Por William Schomberg e Jonathan Lynn GENEBRA (Reuters) - As conversas para tentar resgatar um acordo sobre o comércio global continuarão na terça-feira, com os negociadores tentando romper um impasse sobre medidas destinadas a ajudar países pobres a proteger seus produtores rurais contra as importações, disseram ministros.

'Hoje (segunda-feira) foi uma montanha-russa emocional, mas nós voltaremos amanhã (terça) com a forte determinação de prosseguir com as negociações', disse a comissária para a Agricultura da União Européia, Mariann Fischer Boel, a jornalistas depois do oitavo dia de conversas.

'Nós ainda estamos trabalhando', afirmou a representante comercial dos EUA, Susan Schwab, ao deixar a sede da Organização Mundial do Comércio (OMC), à noite.

Os Estados Unidos entraram em confronto com China e Índia na segunda-feira, reivindicando mais acesso a seus mercados, e a União Européia pleiteou novas condições nas negociações da OMC em Genebra, o que parece deixar a Rodada Doha do comércio global novamente distante de uma conclusão bem-sucedida.

O novo entrave no processo se chama 'mecanismo especial de salvaguarda' (MES), com o qual países pobres poderiam proteger seus produtores rurais contra quebras de preços ou aumento excepcional nas importações. Países em desenvolvimento que são exportadores de alimentos, como Uruguai e Paraguai, se opõem a essa ferramenta.

'Estamos muito preocupados com a direção que alguns países está tomando. Fico muito preocupada de que eles ameacem o resultado desta rodada', disse Schwab.

Ela se referia especialmente a China e Índia, que insistem no mecanismo de proteção a seus produtores rurais. As divergências a respeito do MES impedem avanços também em outras áreas, como a abertura dos mercados industriais, e segundo funcionários dos EUA representam a 'maior ameaça' às negociações desde o início da Rodada Doha, em 2001.

Em um telefonema na segunda-feira, a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente da França, Nicolas Sarkozy, compartilharam suas preocupações com o rumo do processo, segundo um porta-voz do governo francês.

A França defende os subsídios europeus a seus produtores e quer uma proteção especial para as denominações alimentares geográficas -- o que beneficiaria seus vinhos e queijos, por exemplo. Já a Alemanha está interessada em mais oportunidades para seus exportadores industriais.

'Há um risco real de que este acordo não seja aceito pelos países europeus se as preocupações de todos os países europeus não forem tratadas', disse o porta-voz de Sarkozy.

Nove países da UE, liderados por França e Itália, formaram uma aliança para exigir que o comissário (ministro) europeu de Comércio, Peter Mandelson, obtenha termos mais generosos, segundo uma fonte do governo italiano.

MARATONA EM GENEBRA

Representantes de cerca de 30 países estão em Genebra desde segunda-feira da semana passada para tentar fechar um acordo sobre a redução de subsídios agrícolas e de tarifas para produtos agrícolas e industriais, de modo a concluir a Rodada Doha do comércio global, lançada em 2001.

Após um começo desanimador, a semana passada terminou com uma sensação geral de progressos -- até que os problemas voltassem a aparecer.

O ministro indiano do Comércio, Kamal Nath, disse a jornalistas que seu país nunca aceitou a proposta apresentada na semana passada pela direção da OMC, mas continuou na negociação na esperança de obter mais concessões dos países desenvolvidos.

'Ainda estou esperando que vejamos algum movimento, ainda estou otimista', disse ele a jornalistas após uma reunião com ministros dos sete principais integrantes da OMC.

Uma prioridade para a Índia é uma redução dos subsídios agrícolas que seja ainda maior do que o corte de 70 por cento proposto para os EUA e de 80 por cento para a União Européia.

Nath também insistiu na necessidade de salvaguardas para pequenos produtores rurais de países em desenvolvimento.

Mas países que mesmo sendo pobres exportam alimentos temem que essas salvaguardas acabem lhes privando de seus principais mercados, que são os outros países em desenvolvimento.

Pela proposta do MES, em alguns casos os países importadores poderiam elevar suas tarifas para níveis acima daqueles definidos no último grande acordo comercial global, a Rodada Uruguai, de 1994.

'Meu país não vai aceitar esses remédios que remontem a um estado pré-Rodada Uruguai', disse o representante de Montevidéu na OMC, Guillermo Valles Galmes.

INDÚSTRIA

Sob pressão para reduzirem seus subsídios agrícolas e as tarifas em mercados como veículos e têxteis, os EUA querem que os países em desenvolvimento ofereçam como contrapartida uma abertura significativa de mercados industriais.

Washington espera que China, Índia e outros aceitem negociações setoriais, em que um grande número de países reduziria a quase zero as tarifas para a importação de diversos setores -- de joalheria a produtos químicos.

Em 2005, numa reunião em Hong Kong, vários membros da OMC apoiaram a idéia de acordos setoriais 'voluntários'.

China e Índia são contra uma cláusula que estimularia os países a participarem de pelo menos duas negociações setoriais, permitindo que fizessem menos cortes em outras tarifas industriais.

Os países desenvolvidos querem negociações setoriais em 'maquinários, químicos e automóveis, nos quais têm uma substancial vantagem de exportações' e por isso pressionam pela adesão de outros países, disse um porta-voz chinês.

(Reportagem adicional de Doug Palmer, Laura MacInnis e Robin Pomeroy)

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