De transporte a exploração de petróleo, Brasil ganha espaço na Maersk

Empresa, cujo principal negócio ainda é logística, planeja aumentar sua presença no país; para atingir este objetivo, vai destinar 6% dos US$12 bi por ano em investimentos globais

Brasil Econômico - Ana Paula Machado |

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No Brasil há mais de 30 anos como um dos principais players de transporte marítimo, a Maersk agora está focada em um negócio mais “profundo”. A companhia vai investir pesado na exploração e apoio no segmento de petróleo e gás. Em visita ao Brasil, o presidente mundial da empresa, Nils S. Andersen, disse com exclusividade ao BRASIL ECONÔMICO que o país está entre os cinco maiores mercados em que a companhia atua. Além disso, as recentes descobertas de jazidas em águas profundas são credenciais para os altos investimentos no setor.

Hoje, a Maersk tem a concessão para exploração em três regiões dentro do pré-sal. Segundo Andersen, a companhia já começou a perfuração em dois postos na região de Santa Catarina. “Em seis meses começaremos a perfurar o terceiro. Essa é uma área que é a grande aposta para o país e também para as nossas operações mundiais”, disse o executivo.

A importância do Brasil é tamanha que cerca de 6% dos investimentos anuais, de US$ 12 bilhões, serão aplicados por aqui. Isso não somente no setor de petróleo e gás. Logística, o maior negócio da companhia, também receberá boa parte dos recursos. “Acreditamos que existe grande oportunidade na área de infraestrutura portuária no país. Há muito espaço para crescer. Em 2013, vamos começar a operar o terminal de contêineres no Porto de Santos (SP) e, em dois anos, ele terá uma eficiência equivalente aos portos de Roterdã (Holanda) ou os japoneses.”

A Maersk é uma das sócias da Brasil Terminais Portuários (BTP) que investiu R$ 1,8 bilhão na construção do terminal de contêineres na margem direita do porto santista. O terminal da BTP, que é uma joint venture entre a APM Terminals (da Maersk) e a Terminal Investment Limited (TIL), deverá ter 60% dos recursos financiados junto ao IFC, braço do Banco Mundial para o setor privado. O restante é capital dos sócios do empreendimento.

A maior parte dos investimentos foram gastos na construção do terminal. A área da BTP era o antigo “lixão da alemoa” e, por isso, a companhia teve que recuperar grande parte do local. Em equipamentos, a companhia investiu cerca de R$ 360 milhões e além dos oito portêineres encomendados, a companhia também adquiriu 26 transtêineres (máquinas de movimentação dos contêineres em terra). A BTP está inserida numa área total de 490 mil metros quadrados, na margem direita do Porto de Santos.

Além em terminais, outra frente de investimento da Maersk é em frota para atender a rotas que passam pelo país. A companhia, em conjunto com a Hamburg Süd, opera grandes navios conteineiros, com capacidade de transportar 9 mil TEUs (unidade para contêineres de 20 pés). Ao todo a frota conjunta é de 26 embarcações, sendo 16 da Maersk. A companhia investiu US$ 2 bilhões nesses supernavios. “São equipamentos desenvolvidos para a operação na costa da América do Sul”, disse Andersen que comanda uma companhia que detém 16% de participação do comércio mundial.

Qual é a maior aposta da Maersk no mundo?

Nós temos negócios em nível global e, no ano passado, tivemos uma receita de US$ 60 bilhões. A área mais importante atualmente é o transporte de contêineres. Somos líderes mundiais no segmento e investimos para manter essa liderança.

A frota da companhia é composta por quantos navios?

Nossa frota é hoje de 600 embarcações e estamos aplicando US$ 6 bilhões na renovação. Temos uma encomenda de 20 navios com capacidade de transporte de 18 mil TEUs e outros 16 desenhados exclusivamente para a operação no Brasil, ao custo de US$ 2 bilhões.

E qual o segundo setor que se destaca na estratégia da Maersk?

Nossa segunda maior aposta é o setor de de óleo e gás. Nessa área somos relativamente novos. Somos uma empresa de médio porte, com operações no Mar do Norte, Escócia, Reino Unido, Dinamarca e na Nigéria. Nossa produção diária é de 300 mil barris. Entretanto, esse segmento é o que acreditamos de maior potencial.

Onde a Maersk tem áreas de exploração de petróleo e gás?

