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Cresce o número de vinícolas que já não se limitam a produzir apenas a versão de mesa da bebida; setor quer ampliar exportações

Não se sabe ao certo como e quando surgiram os primeiros vinhos no mundo. Relatos indicam que a bebida foi criada há pelo menos cinco mil anos no Oriente, onde ficam atualmente a China e o Irã, mas não há consenso sobre datas e locais. No Brasil, o vinho é apreciado desde a época do descobrimento e hoje, mais de 500 anos depois do desembarque dos portugueses no País, a bebida vive um importante momento da sua história. A palavra de ordem das vinícolas passou a ser qualidade, e não mais apenas a produção em larga escala.

Rota das vinícolas
Arte iG
Rota das vinícolas
O setor vem observando, lentamente, o aumento da comercialização dos vinhos finos nacionais provenientes de uvas viníferas – próprias para a produção de vinhos com padrão mais elevado – e a queda nas vendas dos vinhos de mesa, elaborados a partir das uvas americanas e híbridas.

Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Vinhos (Ibravin) afirmam que, de 2006 a 2009, houve queda de 10% na comercialização dos vinhos de mesa procedentes no Rio Grande do Sul, Estado responsável por mais de 90% da produção da bebida no Brasil. No sentido oposto, os vinhos finos discretamente começaram a ter uma participação maior no mercado. Em 2006, do total de bebidas produzidas a partir da uva, pouco mais de 22 milhões eram vinhos finos e 245 milhões eram de mesa. Já no ano passado, foram produzidos 33 milhões de litros de vinhos finos e 234 milhões dos de mesa.

O plantio de uvas para elaboração de vinhos de alta qualidade também aumentou na comparação de um período a outro. Em 2006, 90% do que foi colhido era de versões convencionais da fruta, e os 10% eram de uvas viníferas. No último ano, das 534 mil toneladas colhidas, 86% eram comuns e 13% viníferas.

Segundo Carlos Paviani, diretor executivo do Ibravin, o setor de vinhos finos brasileiro está passando por um momento de ebulição, mas as mudanças não serão sentidas de uma hora para outra. “Muitas medidas estão sendo tomadas para melhorar a imagem e a qualidade do vinho brasileiro. Além disso, o aumento do consumo dos finos está ligado a uma mudança de hábito. Muita gente ainda prefere os vinhos de mesa ou outras bebidas”, disse.

Consumo pequeno

No Brasil, o consumo per capita de vinho, seja fino ou de mesa, não passa de dois litros ao ano - o consumo de cachaça, por exemplo, é de 11 litros por pessoa ao ano, em média, e o da cerveja, de 44 litros anuais per capita. Fatores culturais e até climáticos contribuem para a baixa adesão à bebida. Na França, por exemplo, o consumo por pessoa ultrapassa 50 litros. Na América Latina, o Uruguai lidera o ranking, com 33 litros por pessoa.

Muitos produtores de vinhos estão investindo na produção de vinhos finos e afirmam que a bebida é a grande aposta do setor para os próximos anos. A Perini, fundada em 1970, na cidade de Farroupilha (RS), vem investindo na diversificação de seu portfólio. Há dez anos, mais de 70% do faturamento da companhia vinha da comercialização de vinhos de mesas. Hoje, 40% da receita vêm dos de mesa e 35% dos finos e espumantes. “O vinho de mesa jamais vai sumir, mas os finos estão começando a agradar ao paladar dos brasileiros”, afirmou Franco Perini, diretor comercial da vinícola.

Na mesma esteira de negócio está também a vinícola Mioranza, importante produtora de cidade Flores da Cunha (RS), que iniciou a produção de vinhos finos no ano 2000. Atualmente, 12% da produção é destinada aos finos e o restante para o vinho de mesa. Segundo Douglas Mioranza, diretor comercial da vinícola, em 2005, apenas 3% da produção eram de finos. “Estamos trabalhando para que nos próximos dez anos esse número chegue a 40%”, disse ele.

Investimento em tecnologia

As vinícolas, no entanto, não estão preocupadas em aumento de produção e o foco mesmo é busca da qualidade da bebida. Máquinas de última geração para processamento do vinho, equipamentos de irrigação automática e até estação meteorológica para estudar o clima da região são alguns dos aportes feitos por vinícolas do Sul do País.

A Boscato, da cidade de Nova Pádua (RS), há anos mantém a mesma produção de 400 mil litros de vinhos finos, a única categoria produzida na vinícola. A empresa não planeja aumentar a produção nos próximos anos. “Investimos anualmente 15% do faturamento na compra de novas tecnologias com o propósito de melhorar a qualidade dos nossos vinhos”, afirmou Clóvis Boscato, enólogo da vinícola.

A centenária Don Laurindo, fundada em 1887 na da cidade de Bento Gonçalves (RS), produz anualmente 120 mil litros de vinhos finos. Na década de 70, com a produção de vinhos de mesas, a vinícola chegou a produzir 380 mil litros. Segundo Ademir Brandelli, enólogo da empresa, nos últimos vinte anos foram investidos US$ 4 milhões em tecnologia.

Preconceito ainda atrapalha o setor

Os brasileiros ainda têm muito preconceito na hora de consumir um vinho fino nacional, segundo os produtores, o que explica, segundo eles, a preferência de muitos consumidores pelos importados. Um teste cego de degustação realizado pelo Ibravin reuniu com 380 pessoas, que provaram oito categorias de vinhos finos brasileiros. Cerca de 80% dos que provaram os vinhos afirmaram que estavam bebendo um produto importado e ficaram surpresos quando descobriram a origem da bebida.

Somado ao preconceito, ainda segundo os produtores, a falta de conhecimento sobre o produto é outro fator que a trava o crescimento do vinho fino nacional no mercado de bebidas. Segundo Diego Bertolini, gerente de marketing do Ibravin, há no mercado bons vinhos comercializados a preços baixos e de boa qualidade. “Temos vinhos de R$ 20 que podem concorrer com muitos importados que entram no País”, disse.

Reconhecimento do mercado externo

A busca da qualidade do vinho fino não vai só melhorar a imagem da bebida no País, mas também abrir fronteiras para que o produto seja reconhecido e consumido pelo resto do mundo. O Brasil exporta apenas 2% de sua produção total de vinhos finos por ano. “Esse número ainda é irrisório. Todo o setor está engajado para aumentar em 10% as exportações nos próximos cinco anos”, afirma Paviani.

Em 2009, os vinhos brasileiros chegaram a 32 países. Os Estados Unidos receberam cerca de 20% do total exportado, seguidos da Alemanha, com 16%. Mais de 30% da produção mundial de vinho é destinada à exportação.

O Brasil é atualmente o 16º produtor de vinho no ranking mundial. No ano passado, o Rio Grande do Sul produziu mais de 430 milhões de litros de vinhos sucos e derivados da uva.

(A jornalista viajou a convite do Ibravin)

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