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A arte de criar novas tecnologias

Filho do músico Luiz Ramalho e a primo da cantora Elba Ramalho, Geber Ramalho é o retrato da geração que concebeu o Porto Digital

Alexa Salomão, do Recife |

Quando o tema é a indústria brasileira de vídeo games, o nome Geber Ramalho em algum momento vai aparecer. Professor do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco, Ramalho criou em 2000 a primeira disciplina universitária da América Latina voltada ao desenvolvimento de jogos eletrônicos. Participou da fundação e foi sócio até 2007 da Meantime Mobile Creations, empresa referência em jogos para celulares. Foi por dois anos consultor do projeto Motorola, que no início da década serviu de ponto de partida para transformar Recife, em especial o Porto Digital, em referência internacional na produção de games para celulares. Como orientador de mestrado, não apenas formou uma geração de pesquisadores como ajudou a criar empresas como a D'accord, que já teve um de seus jogos entre os cinco mais vendidos Apple Store. Quando lhe perguntam por que tanta dedicação a uma atividade quase banal, ele não vacila: “Temos que olhar para os talentos e os negócios da nova economia”, diz Ramalho. “Games estão nessa categoria.”

Jorge Luiz Bezerra
“Temos que olhar para talentos e negócios da nova economia: games estão nessa categoria”, diz Ramalho, acadêmico com pós-doutorado em TI dedicado a jogos eletrônicos


Ramalho faz parte do grupo de acadêmicos nordestinos que decidiu quebrar os velhos paradigmas da academia. Não se dedica à pesquisa pura, não dá aula dissociada do mercado e acredita que um dos papéis da universidade é usar o conhecimento para criar formas modernas de desenvolvimento econômico. Seu perfil multicultural, multimídia e global é o retrato dos profissionais da área de tecnologia que ajudaram a criar o Porto Digital e que agoram miram na economia criativa.

A matemática da arte

O gosto pela tecnologia e pelos jogos eletrônicos não veio na infância, como ocorre com a maioria das pessoas que terminam trabalhando nessas áreas. A convivência estreita que lhe marcou a infância deu-se com a música. Geber é filho de Luiz Ramalho, que por sua vez é primo de Elba Ramalho. Quando criança, em João Pessoa, cidade onde nasceu na Paraíba, aprendeu a tocar violão e viveu cercado de artistas e músicos que freqüentavam regularmente a casa paterna. “Cresci num ambiente musical”, diz Ramalho. “E por anos vivi o dilema entre a arte a tecnologia.”

Venceu primeiro a inclinação pela matemática. Aos 17 anos, mesmo tendo uma banda, Ramalho ingressou no curso de engenharia elétrica, em Campina Grande, outro pólo de geração de novas tecnologias do Nordeste, localizado no interior da Paraíba. No último semestre do curso, vacilou: ficou tocando guitarra e violão, confuso sobre qual caminho seguir. Foi quando conheceu Wilson Guerreiro Pinheiro. “Wilson era mestrando em tecnologia e música – e melhor, era violonista”, diz Ramalho. “Percebi que arte e tecnologia podiam caminhar juntas.”

Na tentativa de manter o caminho do meio entre dois talentos, Ramalho fez mestrado em inteligência artificial na Universidade de Brasília. Sua pesquisa dedicava-se a computação sônica. Depois, aprofundou completou um doutorado e pós-doutorado na Pierre et Marie Curie (Paris VI) na França, novamente associando música e tecnologia. Em janeiro de 1997, entrou para a Federal de Pernambuco. Foi lá, um ano depois, que descobriu o universo dos vídeo games. Dois alunos haviam iniciado uma pesquisa sobre o tema e precisavam de ajuda. “Muita gente torcia o nariz para a ideia, mas não tive o menor preconceito”, diz Ramalho. “Percebi logo que se você entra nessa área, precisa colocar uma placa na porta dizendo ‘não há vagas’ porque chove gente interessada.”

Academia e mercado

Um dos grandes diferenciais de Ramalho foi ter trabalho desde o começo lado a lado com as empresas. A disciplina voltada ao desenvolvimento de jogos eletrônicos, por exemplo, nasceu de um apelo de Alexandre Brasil e Débora Aranha, fundadores da primeira empresa de jogos eletrônicos de Pernambuco. “Alexandre e Débora me procuraram para dizer que os recém formados chegavam muito verdes nessa área”, diz Ramalho. “Entendi que havia uma demanda externa por esse profissional – não inventei o curso da minha cabeça.” Depois de avaliar a possibilidade criar a disciplina apresentou uma contraproposta aos empresários: “Propus que participassem como professores”, diz ele. “Hoje metade das disciplinas do curso são ministradas gentilmente por desenvolvedores do mercado de tecnologia.”

Na visão de Geber, mercado e academia precisam unir esforços e não viver em campos opostos como ocorre entre a maioria das empresas e instituições de ensino no Brasil. “Há um falso dilema nessa discussão”, diz Ramalho. “A pesquisa acadêmica não pode ocorrer desconectada do mercado. Por experiência eu vi que os melhores problemas que fazem a academia avançar são trazidos justamente pelo mercado.”
 

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