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Fique de olho: num futuro muito próximo, o morango que você comprar no supermercado poderá estar revestido com um nanofilme invisível e comestível, feito de proteínas vegetais. Essa é uma das tecnologias que cientistas estão desenvolvendo no novo Laboratório Nacional de Nanotecnologia para o Agronegócio (LNNA), que está em montagem na Embrapa Instrumentação Agropecuária, em São Carlos, no interior paulista.

O projeto tem financiamento de R$ 8 milhões, dividido meio a meio entre a Embrapa e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) do Ministério da Ciência e Tecnologia. A idéia é que o LNNA funcione como o núcleo tecnológico de uma rede de pesquisas que envolve 15 universidades e 17 centros da Embrapa. Quando estiver completo, no ano que vem, o laboratório terá cerca de 30 máquinas aplicadas à nanotecnologia.

Um dos equipamentos já instalados é o que permite produzir membranas comestíveis para o revestimento de alimentos. Feito com base em proteínas vegetais, como a zeína de milho, a membrana funciona como uma embalagem invisível aos olhos e imperceptível ao paladar. "Com isso você aumenta o tempo de prateleira do produto, sem alterar as propriedades do alimento", explica Luiz Henrique Mattoso, chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Instrumentação e coordenador da Rede de Nanotecnologia Aplicada ao Agronegócio.

Testes com maçãs deixam claro o resultado: após 20 dias, a fruta revestida com a nanomembrana permanece madura, enquanto outra, não protegida, já apodreceu. O mesmo pode ser feito com noz macadâmia, alho, morango, frutas fatiadas e outros produtos perecíveis.

Segundo o pesquisador José Manoel Marconcini, o nanofilme reduz a perda de líquido e a entrada de oxigênio na fruta. A tecnologia, diz ele, já é usada comercialmente nos Estados Unidos, Europa e Japão. Por ser feita de proteínas vegetais, a membrana não oferece risco ao consumidor. O revestimento é feito com a imersão da fruta em um líquido contendo as nanomoléculas.

Escala

A nanotecnologia é uma das áreas de maior interesse científico da atualidade. O termo "nano" refere-se à escala de 1 milionésimo de milímetro - ou seja, 1 milímetro dividido em um milhão de partes, o que permite aos cientistas manipular átomos individuais. Só assim é possível produzir uma membrana tão fina. Um fio de cabelo, por exemplo, tem 100 mil nanômetros de diâmetro.

"Podemos enxergar a natureza numa escala que não se via antes", diz Mattoso. "Isso abre uma série de oportunidades que nos proporcionará um ganho excepcional de competitividade."

Outra tecnologia que os pesquisadores tentam desenvolver é o uso da nanocelulose - a estrutura fundamental da celulose - na produção de plásticos biodegradáveis. Segundo Marconcini, os plásticos biológicos disponíveis no mercado são frágeis demais, o que limita sua aplicação. Com a incorporação da nanocelulose, seria possível fabricar embalagens aos mesmo tempo biodegradáveis e resistentes, com vantagens significativas para o meio ambiente. Seria também uma forma de agregar valor a resíduos vegetais (fontes de celulose) que hoje não são aproveitados no agronegócio.

Uma aplicação direta no campo seria o uso de nanomembranas para liberação controlada de drogas veterinárias ou pesticidas. Por exemplo, uma membrana especialmente desenvolvida para se dissolver apenas em condições específicas ao longo do trato digestivo de um boi ou da superfície de uma planta. "Em vez de uma dose alta de medicamento, podemos dar uma dose menor com a mesma eficiência e menos efeitos colaterais", afirma Mattoso. No caso de pesticidas, seria possível reduzir significativamente o número de aplicações, com benefícios ambientais e econômicos.

O LNNA já está funcionando, mas ainda não foi oficialmente inaugurado. Uma visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a São Carlos está sendo agendada para a cerimônia formal.

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