De acordo com Diva Pinho, professora emérita da FEA-USP, setor deixou a ideologia da ajuda mútua em segundo plano

Fachada da sede da Coamo em Campo Mourão, no Paraná: os princípios estão dando lugar para a eficiência
Luiz Fernando Martinez / Foto Arena
Fachada da sede da Coamo em Campo Mourão, no Paraná: os princípios estão dando lugar para a eficiência
O sucesso da Coamo no agronegócio pode ser explicado em parte pela mudança que o movimento do cooperativismo vem sofrendo nos últimos anos no Brasil e no resto do mundo. “O cooperativismo deixou de ser um ideal, de ser apenas vontade de pessoas se ajudarem”, disse ao iG Diva Pinho, economista, advogada e professora emérita do departamento de economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP). “Hoje, a cooperativa é uma associação de pessoas que visa ao resultado, e os princípios estão dando lugar à eficiência”. Autora de livros sobre o tema, Diva falou com o iG de sua casa em São Paulo. Acompanhe os principais trechos da entrevista:

iG: Onde e quando surgiu o cooperativismo como conhecemos hoje?
Diva Pinho: Ele aparece na Europa em meados do século 19 como uma reação ao capitalismo. Intelectuais, humanistas e religiosos começaram a se preocupar em resolver os problemas da classe operária que surgiu com a revolução industrial. Esse caminho foi longo e, aos poucos, os indivíduos que tinham a possibilidade de fazer um trabalho autônomo começaram a se unir.

iG: E quando foi que o movimento chegou ao Brasil?
Diva: No final do século 19, trazido por imigrantes estrangeiros. Naquela época, não tínhamos condições de desenvolver cooperativismo por causa do trabalho escravo, a associação de pessoas não era permitida. Com a República, começou a surgir condição para a cooperação. Mas o cooperativismo só ganhou força quando o Brasil fixou sua economia na agricultura, principalmente em regiões como São Paulo e Minas Gerais. Por aqui, ele surgiu como um movimento do Estado, de cima para baixo. Diferentemente do que aconteceu na Europa, o cooperativismo passou a ser patrocinado e fiscalizado pelo Estado.

iG: O cooperativismo mantém as mesmas características de quando chegou ao País?
Diva: O cooperativismo deixou de ser um ideal, de ser só vontade de pessoas se ajudarem. Hoje, a cooperativa é uma associação de pessoas que visa o resultado, os princípios estão dando lugar para a eficiência.

iG: Mas não é bom a cooperativa focar na eficiência e no resultado?
Diva: É bom, claro. Uma cooperativa não pode viver na base da boa vontade. Se os dirigentes não recebem eles não podem se dedicar em tempo integral. A cooperativa deve ser uma associação de bens e serviços que remunera pelo valor do mercado. Durante muito tempo se entendeu que ela era uma espécie de sociedade de benemerência. É preciso que os dirigentes possam trabalhar com independência, e para isso é preciso ter remuneração. No século 21, qualquer associação ou empresa precisa ter uma diferença entre receita e despesa – ou então ela não sobrevive. O cooperativismo atual não é mais no sentido de doutrina, de reforma social.

iG: Quais são as principais diferenças entre as empresas e as cooperativas?
Diva: A diferença já foi muito grande, na época em que a cooperativa era uma proposta de reforma social. Hoje, ela vai se identificando com uma empresa. E a empresa também se aproximou da cooperativa. Hoje, a companhia capitalista deixou de buscar só o lucro. Ela faz trabalho social. O fato do capitalismo se voltar para o social fez com que ganhasse uma face humana e o cooperativismo deixasse de ser só um sonho.

O agricultor Moacir Ferri no meio da plantação de trigo: colheita quintuplicada desde que virou associado da Coamo
Luiz Fernando Martinez / Foto Arena
O agricultor Moacir Ferri no meio da plantação de trigo: colheita quintuplicada desde que virou associado da Coamo
iG: Para o produtor agrícola, qual é a vantagem de se associar a uma cooperativa ao invés de vender sua produção para uma multinacional?
Diva: Há dois problemas que não são da cooperativa, mas do sistema econômico. O agricultor quer vender para quem me der o melhor preço. Uma multinacional pode até pagar melhor neste ano, mas talvez isso não aconteça em 2011. E aí ele não tem mais para quem vender. Quando o agricultor é parte de uma cooperativa, sabe que ela vai comercializar. Além disso, estar numa cooperativa significa ter um para orientar a produção, examinar a terra, ver as pragas e colocar a produção no mercado. É uma relação de confiança, como em todos os negócios. O agricultor que se bandeia para o capistalismo deixa a cooperativa numa situação vulnerável. É preciso que ele tenha consciência da união e do coletivo. No Brasil, nos preocupamos com o oportunismo.

iG: Como uma cooperativa consegue concorrer com multinacionais do setor?
Diva: É aí que entra a fidelidade do associado. Ele tem de entregar sua produção para a cooperativa. Às vezes, é mais vantajoso entregar para os concorrentes. Mas as cooperativas têm se defendido da seguinte forma: metade da produção é da cooperativa. O resto pode ser vendido para quem quiser.

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