Estilista dribla falta de mão de obra com tricô feito por presos mineiros

Por Klinger Portella - iG São Paulo |

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Raquell Guimarães, da Doisélles, exporta 70% da produção de detentos de Juiz de Fora (MG) para países como Estados Unidos, Japão e França

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Raquell e o grupo de detentos: peças vendidas no mercado internacional

O que cerca de 20 detentos fariam, reunidos, com tesouras e agulhas nas mãos? Se você pensou em rebelião, errou. Na penitenciária mineira Ariosvaldo Campos Pires, em Juiz de Fora, o grupo se reúne diariamente para fazer tricô e crochê. E a produção, que chega a 5 mil peças por coleção, tem como destino principal o mercado externo.

O trabalho começou em 2009, em uma parceria da empresa Doisélles, da estilista Raquell Guimarães, com a Secretaria de Defesa Social do Estado de Minas Gerais, chamado Projeto Flor de Lótus. Com a demanda crescente pelos produtos da marca no exterior, a empresária precisou intensificar a produção, mas esbarrou no problema da falta de mão de obra. “Só tinha encontrado senhoras sem um comprometimento comercial com o ofício”, diz. A proposta de contar com o trabalho dos detentos foi a que mais emocionou Raquell. “Eles tem tempo, disposição e um desejo enorme de se envolverem com o projeto.”

Atualmente, a linha de produção da Doisélles na penitenciária conta com 20 homens. Todos de agulha e linha nas mãos. E já há um processo seletivo para 15 novas vagas, já que alguns dos trabalhadores atuais ou estão de saída do presídio ou serão transferidos.

O detento que é aprovado para o projeto tem uma remuneração proporcional à sua produtividade. “O trabalho do preso é regido pela Lei de Execução Penal. Ele recebe três quartos de um salário mínimo e tem uma redução de pena de um dia para cada três dias trabalhados”, diz Helil Bruzadelli, superintendente de Atendimento ao Preso da Secretaria de Defesa Social.

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Raquell: "sustentabilidade de recursos humanos"

O salário dos detentos varia de acordo com a produção e as horas trabalhadas. O pagamento é feito via Estado ao término de cada mês, podendo ser sacado diretamente em um caixa eletrônico do presídio. “25% do valor recebido vai para o pecúlio, que eles recebem corrigido quando saírem, e o restante vai para a mão deles”, completa Raquell.

A produção das peças de tricô e crochê tem como principal destino o mercado externo, que responde por 70% do total produzido. A marca tem showroom em países como Japão, França e Estados Unidos. No mercado interno, as peças são distribuídas a aproximadamente 70 representantes em todo país.

No ano passado, as peças produzidas pelos detentos de Juiz de Fora serviram de decoração para as festas de Réveillon do Hotel Copacabana Pallace, no Rio de Janeiro. Foram 1.600 suportes de velas, feitos de vidro e revestidos de crochê.

Raquell estima que, ao menos, 100 presos já passaram pelos trabalhos artesanais na penitenciária mineira. Um deles, CélioTavares, que cumpre pena em regime semiaberto, hoje, divide as aulas em uma universidade com a coordenação do departamento financeiro da Doisélles. “E ele foi preso por roubo”, conta a empresária.

“Hoje, fala-se muito em sustentabilidade para recursos naturais. O nosso, é uma sustentabilidade de recursos humanos. São pessoas que não teriam oportunidade em lugar nenhum, mas agora tem uma reciclagem completa de vida”, completa Raquell. “Provamos que dando armas a eles, como agulhas e tesouras, eles podem fazer tricô.”

Veja a linha de produção da penitenciária:

Projeto Flor de Lótus from doisélles on Vimeo.


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