Dudalina gasta R$ 1,2 milhão contra produtos piratas

Por Murilo Aguiar - iG São Paulo* | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Empresa contratou especialistas no Brasil, Peru e Paraguai para desmantelar processo de falsificação das peças; com valor de uma camisa verdadeira compra-se até seis falsas

A camisaria catarinense Dudalina a cada dia que passa ganha mais espaço no mercado de moda brasileiro. No entanto, com seis fábricas, mais de 86 lojas abertas no País e prestes a inaugurar a segunda unidade no exterior, o sucesso da companhia entre os brasileiros também trouxe uma consequência negativa. A Dudalina, usada por personalidades como Graça Foster, presidente da Petrobras, e apresentadores de TV, é hoje a marca de moda nacional mais pirateada no comércio popular do País.

A empresa, dirigida por Sônia Hess, já desembolsa em torno de R$ 1,2 milhão por ano para combater a falsificação do seu produto, que se tornou sonho de consumo de uma classe consumidora que não tem condições de pagar a média de R$ 320 por uma camisa. No mercado da pirataria, as mesmas peças saem por preços que variam de R$ 50 a R$ 100 – é possível comprar seis cópias com o valor pago por uma peça legítima. “Não tenha dúvida, nenhum consumidor é enganado. As pessoas sabem que têm um produto falsificado absurdamente mal feito, de baixa qualidade e extremo mau gosto”, diz Rui Hess, diretor de varejo da Dudalina, sobre quem compra as chamadas “réplicas”.

Ambulante vendendo camisas piratas da Dudalina na Rua José Paulino, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. Foto: Sérgio BrancoAs camisas sociais originais custam em média R$ 320, enquanto as piratas são vendidas por R$ 50 a R$ 100. No caso das polos, preço chega a R$ 25. Foto: Sérgio BrancoCamisas masculinas pirateadas da Dudalina são comercializadas por R$ 50 a R$ 100 no comércio popular de São Paulo . Foto: Murilo Aguiar/iGSonia Hess, presidente da Dudalina: R$ 1,2 milhão por ano para combater pirataria. Foto: DivulgaçãoA jornalista Carla Vilhena usando Dudalina em visita à loja da marca . Foto: DivulgaçãoLoja oficial da Dudalina. Foto: DivulgaçãoLoja oficial da Dudalina. Foto: Divulgação

Na tentativa de eliminar os produtos ilegais, que são fabricados tanto no País quanto em países asiáticos e latino-americanos, a empresa contratou escritórios de advocacia no Brasil, Peru e Paraguai, além de investigadores para desmantelar o processo. “Montamos uma estrutura absurda. Temos uma equipe que cuida somente de internet. Eliminamos, aproximadamente, 100 sites irregulares por dia”, conta Rui Hess. Nas ruas, segundo o diretor, as apreensões diárias variam de 300 a 3.500 peças entre os distribuidores e ambulantes.

Dudalina nas calçadas

Apesar de todo o esforço, a camisa falsificada da Dudalina é hoje o produto têxtil com maior demanda nos camelôs e stands do comércio popular, segundo os próprios vendedores. Basta passar pelas proximidades da Rua 25 de Março, no centro de São Paulo, para que você seja laçado por um desses agentes. De pé, com um pequeno álbum nas mãos, oferecem os produtos das fotografias. 

Na rua Barão de Duprat, no centro da capital paulista, João*, sócio da loja, fica de pé, com um desses livretos plastificados, como uma espécie de catálogo. “Réplica da Dudalina, senhora? Igualzinha a original, com tecido bom”, anuncia. Assim que consegue atenção e após o “vem comigo”, ele sai de cena. A loja indicada por João fica na praça de alimentação de uma galeria tomada por vendedores chineses.

Divulgação
Rui Hess de Souza, diretor de varejo da Dudalina

Apenas alguns modelos são expostos, mas o portfólio completo está no catálogo original da Dudalina. “É idêntico, olha. Escolhe o modelo que eu pego aqui. O tecido é bom, a costura é boa. Qualquer problema traz aqui que eu troco para você”, diz Pedro*, dono da fábrica. Ao contrário da maioria das falsificações, não se trata de fabricação chinesa, neste caso.

Com loja instalada, a pergunta é quase óbvia. “Não dá problema vender réplica assim, não?”. A resposta de Pedro é rápida: “Se for dar problema para cada um que faz isso por aqui vão prender o mundo inteiro antes de mim”.

Entre as camisas, cada uma custa R$ 100 e as polos saem por R$ 75. “É réplica idêntica, não é imitação”, reforça Pedro, ao fazer propaganda da Dudalina vendida na sua loja.

O preço é mais alto do que o praticado em outros endereços, como no Bom Retiro ou no Brás, onde praticamente se tropeça nas pilhas de camisas da Dudalina. Os camelôs esparramam as peças falsificadas com a marca Dudalina pelas calçadas das ruas principais desses dois centros de comércio popular.

As mulheres são as que mais compram nesses endereços paulistanos – seja para o próprio uso ou para revender no interior de São Paulo e em outros Estados. Se o modelo estiver em falta, o camelô rapidamente dá um cartão de visitas ao interressado e orienta para que entre em contato por telefone. Ao sinal de fiscalização, as mercadorias são enroladas em panos e seus donos desaparecem por ruas estreitas ou galerias. Passado o perigo, volta a invasão de Dudalina – as cópias são bem cuidadas, com etiquetas bordadas, e até os sacos onde as peças são guardadas têm a logomarca da empresa. 

