Com uma dependência recorde de créditos de bancos internacionais, os países emergentes também desabam diante da crise e agora suas economias reais estão ameaçadas. O Banco de Compensações Internacionais (BIS), espécie de banco central dos bancos centrais, alerta que a crise demonstrou que o modelo de financiamento do crescimento dos países emergentes na última década não foi sustentável e que agora os governos correm o risco de pagar pela dependência que criaram.

O volume de créditos de bancos internacionais aos países emergentes quadruplicou entre 2002 e meados deste ano, atingindo US$ 4,9 trilhões. O volume é recorde, apesar de todas as experiências desastrosas de crises anteriores.

Comparativamente, o Brasil tem uma dependência menor que as economias do Leste Europeu e Argentina. Mas superior à China e outros asiáticos. "Muitos mercados emergentes aparentemente acabaram sendo cada vez mais dependentes de créditos de bancos estrangeiros", alerta o BIS no relatório.

Uma das regiões que mais experimentou esse movimento foi o Leste Europeu, com os países que aderiram à União Européia. Os créditos para a Hungria se multiplicaram por sete em apenas oito anos. Para a Polônia e República Checa, a multiplicação foi de dez vezes. Para a Rússia e Ásia, o volume aumentou em cinco vezes. Não por acaso, a Hungria foi um dos primeiros países durante a atual crise a recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI).

Já a América Latina, por suas contínuas crises, teve um crescimento menor da dependência em relação aos créditos internacionais de bancos. No caso da Argentina, por exemplo, os créditos em 2008 eram metade do volume de 2001.

A conclusão do BIS é que a crise coloca em dúvida a sustentabilidade da dependência de mercados emergentes a créditos de bancos estrangeiros, já que os emergentes podem se tornar mais uma vez vulneráveis diante da crise nesses bancos. A falta de créditos pode ter um impacto em suas economias reais e os mais afetados serão aqueles que financiaram seu crescimento com os bancos mais atingidos pela crise.

No México, Hungria e Polônia, os créditos de bancos estrangeiros representaram 80% do financiamento desses países. Na Argentina e Rússia, a taxa é de cerca de 40%, enquanto no Brasil é de cerca de 20%.

Com a crise, os maiores bancos internacionais promoveram uma reavaliação de sua exposição nos mercados emergentes, com impactos importantes para essas economias. O BIS conclui que o acesso de créditos aos mercados emergentes está condicionado à saúde desses bancos internacionais.

No primeiro semestre, enquanto a crise começava a se alastrar silenciosamente nos países ricos, a constatação é de que os mercados emergentes continuaram a receber empréstimos. O BIS destaca que o crescimento foi menor que nos anos anteriores, caindo de uma alta de 34% em 2007 para 23% em 2008. Mesmo assim, a taxa permaneceu positiva.

De acordo com o BIS, os empréstimos e créditos para os bancos em mercados emergentes adicionaram US$ 117 bilhões a essas economias. No primeiro trimestre, esse volume havia sido de US$ 178 bilhões.

Enquanto bancos americanos ficavam simplesmente sem crédito, bancos brasileiros continuaram a receber recursos cada vez maiores no segundo trimestre do ano. A alta de créditos ao Brasil foi de US$ 21 bilhões entre o segundo e o terceiro trimestres: passou de US$ 167 bilhões ao final de março para US$ 188 bilhões em junho. Esse aumento representou dois terços de toda a alta experimentada pela América Latina.

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