Seca se agrava nos EUA e Brasil vai se tornar maior produtor de soja do mundo

Preços da principal commodity agrícola já subiram quase 100% no país, valorizando terras para plantio e praticamente dobrando o custo de produção de aves e suínos

Mayara Teixeira , iG São Paulo | - Atualizada às

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Com o agravamento da seca nos Estados Unidos, nesta semana o preço da saca de 60 quilos de soja superou a casa dos R$ 80 no Porto de Paranaguá, um aumento de quase 100% em relação a julho de 2011

Os produtores brasileiros de soja estão vivendo um momento de euforia com o agravamento daquela que já é considerada a pior seca dos Estados Unidos nos últimos 50 anos. Com as reiteradas previsões o Departamento de Agricultura dos EUA de que a safra 2012/2013 pode registrar uma quebra também histórica, o preço da soja disparou no mercado internacional. No Porto de Paranaguá, por exemplo, a saca de 60 quilos rompeu a barreira dos R$ 80 na quinta-feira, um aumento de quase 100% em relação ao mesmo período do ano passado.

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Enquanto nos Estados Unidos já se fala em queda de mais de10% naquela que era esperada a maior safra da história – 87 milhões de toneladas -, no Brasil pouca gente duvida de que o país vai assumir, pela primeira vez, a liderança mundial na produção de soja. Os produtores brasileiros, que se preparam agora para iniciar o plantio estão revendo suas estratégias e fazendo o que no setor se chama de substituição de culturas. Ou seja, deixarão de plantar outras commodities agrícolas, como o algodão, para abrir espaço no campo para a soja.

Outra cultura que também está sendo afetada pela seca americana, onde mais de 1,3 mil condados já decretaram situação de emergência, é o milho. No Brasil os agricultores também estão plantando milho de olho no aumento dos preços internacionais, que tem crescido, mas ainda não acompanham o ritmo acelerado da soja.


Só no estado do Paraná, a previsão é de que o volume de soja produzido seja 37% maior. “Isso é obviamente substituição de cultura”, diz Milton Rego, da Case IH, braço agrícola do Grupo Fiat, e vice-presidente da Anfavea, a associação brasileira dos fabricantes de veículos e máquinas agrícolas.

Com base nessa mudança, que está acontecendo de forma rápida e na mesma proporção que a crise se agrava nos Estados Unidos, o Ministério da Agricultura revisou suas estimativas para a safra 2012/2013, que estava em torno de 77 milhões de toneladas. O governo já trabalha com a expectativa de que sejam colhidas mais de 82 milhões de toneladas de soja no país na safra que começa agora.

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Como reflexo direto dessa explosão de demanda e consequentemente, de preço, muitos agricultores estão vendendo sua produção antes mesmo de ela ser plantada. As traders, grandes empresas que comercializam a soja mundialmente, estão optando por pagar pela produção de forma adiantada para se proteger de eventuais aumentos da saca. “Os produtores estão enchendo os bolsos, nunca estiveram tão bem”, diz Sávio Pereira, da Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Agricultura.

Agência Estado
Preço da terra disparou nas principais regiões produtoras do país

Com dinheiro farto no campo, os preços das terras dispararam nas regiões produtoras. Ainda não há um índice homogêneo dessa valorização, principalmente porque há grandes variações de preços em diferentes regiões do país. “Estamos vivendo um bom momento no mercado de soja. Quem consegue rentabilidade, tem capital para investimento”, diz Cléber Noronha, analista do Instituto Mato Grossense de Economia Agropecuária. “Mesmo que o solo não seja o mais favorável, ainda assim é muito rentável devido ao elevado preço da commodity”, diz Cléber Noronha. O analista explica que com o preço da soja recorde, as terras também se valorizaram. “O valor da terra é indexado ao preço da soja em sacas”.

Para Alex Lopes, analista da Scot Consultoria, apesar do otimismo, negócios dificilmente vão ocorrer nesse momento e a valorização das terras ainda é artificial. Segundo ele, o mercado de commodities é muito líquido e o de terras demora entre seis meses e um ano para obter uma valorização real. “A alta nos preços é pontual e é preciso ponderar isso”, diz. “Os pedidos de negócio aumentam, mas devido aos altos valores não se concretizam e não viram referência”.

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Para ele, estados como Maranhão, Piauí e Tocantins têm atraído o interesse de investidores porque possuem preços de terra menores e mão de obra mais barata, mas “o código florestal ainda provoca receio nos produtores e atravanca negócios. As terras mais caras estão no Mato Grosso que é o maior produtor de grãos”. Municípios como Sorriso e Lucas do Rio Verde, ambos no Mato Grosso, são os que apresentam os maiores preços. “Em Sorriso, o hectare custa em média R$13 mil”, diz Lopes. Já no Piauí, o mesmo hectare pode ser comprado com R$ 4 mil.

Ao mesmo tempo em que as terras começam a se valorizar, o mercado de maquinário agrícola começa também a se aquecer e já começa a acreditar que os maus resultados do primeiro semestre possam ser anulados ao longo do ano. Nos seis primeiros meses de 2012, indústria de máquinas agrícolas registrou queda de 3,9% em relação a 2011. Para a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), haverá uma leve recuperação e serão vendidas, até o final desse ano, 65 mil máquinas, o mesmo desempenho do ano passado. Em algumas regiões, como no Mato Grosso do Sul, a estimativa é de que o aumento nas vendas chegue a 20% nesse segundo semestre.

Carne mais cara

Enquanto agricultores comemoram os preços recordes, avicultores e suinocultores brasileiros já se preparam para enfrentar uma crise também recorde. Como praticamente toda a alimentação desses animais é feita com rações à base de soja e milho, o aumento no preço das commodities reflete-se diretamente no custo de produção.

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Pequenos produtores de suínos são os que mais sofrem com a valorização da soja, base da alimentação desses animais

“Cerca de 80% do custo de uma ave ou um porco é gasto em farelo de soja e milho”, diz Sávio Pereira, do Ministério da Agricultura. O farelo de soja, por exemplo, subiu 100% em relação ao ano passado. Segundo a Associação Paulista de Avicultura (APA), no setor avícola isso deve gerar uma queda de 15% da produção.

Situação ainda pior será vivida pelos suinocultores. Na avicultura dois meses são suficientes para ajustar o mercado, pois um frango pode ser comercializado em cerca de 40 dias. Um porco, no entanto, exige do produtor no mínimo um ano de confinamento e, além disso, a carne suína já enfrentava excesso de oferta e desvalorização. A alta no preço das rações só tornou o cenário mais preocupante para o setor. “Em estados como Santa Catarina, o governo está pensando em adotar medidas como prorrogação de dívidas, subsídios agrícolas e venda de estoque público de grãos”, diz Pereira.

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