Já na região da 25 de Março, prevalecem os jovens no estilo mauricinho entre os compradores das cópias da Dudalina. Os rapazes levam camisas piratas aos montes. “Só tenho isso de Dudalina aqui, não vai dar para hoje”, diz o comerciante Pedro, apontando para uma pilha que deve somar pouco mais de 150 peças.

Para o diretor de varejo da Dudalina, o comércio grande e escancarado de produtos de piratas se beneficia da fraca atuação do governo no combate ao delito. “A ação é limitada, quase que incentivadora da ilegalidade. Na prefeitura de São Paulo chega a ser um absurdo a intenção declarada à informalidade”, observa Rui Hess. O executivo alerta para as consequências deste tipo de comércio. “Isso reflete proporcionalmente na violência da cidade. A 25 de Março é um processo vergonhoso no País. Não há o que fazer. O governo da cidade simplesmente ignora os apelos da legalidade”, acusa Hess.

Segundo o executivo, conseguir apoio das autoridades é justamente o maior desafio na trajetória contra a pirataria têxtil. Hess diz que já soube de casos em que o juiz deu ganho de causa ao contraventor pela condição social em que ele "estava embutido na sociedade", condenando a empresa que teve seus produtos falsificados. “Esse é o estado da justiça no Brasil. É uma coisa que foge a qualquer condição de bom senso. Nós temos de lutar apesar disso, mas é uma situação extremamente ruim”, comenta.

Tecnologia anti-cópia

Sem o apoio necessário do governo para a guerra que travaram contra a pirataria, a empresa decidiu aplicar nas etiquetas de seus produtos uma marca de segurança. Trata-se de uma linha holográfica que não pode ser copiada (segundo a direção da camisaria). A proposta é que o consumidor pegue o produto e consiga identificar se trata-se de uma peça original ou pirata.

Para o diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT), Fernando Pimentel, as marcas têm o direito de exigir uma melhoria das ações das autoridades. “Este é um movimento que cada vez mais vai ganhar uma dinâmica relevante dentro da indústria da moda. Tudo aquilo que a marca carrega é o intangível, que cada vez mais gera valor e que, se for destruído por uma cópia, você pode trabalhar feito 12 Hércules que não vai chegar a lugar nenhum”, diz ele.

De acordo com Pimentel, a estimativa é de que cerca de R$ 500 bilhões a R$ 800 bilhões estejam circulando de maneira ilícita no País, o que inclui a pirataria de diferentes tipos de produtos. “A legislação tem de ser clara e contundente e as ações coercitivas e corretivas têm de ser muito rápidas e exemplificadoras”, aponta Pimentel. “Acabar com o mal, dificilmente vai se acabar, mas, sem dúvida nenhuma, se você tem uma ação que seja correta, dentro da lei e que atenda aos objetivos de ser um fator inibidor de outras ações desta natureza, isso vai fazer muita diferença”, completa.

Sérgio Branco
Camisa falsa da Dudalina - Para evitar a pirataria, a marca gasta R$ 1,2 milhão com advogados e investigadores

Culpa de quem compra

Pimentel lembra que se há um mercado pirata é porque existe a demanda por parte dos consumidores. Além das ações do governo em conjunto com as empresas para desmantelar o esquema de falsificação, seria necessário conscientizar a população que adquire produtos piratarias. “A sociedade tem de dizer não ao produto pirata, porque algum cidadão brasileiro, algum companheiro ou até algum amigo mesmo pode estar perdendo o emprego por causa disso”, aponta o diretor da Abit.

Sobre a Dudalina ter se tornado uma marca de desejo e, por isso, alvo preferido da pirataria, Rui Hess lamenta: “Sentimo-nos extremamente desconfortáveis com o fato, porque de certa forma colaboramos com uma cadeia doentia da sociedade que temos de exterminar. Estamos muito mais angustiados pela condição de que se alimenta uma cadeia dessas do que lisonjeados por ser um produto de desejo”, fala o diretor.

Volta por cima

Entre as marcas brasileiras de moda que também já estiveram no foco do mercado pirata, a Carmim é um dos exemplos que conseguiu vencer o ciclo e ainda se beneficiou com isso. Quando se tornou objeto de desejo de um público que não fazia parte do grupo de consumidores usuais da marca e passou a ser fortemente falsificada, a Carmim optou por concentrar todos os esforços não só na busca e apreensão dos produtos piratas, mas também em modificar a própria produção das peças.

“[A nossa resposta] foi aumentar a agilidade de criação das peças, a quantidade de artigos exclusivos, estampas exclusivas e modelagens diferenciadas, justamente para inibir este tipo de coisa. Quando você tem um produto mais elaborado, a falsificação começa a ficar inviável”, conta o diretor de marketing da empresa, Reynaldo Pasqua.

Com a estratégia, os piratas passaram a não conseguir acompanhar a produção das peças da Carmim e os produtos ficaram cada vez mais visivelmente diferentes dos originais. “As pessoas também não querem comprar um produto falsificado que todo mundo reconhece que é falso”, diz Pasqua.

Além de menos pirateadas, as roupas da Carmin começaram a ser melhor elaboradas, com diferentes ferragens, etiquetas, materiais nobres, couros de maior qualidade e de diferentes cores e texturas. “Isso acabou sendo um impulsionador de mais trabalho e agilidade, que teve um fim positivo para a marca. Foi uma motivação para melhorar toda a parte de materiais nobres dos produtos e estilo de modelos”, observa o diretor.

* Os nomes foram alterados para preservar a identidade das fontes

*Colaborou Bárbara Ladeia

Leia tudo sobre: dudalinamodapiratariaindústria têxtilabitcarmimmaislidas

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas