulgação
Afranio Vebber, embrenhado em sua lavoura: produção de soja em Roraima cairá 80% nesta safra, mas o agricultor não arredou pé
Assim como Vebber, pequenos e médios produtores lutam para não abandonar a agricultura e manter suas plantações em todo o País. Escassez ou excesso de chuva, necessidade de incentivos e regulamentação, ataque de pragas e até mesmo falta de mão-de-obra são alguns dos obstáculos que eles precisam enfrentar no campo. Uma nova safra recorde, afinal, não é feita apenas de grandes agricultores ou grandes números.

Gaúcho de 39 anos, Vebber e sua família já plantaram em Goiás, nos anos 80, até parar no Norte do País. “Vimos a oportunidade de crescer e produzir na entressafra brasileira”, diz o produtor. Em seus primeiros anos em Roraima, o cenário era promissor. A família comprou máquinas e chegou a exportar para a Venezuela. Mas, em 2005, os altos custos de produção e preços baixos dos produtos na época desestimularam os agricultores da região. Vebber, porém, conseguiu manter-se na agricultura. “Não me arrependi porque vejo que há a possibilidade [de melhorar].”

Segundo o agricultor, a escassez de produtores de soja na região impossibilita a exportação atualmente. “Quanto mais gente estiver produzindo na região, melhor, porque reduzimos custos”, diz. Enquanto não consegue parceiros, o resultado da produção de Vebber é vendido para fábricas de ração para animais.

A soja é o principal produto de exportação do agronegócio brasileiro. A colheita do grão somará 68,7 milhões de toneladas nesta safra, segundo a Conab, um crescimento de mais de 20% em comparação com o ciclo anterior. Roraima, Estado adotado por Vebber, colherá 4,3 mil toneladas, ou 80% menos que na última safra.

No centro, de camisa vermelha, o sorridente Aristeu Furtado:
Divulgação
No centro, de camisa vermelha, o sorridente Aristeu Furtado: "a plantação ainda é muito na base da enxada"
No Amapá, feijão na base da enxada

O produtor Aristeu Souza Furtado deve começar o plantio de feijão neste mês em Macapá, no Amapá. Walter Paixão, analista da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), afirma que há cerca de dez anos uma parceria entre o governo e a entidade pretende incentivar o cultivo de feijão na região por meio de subsídios e distribuição de sementes, programa do qual participa Furtado. “Segundo o pessoal da pesquisa e da análise de solo, a terra é boa para feijão”, diz o produtor, que já plantou banana, laranja e limão, entre outras culturas.

Furtado, que também é pecuarista e especialista em eletrônica, herdou o trabalho de agricultor dos pais. Com 58 anos, vende seus produtos para a feira da região e espera permanecer no campo, apesar dos obstáculos. “A região é muito pobre na mecanização, a plantação ainda é muito na base da enxada”, diz. Para plantar o hectare de feijão programado para este ano, ele utiliza um trator pequeno e também um mais completo, emprestado da cooperativa.

O feijão plantado por Furtado é um dos itens mais importantes da cesta básica brasileira. A colheita nacional totalizará 3,5 milhões de toneladas na safra 2009/10, de acordo com a Conab. O Amapá, com 1,6 mil toneladas, será o menor produtor de feijão desta temporada entre todos os 27 Estados do País.

Em Laranja da Terra, arroz

A tradição familiar também pesa na decisão dos agricultores de permanecer no campo, diz Márcio Adonis Rocha, engenheiro agrônomo do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper). No Espírito Santo, Estado de pouca tradição na produção de arroz, a cultura tem uma concorrência pesada na disputa por terras: café, frutas e a plantação de eucaliptos têm vencido essa disputa. "O produtor ainda sofre com a falta de água em muitos municípios”, diz.

Daniel Nass, da cidade de Laranja da Terra, a 130 quilômetros de Vitória, procurou equilibrar as forças em sua fazenda. Ele armazena a água da chuva para usar na plantação de arroz, que divide a terra com tomate, milho e quiabo. Depois, usa a madeira dos eucaliptos que também cultiva para fazer caixas para os produtos que vende aos vizinhos.

Rio Grande do Sul e Santa Catarina, nesta ordem de importância, responderão por 70% da colheita de arroz no País na safra 2009/10, que somará 11,3 milhões de toneladas. No Espírito Santo, onde Daniel Nass planta arroz com água da chuva armazenada, a colheita será de 3,7 mil toneladas, o penúltimo no ranking dos Estados produtores do cereal.

Algodão e autopeças

Na Paraíba, pesquisadores como Luiz Paulo Carvalho, há 32 anos no Embrapa, também acompanham a luta de pequenos agricultores e sua resistência no campo. Nos últimos anos, Carvalho presenciou o declínio da produção de algodão na região. “Com a chegada do bicudo em 1983, foi difícil controlar a produção”, diz ele, lembrando do ataque dos besouros às plantações.

No último ano, diz Mário Lemos Medeiros, presidente da cooperativa agrícola da região de Patos, a falta de chuvas também desanimou os produtores. Segundo ele, benefícios recebidos pela população da região, como o Bolsa Família, junto com o aumento da urbanização, afastaram os agricultores. “Não tem mais ninguém no campo, só na cidade”, diz. “Alguns recebem o benefício e param de trabalhar”, afirma o produtor.

Também a falta de financiamento e de mão-de-obra no campo, argumenta o dirigente, contribuíram para a queda de quase 80% na produção de algodão da Paraíba prevista para esta safra. A maioria dos que resistem no campo, afirma ele, agora opta pela produção do algodão colorido, mais caro do que o branco. A produção nacional de algodão em caroço será de 3,1 milhões de toneladas, informa a Conab, um crescimento de 2,3% em relação ao ciclo anterior. A da Paraíba, uma das menores do País, com o declínio de 77,8%, será de 800 toneladas.

O destino da pouca colheita, diz Medeiros, são as indústrias têxteis da região. Além da fazenda de 139 hectares, onde planta algodão e cria vacas leiteiras, ele mantém uma loja de autopeças na cidade.

Apesar de conseguir mais lucro com o comércio e ter se formado em economia há 11 anos, aos 54 anos de idade, Medeiros afirma ter gosto pelo cultivo da terra, ofício que não pretende largar. “Quando vem a seca, perdemos tudo", afirma o produtor. "Mas aí começamos tudo de novo”.

Trabalhador rural com algodão já colhido: na Paraíba do produtor Mário Medeiros, produção da fibra, que já era pequena, cairá quase 80%
Agência Estado
Trabalhador rural com algodão já colhido: na Paraíba do produtor Mário Medeiros, produção da fibra, que já era pequena, cairá quase 80%

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.