A máxima da última fábrica de vinil: há comprador para tudo

Renascida em 2009 depois de fechar em 2007, Polysom, a única do gênero na América Latina, vê interesse de jovens pelo formato

Patrick Cruz, iG São Paulo | 23/05/2011 05:29

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Foto: Divulgação Ampliar

O empresário João Augusto Ramos: "nossos profissionais são verdadeiros gênios"

Eis “a grande verdade dos tempos modernos”, segundo a definição do empresário João Augusto Ramos: há comprador para tudo. No momento em que até o CD sentia o golpe da música distribuída pela internet, o dono da gravadora Deckdisc entregou-se à indelével verdade por ele atestada – e com essa máxima em riste, ele comprou uma fábrica de discos de vinil. A operação acaba de completar dois anos. Se há comprador para tudo, os consumidores de discos de vinil agora levam para casa os da Polysom, a única fabricante do gênero que restou viva na América Latina.

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Os pessimistas dirão que a Polysom, localizada em Belford Roxo, no Rio de Janeiro, retomou os trabalhos com 11 pessoas, mas que hoje sete dão conta de sua linha de produção. Dirão também que da fábrica – que, até ser adquirida, estava fechada desde outubro de 2007 – podem sair até 28 mil LPs e 12 mil compactos por mês, mas que ela ainda roda com capacidade ociosa.

Mas João Augusto os refutará com uma lista de potenciais clientes na Argentina, Chile, Colômbia e Peru, todos interessados em encomendar vinis da Polysom. Dirá ele também que a Deckdisc é apenas mais uma entre as clientes da fábrica. Ela fabrica para quem quiser fazer negócio – caso da EMI, que encomendou uma edição limitada, de mil cópias, de cada um dos discos lançados pela Legião Urbana, grupo de vendas de discos notoriamente altas.

“No mercado americano, que é o único que tem estatísticas para isso, o crescimento do vinil tem sido de 37% ao ano”, disse o empresário ao iG. E ele ainda pondera: essa estatística só é medida na boca dos caixas das lojas físicas. “O mercado americano vende cerca de quatro milhões de discos de vinil por ano. Mas quando se faz a pesquisa diretamente nas fábricas de vinil, verifica-se que o número certamente é superior a dez milhões”, afirma. “Os discos vendidos no mano a mano, nos shows e em outros locais alternativos não são computados”. Guardadas as proporções dos mercados brasileiro e norte-americano, por que não estaria acontecendo cá algo parecido com o que ocorre lá?

Além de econômica, a decisão de João Augusto de comprar a Polysom teve motivação afetiva. O empresário, um experimentado executivo da indústria fonográfica, começou no ramo quando o vinil era o formato dominante. A paixão não o cega, e ele sabe que o vinil não poderá superar o CD em vendas novamente. “Mas o contingente jovem que está comprando e ouvindo vinil é assustador”, afirma. Estaria aí uma chave para a perenização do formato, que não dependeria exclusivamente, portanto, das compras feitas por colecionadores, saudosistas e DJs profissionais.

A Polysom ainda é deficitária. João Augusto credita à alta carga tributária, sempre ela, o afastamento de clientes potenciais. “Os impostos chegam a representar 72% de nosso preço final”, afirma ele. “Já reduzimos tudo o que podíamos, mas esses custos tributários são implacáveis”. Na loja virtual da Polysom, há títulos à venda por R$ 16, mas também por R$ 85. Um vinil de “Chiaroscuro”, disco da cantora Pitty, uma das artistas do catálogo da Deckdisc, sai por R$ 75. Na loja virtual Submarino, a versão em CD da mesma obra estava à venda no último fim de semana por R$ 19,90.

Foto: Divulgação

Cortador de bordas de discos de vinil da Polysom

Existe um esforço para sensibilizar governos estadual (que trata do ICMS) e federal (arrecadador do IPI) para que seja amenizada a carga de impostos sobre a única fábrica de discos de vinil da América Latina. O impacto sobre a arrecadação seria ínfimo, argumenta João Augusto. “É muito doloroso operar no vermelho por tanto tempo”.

Mas o barco segue. A Polysom tem investido para fazer discos de qualidade comparável às melhores fábricas do mundo, diz o empresário. Os sete profissionais da fábrica podem soar como um número pequeno, mas são, nas palavras do patrão, “verdadeiros gênios”. E o faturamento, se ainda é inconstante, está dentro do que se supõe para esse estágio do renascimento da Polysom. “A companhia mal saiu do seu primeiro estágio de operações”, afirma João Augusto. Há, afinal, comprador para tudo.

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