Temos áreas na África e nos Estados Unidos. Essas serão explorações de águas profundas que devem começar a produzir entre 2014 a 2018. No Brasil, nos últimos cinco anos investimos US$ 3 bilhões em aquisição de empresas, áreas de exploração, localizadas na área do pré-sal. Aqui, também somos considerados pequenos produtores. Dentro desse setor, também temos operações em serviços offshore. Hoje, operamos uma frota de 18 navios alimentadores para plataformas.

Os investimentos neste setor, feitos pela empresa, são muito altos?

São bastante elevados. Para se ter uma ideia, uma embarcação dessa pode custar até US$ 100 milhões. Alugamos esses equipamentos para operação de terceiros. Agora, dentro desse conceito, estamos construindo plataformas mais modernas de perfuração para águas profundas.

E qual o investimento?

São sete, a um custo total de US$ 4bilhões. Por enquanto, essas plataformas não devem vir para o Brasil. Temos conversado com a Petrobras, que hoje é o nosso maior cliente nesse segmento no país, e também com outras empresas petrolíferas. Temos um desejo de aumentar esses serviços no Brasil e esses equipamentos poderão proporcionar isso.

O sr. destacaria algum outro segmento importante para a estratégia da Maersk?

O terceiro setor relevante para a companhia é o de operação de terminais portuários. Hoje, administramos 60 terminais pelo mundo e isso nos dá uma condição de estarmos entre os três grandes mundiais. No Brasil, temos já em operação dois terminais de contêineres, um no Porto de Pecém, em Fortaleza e outro em Itajaí, em Santa Catarina. No ano que vem, estaremos concluindo as obras para operação do terminal em Santos. Foi um projeto bem animador e nos próximos cinco anos, somente com a operação desse terminal, a movimentação do porto vai aumentar cerca de 50%.

Então as apostas mundiais são as mesmas para o Brasil?

Sim. Estamos no país há mais de 30 anos e esperamos aumentar o nossos negócios por aqui. Hoje, o Brasil está entre os cinco maiores mercados onde atuamos.

Qual o nível de investimentos que a empresa tem destinado ao Brasil?

Dos US$ 12 bilhões investidos por ano no mundo, nos próximos cinco anos, vamos aplicar na América Latina US$ 9 bilhões e o Brasil deverá receber a maior parte dos recursos. E não é somente em transporte marítimo. Estamos com projetos fortes na área de óleo e gás. Temos áreas para exploração de petróleo aqui. Já temos dois postos em perfuração e nos próximos seis meses vamos iniciar a terceira etapa de perfuração.

Mas a própria Maersk vai usar essas plataformas para extrair petróleo ?

Não, essas superplataformas que estamos construindo não deveremos usá-las em nossas áreas. A ideia é alugá-las para grandes petroleiras.

Onde estão sendo construídas essas plataformas?

Em estaleiros da Ásia. Aqui não seria viável essa produção. O custo é muito alto. Isso porque a maioria das peças são importadas dos Estados Unidos, além disso, os americanos e os asiáticos já tem a tradição e a tecnologia necessária para a construção de equipamentos modernos. Quem sabe no futuro, isso possa ser uma realidade no país.

O seu maior negócio por aqui ainda é o transporte marítimo e a operação de terminais portuários. Contudo, nossos portos ainda não são os mais eficientes do mundo. Como driblar isso e crescer nesse setor?

É, no Brasil os portos não são ruins, mas estão longe de ter a eficiência nos padrões globais, como os terminais holandeses e japoneses, por exemplo. Temos problemas de infraestrutura ainda para receber grandes navios. Dentro do nosso negócio, tentamos minimizar isso operando terminais de forma mais voltada para os padrões internacionais. No ano que vem, quando o terminal do Porto de Santos entrar em operação, será o nosso maior local de transbordo de carga no país. Isso pode aumentar muito nossa eficiência.

E vai dar para atingir um nível parecido com a operação em portos do exterior?

A ideia é que em dois anos de operação já alcancemos um nível semelhante ao de portos europeus e asiáticos. Para isso, estamos investindo pesado nesse projeto. Além de uma estrutura adequada, os equipamentos são modernos e isso pode nos ajudar nessa busca por eficiência.

O sr. falou em dificuldade para receber navios maiores. É um sonho muito distante os portos brasileiros serem aptos para a atracação dos supernavios que a Maersk está construindo - aqueles com capacidade para transporte de 18 mil TEUs?

