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Com um forte crescimento de vendas em plena era dos formatos digitais, o bom e velho vinil mostra que é muito mais do que um item de nostalgia ou fetiche para uma geração que cresceu ouvindo compact discs

Brasil Econômico

O vinil não está morto. Longe disso, pesquisas recentes mostram que o velho formato vem (re)encontrando o seu lugar no mercado de música.

Cortador de bordas de discos de vinil da Polysom
Divulgação
Cortador de bordas de discos de vinil da Polysom

De acordo com a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (em inglês, IFPI) a venda de LPs atingiu, no ano passado, o seu ponto mais alto desde 1997, quando foram lançados recordistas de vendas como Ok Computer, do Radiohead, e MMMbop, do Hanson. De acordo com a IFPI, as vendas globais de discos em vinil chegaram a US$ 171 milhões em 2012, um crescimento de 52% ante 2011. Já a pesquisa SoundScan, da Nielsen mostra que, em 1993, nos Estados Unidos, foram vendidas meras 300 mil cópias. Quase vinte anos depois, esse número começou a crescer novamente, passando de 1 milhão de unidades em 2007, para 4,6 milhões de unidades no ano passado.

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Não existem ainda dados oficiais sobre o aumento das vendas de vinil no país, mas para o jornalista e editor do blog Trabalho Sujo, Alexandre Matias, ainda que não tenha o apelo de massa que já está acontecendo nos Estados Unidos e na Europa, o álbum em vinil está cada vez mais vivo no Brasil. “Só o fato da Polysom ter voltado a funcionar já é um bom indício disso”, comemora.

Única fábrica de LPs da América Latina, depois de enfrentar inúmeras dificuldades - e de fechar as portas em 2007 - a Polysom, localizada no município de Belford Roxo, Rio de Janeiro, foi totalmente remontada e preparada para retomar a produção em série em 2010. "No ano passado, foram produzidos 24 mil LPs e 12 mil compactos. Isso representa cerca de 15% da capacidade fabril da Polysom, mas a tendência é de alta, uma vez que se prevê que a produção deve crescer cerca de 40% ao ano a partir de 2013. É o mesmo percentual de crescimento no mundo", afirma João Augusto, dono da gravadora Deck e consultor da Polysom.

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No catálogo da Polysom, além dos procuradíssimos “A Tábua de Esmeralda", de Jorge Ben, e "Todos os olhos”, de Tom Zé, a discografia de artistas como Los Hermanos e Nação Zumbi.

Nem o preço do vinil - em geral, o triplo do preço do cd - tem afastado os compradores.

João Augusto explica a diferença de preço entre os dois formatos: “O vinil é uma produção artesanal, de baixas quantidades e que exige insumos de qualidade. Quando se faz a planilha de custos, somam-se a essas características os impostos altíssimos que temos no Brasil. E assim a cadeia de custos segue, sempre aumentando progressivamente, até chegar ao consumidor a preços quase proibitivos”.

Em sua última viagem, o DJ Dodô Azevedo trouxe duas malas extras de 32 kg só de vinis comprados em Londres, Barcelona e Paris. “Estava na Europa quando lançaram o disco novo do Daft Punk. Os vinis sumiram da prateleira em 24 horas e a gravadora precisou emitir um comunicado explicando teria que repor o lançamento, pois não esperava tanta procura”, diz, acrescentando que a procura pelas bolachas não se limita a velhos colecionadores. “A garotada de 20 anos está comprando”.

Para o jornalista e crítico musical Carlos Eduardo Lima, a indústria musical precisa faturar e o vinil é a nova frente. “O nicho está crescendo, os maiores lançamentos têm versão em vinil, geralmente a mais cara”, observa. “Além disso, temos as reedições em CD de luxo - geralmente duplas, triplas, caixas. É um grande fetiche para quem cresceu na era do CD”, diz.

Alexandre Matias concorda que há o aspecto de fetiche. “Mas acho que tem a ver com o movimento oposto ao da música digital”, pondera. “O vinil pede tempo pra ouvir música, em contraste ao MP3, por exemplo, que permite que você ouça música no computador, no celular, em movimento. O vinil exige que você pare para ouvir música”, diz.