Uma semana após o apagão que atingiu 18 Estados, o Operador Nacional do Sistema elétrico (ONS) revelou ontem que os técnicos têm duas hipóteses para a causa, ambas decorrentes de problemas climáticos. A primeira é a já divulgada possibilidade de raios nas três linhas de transmissão entre Ivaiporã (PR) e Itaberá (SP).

A segunda, considerada mais provável, é que três isoladores das linhas de transmissão tenham entrado em curto-circuito simultaneamente por causa de fortes chuvas e ventos.

"Uma corrente de eventos desse tipo pode ser comparada às casualidades que derrubam um avião. E ninguém deixa de voar por causa disso", disse ontem o diretor-geral do ONS, Hermes Chipp, ao comentar a primeira prévia do documento. O relatório definitivo só será divulgado na segunda-feira. "Ventos, chuvas e as consequências de descargas elétricas ocorrem de maneira aleatória. Seria evitar o impossível", afirmou.

Segundo o ONS, curtos-circuitos são comuns no sistema, mas nunca ocorreram de forma simultânea. Um dos técnicos comentou que foi uma conjunção de casualidades tão improvável que deixou a todos "de queixo caído".

Desde 2000, por exemplo, já ocorreram nove curtos triplos (em três linhas), mas com mais de dois ou três segundos entre eles, o que impediu a amplitude do problema. De acordo com o ONS, a queda simultânea das linhas foi facilitada porque o incidente ocorreu muito próximo da subestação onde elas convergem.

Chipp criticou a posição do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que havia negado a existência de intempéries climáticas no dia do apagão. "Acho que o Inpe deve cuidar das condições climáticas. Dos efeitos disso quem cuida somos nós. Não discuto as declarações do Inpe e espero que eles façam o mesmo." Procurada, a direção do Inpe disse que só se manifestará quando ficar concluído o relatório climático da região, previsto para até o fim desta semana.

Danos nos isoladores são raros, mas não impossíveis de ocorrer, diz o professor da Universidade São Paulo (USP) Sidney Martine, que presidiu a Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista. Consultado pelo Estado sobre a versão apresentada pelo ONS, ele disse que as peças de cerâmica já poderiam estar danificadas antes do temporal, contribuindo para a ocorrência.

O especialista, porém, não acredita em problemas de manutenção. "Podem acontecer pequenas rachaduras, imperceptíveis a olho nu." Segundo ele, porém, ainda não houve tempo suficiente para investigar o que houve. "É necessário um processo de análise de todos os registros de dados das subestações para indicar o que realmente houve."
Chipp também lembrou que já é procedimento do ONS reduzir a carga de Itaipu quando o Sistema Meteorológico do Paraná indica intempéries climáticas ao longo da linha de transmissão, para evitar problemas como o que provocou o apagão.

Naquele mesmo dia, ele admitiu que tinha havido um aviso desse tipo, a carga foi reduzida, mas houve a sinalização de que o clima já teria melhorado, quando a carga foi restabelecida no início da noite. "Depois disso não tivemos mais aviso nenhum." O diretor do ONS também descartou qualquer possibilidade de ter ocorrido falha técnica ou humana.

Segundo fontes do governo, a ausência de informação tem colocado em xeque até mesmo a competência do operador. "Tá ficando chato essa falta de explicação. O pior de tudo é que, de fato, eles não sabem o que aconteceu. Só sabem que houve um curto-circuito", afirmou a fonte.

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