Um dia talvez será necessária a operação desses equipamentos na costa brasileira. Mas, para isso, temos que ter portos maiores. Hoje, o Brasil não tem condições de receber essas embarcações, por uma série de fatores. Um deles é o calado dos canais de acesso e os berços de atracação.

E já existe demanda para esse tipo de embarcação aqui?

Quando se olha o comércio mundial, as maiores e mais rentáveis rotas, que demandam equipamentos maiores, são as que vão para a Ásia e para a Europa. Se tivéssemos estrutura no Brasil esses navios atracariam nos portos brasileiros uma vez por mês. O comércio por aqui ainda é pequeno em comparação a outros mercados. Por isso, desenvolvemos navios menores que estes, mas com capacidade adequada para a demanda brasileira. Para o país vamos operar embarcações de 9 mil TEUs.

A Maersk também opera navegação costeira no Brasil por meio da Mercosul Line. Como está hoje?

Sabemos que há espaço para crescer no país, mas esse modal não deslancha. Realmente, a cabotagem é um modal com grande oportunidade para o Brasil reduzir, principalmente o trânsito nas grandes cidades, a poluição e as emissões. Operamos há cerca de quatro anos e investimos na compra de navios novos para esse serviço e existe potencial para mais embarcações. Contudo, os custos de operação nesse setor no Brasil são altos principalmente os gastos com combustíveis. O diesel no país é praticamente subsidiado pelo governo, o preço do litro está estável há pelo menos um ano. Enquanto isso o preço do bunker, no mercado internacional, dobrou no mesmo período. Compramos nosso combustível com taxas internacionais, com o preço em moeda americana. Enquanto que o diesel é vendido em Real. Essa situação limita a lucratividade e consequentemente o crescimento do transporte de cabotagem no Brasil. O que isso leva? Ao maior tráfego de caminhões nas cidades e nas estradas brasileiras.

Mas como tornar viável a operação no país diante desse cenário?

Bom, com um trabalho forte junto aos clientes. Temos observado um crescimento na demanda depois que explicamos as vantagens desse tipo de transporte em grandes distâncias. Um exemplo disso é a Phillips que transferiu cerca de 90% de seu movimento para a cabotagem. Ela está instalada em Manaus e transporta os produtos eletroeletrônicos por navios e, além de ser mais segura, a cabotagem tem menor índice de avarias quando comparado com o transporte rodoviário. Isso é uma das grandes vantagens da navegação costeira em cima do caminhão. É um trabalho árduo.

Essa situação é vista em outros países também?

Não. A cabotagem não é realidade em muitos países. E o problema de proteger o transporte marítimo dentro dos países é que não temos muitos investimentos. E isso implica em custo maior. Se fosse um transporte livre a atração de recursos seria maior e teríamos mais empresas prestando esse serviço no país. Mesmo na China e nos Estados Unidos, onde há regras para a cabotagem, a situação não destoa tanto entre os modais de transporte. O problema aqui é o custo. Mas, isso é uma decisão de governo.

E o que o sr. espera do  Brasil nos próximos anos?

A economia, apesar do ritmo menor neste ano, está em franco crescimento. O Brasil, como disse, é um dos cinco maiores mercados que atuamos. Acredito no crescimento do país e queremos desenvolver um negócio viável por aqui no setor de óleo e gás, tanto na exploração como em serviços. Esse é um projeto de longo prazo. Sabemos das dificuldades e da concorrência no mercado brasileiro. Mas, estamos investindo para isso. Também apostamos no crescimento do transporte marítimo e nosso objetivo é alcançar a liderança. Hoje, estamos entre os três maiores players que operam no Brasil. Nosso projeto é ter navios com condições de abrigar principalmente as exportações de empresas frigoríficas.

A Maersk tem uma operação grande nesta área?

No mundo, já somos líderes no transporte de contêineres refrigerados. Esses novos navios que vão operar na costa brasileira, por exemplo, tem uma estrutura maior para o transporte de carnes e produtos refrigerados. Além disso, queremos crescer na operação de terminais portuários. Há no Brasil uma grande demanda reprimida e com o crescimento do país será necessário uma maior eficiência na exportação. Queremos participar disso com terminais mais eficientes em linha com padrões mundiais. Já estamos fazendo isso em Santos e a ideia é expandir cada vez mais para outros portos.

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